Quotas para mulheres


cadernoelastico,

 

A propósito do que o Henrique aqui escreve: enquanto as mulheres portuguesas não tiverem um, mas pelo menos três empregos (o das oito horas, o da família e o da casa), não há quotas que as emancipem. A verdadeira igualdade começará a ser construída no dia em que os anúncios de detergentes não forem imensos bailados de donas-de-casa.

44 comentários em “Quotas para mulheres”

      1. Parece que, infelizmente, ainda não. Pessoalmente, tenho uma embirração com este termo das “quotas” para as mulheres, enquanto que o “ménage à trois”, me agrada de sobremaneira. Alíás, não sei mesmo se a Ana Margarida não estaria precisamente a pensar nisto ao referir a questão dos “três empregos” das mulheres.
        Mas então será que esta gente, estes políticos de meia tigela, ainda não percebeu que não é com “quotas” nem meias quotas que vamos lá? Isto passa por uma transformação cultural profunda que ainda está por faezer e que leva décadas, gerações, até se ver alguma transformação significativa. Inserir as mulheres na sociedade por decreto, nunca. Bem fazem – e já são muitas as que assim pensam escrevem e opinam – que isto é um autêntico atestado de menoridade passado âs mulheres. Abaixo as quotas, viva o “ménage à trois”!

  1. Cristina, eu tenho dúvidas que consigamos mudar alguma coisa de cima para baixo, se forem só aplicadas quotas, sem qualquer outra medida. Um lugar por favor só porque nasci mulher? Não, obrigada. Uma política coordenada de apoio à família, de igualdade salarial pelo mesmo trabalho? Sim, por favor.

    Tiago, também me parece que ele tem razão. De facto, a principal desigualdade começa no nível pré-político. Mas há aqui uma responsabilidade política, quando se fecham os olhos a determinadas disparidades. O PR, por exemplo, menciona a pobreza relativa de muitas mulheres depois do divórcio, e a necessidade de se responder a isso.

    Pedro: justamente. E eu nada tenho contra mulheres que escolhem ficar em casa. Tenho, sim, contra decisões impostas.

      1. Cristina, eu não posso ser mais claro: paridade, se for necessária, é um para um(a). Até porque, daqui a algum tempo, serão os homens a ‘precisar’ de quotas: há muito mais mulheres nas universidades, na Justiça, etc., como sabes.
        Uma para um – isso é que é paridade. Gosto pouco de ‘ménages à trois’ a conspurcar a política.

  2. Sobre a publicidade sexista, inteiramente de acordo.

    Sobre quotas, não vejo como é que alguma vez elas poderão emancipar as mulheres (com um, três ou dez empregos).
    “As mulheres realmente capazes e competentes não precisam de quotas”, diz o Henrique Raposo. Eu diria mais:
    as mulheres realmente capazes e competentes não merecem as quotas”, mesmo que lhes digam o contrário.

    1. O assunto não é simples. A minha primeira reacção também é ser contra as quotas. E, teoricamente sou contra. Mas vejamos: há ou não um problema prático? Será que as quotas podem fazer parte de uma metodologia que conduza à mudança? Naturalmente que invocar as quotas sem mais nada é manifestamente insuficiente. Mas como combater mentalidade de séculos sem uns “empurrões” artificiais? O que a Cristina chama atalhar caminho?
      Não consigo ter uma certeza absoluta. Já tive mais certezas do que tenho hoje.

      :))

      1. Percebo a ideia e a tentação, MdSol e Cristina. Mas não posso concordar: os atalhos e jeitinhos não dignificam as mulheres, nem lhes fazem justiça. E já estou como o João Carvalho: se é para ser verdadeira paridade, então as quotas teriam de ser de 50% e não menos do que isso. Mas nem assim eu as aceitaria.

        1. Não sei argumentar porque, como disse, teoricamente sou contra as quotas. As minhas dúvidas colocam-se na prática. E como só em Deus (whatever) teoria e prática se confundem, admito que, na nossa caminhada de humanos imperfeitos, possam ser necessários os tais empurrões, até como modo de superar práticas que foram instituídas quando a compreensão das coisas era outra.
          Naturalmente o argumento dos 50 % mais uma vez só colhe em teoria. Na prática trata-se de propor uma mudança progressiva, para ser mais viável. Em bom rigor teria de ser feita uma proporção em função do número de homens e de mulheres que, não sei se é exactamente 50 50.
          :))

          1. Dou comigo numa posição radical, que não é nada o meu género. Mas é precisamente por todas essas intrincadas contas, cedências e sapos engolidos, em nome de um futuro mais do que incerto (ainda hão-de dizer-nos que tivemos uma esmola que generosamente nos ofereceram e não soubemos aproveitá-la), que eu não posso ceder nesta matéria. A prática seria aceitável, talvez, mas sem aceitar a teoria não consigo aderir-lhe. E não a aceito.

          2. Ok. Ana. Está, de certo, mais confortável do que eu que não tenho certezas como disse acima. Logo, esta troca, é um bom contributo para eu aprofundar as minhas dúvidas. Dúvidas práticas repito.
            :))

          3. Não estou nada confortável. Gostava muito mais de saber contemporizar e aceitar um mal menor. E sabe uma coisa? Também já me semeou algumas dúvidas… práticas. 🙂

          4. Mas a minh aposição não é contemporizadora. De modo algum. É mais malandreca rsrsr. Porque como disse, aceito falar das quotas como uma parte da metodologia de mudança. Manifestamente insuficiente em si.
            Bom e agora, que já estou quae a teclar com a testa (tal é o sono) vou indo. Qualquer dia podemos voltar a falar sobre isto.

            Boa noite.
            :))

          5. Concordo totalmente. A questão não é fácil. Por princípio também não concordo com as quotas que me parecem humilhantes. Os lugares deveriam ser exclusivamente por mérito próprio. Na prática, acabo por concordar porque pode ser um dos métodos possíveis para “empurrar” a mudança.
            De qualquer forma, se formos verificar os métodos utilizados pelos homens para lá chegar verificamos que não há muita preocupação quanto aos princípios…

        1. Isso seria na realidade o ideal, Ana, mas a verdade é que não fui eu (nem você também, penso) que teve esta ideia idiota das quotas. Como tal, julgo serem de saudar todas as opiniões que respeitem as mulheres pelo seu valor e mérito intrínsecos e não porque lhes sejam impostas regras aritméticas para a sua integração e representatividade na sociedade. Os idiotas que hoje tentam impô-las, serão os mesmos que amanhã nos imporão que escolhamos o sexo dos nossos filhos em função das quotas que seja mais conveniente preencher em determinado momento.

          1. O post da Ana Margarida põe o dedo na ferida: sem primeiro se aliviar a carga brutal de responsabilidades que têm as mulheres (os tais 3 empregos, que são bem reais para a maioria delas), não há hipótese de paridade. E haverá sempre o argumento idiota de que as mulheres parecem ter pouca apetência para a política, o que não é verdade. Não podem é chegar a mais lados, porque já estão muitíssimo sobrecarregadas!
            O problema está na raíz, por isso esta história das quotas parece-me um mau remendo, e armadilhado.

          2. Ana: Mais incisivo que o post da Ana Margarida é o do Henrique Raposo que lhe deu origem. Este, não se limita a pôr o dedo na ferida, mas põe ambas as mãos em todas as feridas. O seu final, então, é sublime: «Há coisas que não são políticas. Esta é uma delas…Têm resolução “social” e lenta». «Mais: podem não ter resolução, pois podem muito bem não ser problemas reais, mas sim ficções destinadas a preencher agendas políticas.» Isto corresponde inteiramente à minha maneira de pensar sobre este assunto. Subscrevo-o letra por letra.

          3. Mas a política pode ajudar ou prejudicar a resolução do que não é estritamente político. (haverá alguma coisa estritamente política?).
            A dificuldade em encontrar soluções pode acontecer, também, porque continuamos a procurá-las onde está o candeeiro, porque lá se vê melhor, e não as procuramos em locais inusitados, mesmo que lá esteja mais escuro, seja menos confortável a procura e precisemos de uma vulgar pilha de bolso, que obviamente não resolve o problema dos lugares mal iluminados.
            Esperar que se resolva o modo de pensar, de ser, de cada um funcionar, da sociedade se organizar, que foi cristalizando durante séculos, com a medida das quotas, ou outra qualquer avulsa, assim num estalar de dedos, não me parece razoável. Mas impedir qualquer medida que rompa o cerco criado, ainda que atabalhoadamente, alegando que tudo precisa de ser mudado antes, pode ser tão imobilista como aceitar uma medida que se sabe limitada. Há círculos viciosos que precisam de uma lógica nova para se romperem, todos sabemos isso. Mas também podem existir rasgões nesse mesmo cerco que formem nesgas por onde entre um ar diferente. Eu entendo que é preciso alguma humildade existencial para admitir que, nem sempre temos à mão, soluções completas para as questões complexas e que é preciso percorrer um caminho.
            E mesmo que na prática, num primeiro momento, quem “aproveite” as quotas sejam exactamente AS que pura e simplesmente estão mais à mão, pensemos só em quantos homens incompetentes e incultos ocupam lugares de destaque por aí.
            🙂

    2. A publicidade é paga por alguém, com a finalidade de vender um produto, quando não vende é retirada do ar. Apenas é sexista porque as vendas continuam a aumentar após exibição da mesma. O problema não está no mensageiro mas eventualmente na mensagem e certamente que no destinatário da mesma, a sociedade.

      1. Claro, António, se a sociedade não fosse sexista, estas mensagens não vendiam. Mas elas também alimentam esse defeito e o perpetuam. É um ciclo vicioso.

  3. Gosto deste post, mais do que do do Henrique Raposo.

    A questão das quotas é copiada de países nórdicos, onde foram bem sucedidas, mas por lá estas surgiram ao fim de um processo e com uma mentalidade já diferente da nossa. O primeiro passo tem que passar pelo apoio das mulheres em casa (mas isso não se faz com decretos) e o segundo pelo apoio de alguma forma ao direito à família por parte das mulheres. Ou seja, quando têm filhos, devem poder ficar uma quantidade de tempo decente em casa sem que sejam prejudicadas depois no trabalho. Até a simples pergunta, durante uma entrevista de emprego, «Está a pensar ter filhos?» é absolutamente descriminatória e as mulheres não são obrigadas a responder, mas infelizmente continua a ser usada como critério.

    Como resolver? Não sei. Só posso fazer a minha parte. Ajudo a minha mulher em casa (50/50 em tarefas domésticas) e farei o possível para ajudar a criar a família quando tivermos filhos. O chato é que até no país europeu “desenvolvido” onde vivo (Holanda) a licença de paternidade é apenas de uma ou duas semanas. Em alternativa, há frequentemente a possibilidade de ver os pais trabalharem apenas 4 dias por semana de forma a poderem passar cada um, um dia com os filhos. Claro que isto só é possível com apoio do estado e porque mesmo com a redução no rendimento, continua a sobrar o suficiente. E ainda porque os jardins de infância são extremamente caros.

  4. Neste país, a verdadeira igualdade só começará a ser construída quando mulheres medíocres ocuparem cargos de chefia, assim como actualmente, muitos homens medíocres também os ocupam.

    Qualquer mulher que nesta terrinha ocupe um cargo de chefia, teve de dar provas no Olimpo e suar as estopinhas!

      1. E o grave não será tanto isso, mas sim o que nós mulheres temos de deixar para trás, renegar por vezes, para conseguirmos alcançar os tais topos.
        Raramente temos o suporte de alguém nos bastidores, ao passo que a maioria dos homens …

  5. Completamente de acordo patti . Até porque a avaliar pelos resultados das chefias que são esmagadoramente de homens, nem seria necessário quaisquer quotas artificiais, se o acesso directo das mulheres competentes em igualdade de circunstâncias aos cargos de chefia se processasse com naturalidade. Não acredito em militâncias feministas, mas que eles nos dão razões de sobra para que elas existam lá isso dão.

    1. É tão verdade que esse acesso ao topo é dificultado às mulheres, que basta ver que a quantidade de mulheres em cargos de chefia e de responsabilidade contraria em absoluto as estatísticas de fundo: cada vez se formam mais mulheres nas universidades e cada vez há mais raparigas a acabar primeiro os cursos e com melhores notas, em relação aos rapazes. Ou seja: são as regras do mercado de trabalho, somadas à sobrecarga da “carreira familiar”, que as tolhe depois e as impede de ir mais longe.

        1. Estou quase a aceitar as quotas, Cristina (sob protesto, de qualquer maneira). Mas nunca em menos de 50%. E não é bem aceitar, é mais como aqueles remédios em que temos de fechar os olhos e tapar o nariz para conseguir engoli-los… 🙂

          A propósito 1 – Não acho que este seja um “grande remédio”. É só um analgésico leve, para uma doença grave.

          A propósito 2 – como tu, também só tenho filhos rapazes. O que não muda nada.

          1. Então sabes que os melhores alunos das turmas dos nossos filhos são raparigas. Mas que os melhores empregos e os cargos de chefia vão para eles. Educo os meus filhos para assumirem as tarefas domésticas, mas acho que isso não vai anular o gap. Passei toda a vida a sentir que era prejudicada por ser mulher. Uma quotazinha tinha-me dado muito jeito.

          2. Percebo-te, e também já senti isso na pele. A diferença é que acho que uma quotazinha não tinha evitado o julgamento “moral” de quem me rodeava, mesmo que a lei me desse esse direito. Lá está… as mentalidades.

          3. Para mim, o julgamento moral é o menor dos problemas. Passamos toda a vida a ser julgadas moralmente por sermos mulheres, porque haveria de ser diferente com as quotas? Que julguem à vontade desde que façam o favor de não se porem à frente.

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