O partido dos rancorosos em Portugal já tem demasiados sócios para que venha agora outro – eu… – acrescentar-se aos lamentos pelo estado da nação. “Eles deviam de…” é mais ou menos o mantra incessantemente murmurado pelos impotentes da indignação, pelos zangados da perpétua revolta e pelas carpideiras de um putativo passado glorioso, que aos desse tempo bem se disfarçava.
Adiante que se faz tarde, até porque quem desdenha o presente tende, por norma empírica mas ainda sem confirmação positiva, a contaminar tudo e o tempo todo, de modo que deita fora o bebé com a água do banho, deprimindo e desvalorizando a memória que deveria ser estimada. E é isto ao que venho: pôr ao vosso juízo uma questão que muito me intriga.
Falemos pois da literatura, um grémio tão cheio de comendas editoriais, críticos de barbicha e um ou outro de cachimbo, festivais autárquicos e um bom punhado de laureados, tanto os todavia em vida como os de corpo já feito em pó. É tão antigo como o comércio das putas que os sequazes da seita, os literatos, se entretenham em figadeiras de ódio e outros passatempos florais, todos muito brutos a avaliar o presente, a sobrevalorizar o passado e sempre a espreitarem de soslaio a cadeirinha da eternidade não vá a música acabar de repente. Tais cautelas porém, tendem a esticar para dentro doutros tempos os azedumes coetâneos, de tal modo que os renegados, renegados se mantêm, e os qualificados se reduzem a uma conformidade dantesca com as “narrativas” vigentes – como hão-de ter percebido, “dantesco” vem de Dantas e não de Dante.
Tome-se o exemplo de Joyce, aquele que secou as adegas todas de Dublin, Zurique e Trieste, e do seu “Ulisses”, jóia da prosa moderna, da literatura anglo-saxónica, das letras do século e do mundo. Uma obra sem luso-paralelo, dir-se-á. Pois diga-se mal. De índole e de fôlego semelhante, embora ao retardador, vejo pelo menos duas em português, uma de lá e outra de cá.
A de lá, é o reconhecidíssimo “Grande sertão: veredas” (1956) de João Guimarães Rosa, livro que não me fez mal nenhum para me pôr agora a escalpelizá-lo, nem precisa de elogios em blog para ascender às altitudes em que voga.
Mas a obra de cá, essa terá sido o obliteradíssimo “Dom Tanas e Barbatanas”, opus magnum de Tomaz de Figueiredo, com um cabedal de 388 páginas o primeiro tomo, “O Doutor Geral” (1962) e de 486 páginas o segundo, intitulado “O Magnífico e Sem Par” (1964).
Tomaz de Figueiredo é um nome escoado pelo ralo das modas, muito mais persistentes do que parecem, ou das “narrativas” (esta palavra que não me sai da cabeça…), por ter ele infelizmente advogado uma direita escabrosa, ultramontana e miguelista. Não obstante, odiava Salazar com fervor, por razões políticas (achava-o um frouxo), psicológicas (um sonso), sociais (um plebeu) e coimbrãs, onde terá eventualmente sido discípulo do velhaco de Santa Comba. Levante-se com pinças a camada de lepra ideológica, porque debaixo dela medra com vigor uma prosa e uma língua, um sarcasmo e uma alma dorida, que nem o despenhado Aquilino alcançou, muito menos outro qualquer da sua geração, ou doutras do século passado.
Quer dizer: Tomaz de Figueiredo que passou de raspão pela Presença, foi excomungado pelo Seara Nova e mal tolerado pelo Estado Novo, acabou por não ter onde cair, nem vivo nem morto, a não ser no purgatório do esquecimento. Se não for lido assim continuará, do mesmo modo que continuarão os queixumes pelas fomes da pátria, tanto mais ignorantes quanto mais ignorância presumem existir à volta da luz que julgam emanar.

Parece que não está relacionado…
Outro dia fui ao supermercado. À porta alguém pedia uma moedinha. Acedi ao pedido.
Poucos dias depois voltei, mas fiquei à porta, aguardando no carro a minha mulher.
O mesmo sujeito a pedir.
Muita gente contribuía. Ele, para iludir o adquirido, além das moedas, juntara tudo em cinco sacos cheios de compras, bem afastados dos olhares directos. Um saco cheio de pacotes de leite, outro de massas, arroz, etc… Tinha organizado o seu Banco Alimentar.
Chegou uma concorrente. Tirou os sapatos. Não sei se por questão visual, ou de comodidade.
Ele, ficou perturbado, pontapeou-lhe os sapatos. Ela ignorou-o, foi colocar os sapatos noutro lado.
Ainda que continuasse a pedir, ele estava mais perturbado com a concorrência. Assim que alguém se prestava a dar dinheiro, ele apressava-se a descredibilizá-la. Ele não recebia, mas parecia-lhe mais importante garantir que ela não recebesse.
Acho que nunca me pareceu tão clara a diferença entre um pobre e um miserável.
A sociedade portuguesa não é pobre, é miserável.
Guardou num saco, longe dos olhares, muitas obras literárias, artísticas, científicas, etc…
Prefere a moeda directa. O resto foi para negociar. É claro, coisas que arriscam o lixo pelo esquecimento.
Interessa manter o ar miserável, para o voluntarismo da dádiva, piedade da gente pela aparente pobreza. Iludida a gente, compreende e vai dando…
Nunca li Tomaz de Figueiredo, mas como ele, muitos outros há, guardados nos sacos de dádivas.
Escondidos, para manter o ar miserável, apodrecem no esquecimento da Biblioteca Nacional.
Apontar um dos sacos, estragando o visual da miserabilidade?
Insanos petizes, a estragar o negócio da família?
Oh! Minha senhora, era arroz com gorgulho, leite coalhado, iogurte fora de prazo… veja lá a minha má sorte, até com estes filhos vesgos!
Muito bom texto, caro JNA, sem dúvida despertou o interesse para um autor a quem parece ter faltado, e faltará, o sindicato necessário à sua promoção.
Cara Da Maia, peço-lhe muito que perdoe a minha enorme má criação por ter tardado tanto a publicar o seu comentário e a responder-lhe. Estive longe do acesso a esta caixa e fiquei impedido. As suas palavras são como a segunda parte integrante do post – agradeço-lhas sinceramente.