O nosso subconsciente é tramado


Pedro Correia,

Há muitas maneiras de evidenciar sexismo. Eis uma delas, neste artigo de Mário Soares sobre Margaret Thatcher. Todos os políticos (homens) que ele conheceu ou admirou são mencionados pelo nome e apelido; apenas a ex-primeira-ministra britânica, agora falecida, é exaustivamente contemplada com a deselegante expressão “senhora Thatcher”. E, na única vez em que a trata pelo nome próprio, Soares engana-se: saiu com gralha.

O nosso subconsciente é tramado.

24 comentários em “O nosso subconsciente é tramado”

  1. Pois é tramado o subconsciente , mais o de uns que o de outros .
    Mas atirar para cima da senhora uma quantidade de coisas que sempre foram e continuam a ser atributo de todos os 1ºs ministros ingleses desde os primórdios da CEE é obra .
    E continuar a achar que Obama é que “está a dar” , ele que nunca deu grande coisa , ainda é mais obra (suceder a Bush era fácil , bolas!).
    Muitos portugueses – como eu – bem gostariam de ter ficado com o Mário Soares que admiraram .

  2. Em primeiro lugar, sou suspeito. Convivo com feministas e, abertamente e frequentemente, discordo de algumas posições. Houve aquele episódio caricato, no Parlamento Europeu, onde um grupo parlamentar sugeriu que eram os homens – género masculino – os responsáveis pela crise.

    Obviamente, julgo que esta observação não é só exagerada, como disparatada. Devo acrescentar que sou duplamente suspeito, porque a minha simpatia por Mário Soares é mínima. Reconheço que é uma figura relevante para a democracia, mas de resto, como governante e como magistrado da nação, não vejo reunídas em Mário Soares características suficientes para ver nele uma figura que trouxe raios luminosos ao país. Até acho que as deficiências da democracia, nascem, também, de suas mãos.

    Mas a questão é relevante, quando dizem-me que as mulheres sofrem discriminação tenho tendência a ficar desconfiado. Não gosto de expressões como “opressão” ou “repressão” masculinas, porque acho que estas não traduzem o que realmente acontece.

    Recentemente, porém, deparei-me com dois episódios, um relacionado com uma funcionária, que foi “afastada” por conduta imprópria, o outro, um acto de violência verbal. Em ambos os casos fiquei chocado. No primeiro, pela ligeireza da argumentação que sustenta o “afastamento” da jovem administrativa, e pela forma como as colegas femininas menosprezaram o incidente, e, inclusive, manifestaram genuíno desprezo pela “tipa”, uma atitude contraditória e inconsistente com os ideiais “feministas”, por vezes, expressos. O segundo, pela total indiferença manifestada por um bom grupo de amigos, perante o uso de expressões pouco dignas, e humilhantes.

    Fico aqui a pensar que há um enorme fosso entre aquilo que se diz, aquilo que é o nosso discurso público, e aquilo que fazemos, ou seja, as nossas atitutudes em “contexto” são muito diferentes das posições em abstracto. E pergunto, se os movimentos feministas têm noção disto, se preocupam-se com estas fissuras, infelizmente, tão comuns.

    É que, muitas vezes, como diria Morrissey, são as pequeníssimas coisas que fazem uma colossal diferente. E estes dois episódios são exemplo disto, há todo uma gritaria em torno das questões relacionadas com a condição feminina, mas, nos dois casos que mencionei, em vez de vermos duas mulheres, deveríamos, simplesmente, esquecer o detalhe “género”, e, tão somente, ver duas pessoas.

  3. Ele demonstra invariavelmente que, no seu elevado entendimento, se considera uma criatura superior. Ainda há dias botou, rreferindo-se a Cavaco “Sugiro-lhe que vá a Boliqueime e pergunte ao Povo, que conhece bem, se não há crise”, troçando obviamente do nome da terra do actual PR. Não lhe ocorreu dizer que fosse à Praia do Vau ou a Nafarros, por exemplo.

    E, no estilo do tratamento dado à senhora Thatcher, os mais antigos ainda se recordam de ter chamado “dona de casa” a Nicole Fontaine.

  4. Toda a linguagem é sexista. Por exemplo, é normal tratar uma mulher por “senhora Dona”, que pode ser considerada, por alguns, uma expressão deselegante ou até ridícula. Idem, é normal tratar uma mulher jovem por “menina”.
    Em Portugal, é normal, inclusivé jornalistas mulheres, falarem da chanceler alemã como “senhora Merkel”, enquanto que não usam “senhor” para nenhum político homem.
    É claro que dá jeito ao Pedro atacar Soares, e para isso todos os argumentos servem.

  5. O decano Soares é e sempre foi um machista a roçar o misógino – e ai das mulheres se forem fortes e estiverem no campo oposto ao de Soares, ou entre ele e as suas ambições: Fontaine era uma “dona-de-casa”; Merkel é uma senhora “sem mundo” que “deve regressar à Alemanha de Leste, onde nasceu”; Margaret Thatcher “foi” aquilo que se pode ler.

    Para Mário Soares, o lugar das mulheres é na cozinha, e o seu valor político é o de uma flor na lapela. Joana Amaral Dias, imagino, foi para Soares a mulher perfeita: como mandatária nas suas (esperemos) últimas presidenciais, limitou-se a ficar atrás dele, sorrindo embevecida perante a sapiência debitada pelo ancião e batendo as cuidadas pestanas.

  6. Angela Merkel também é, a maior parte das vezes, a sra. Merkel… e deve estar lembrado da tal dona de casa contra a qual D.Mário I disputou a presidência do parlamento europeu…

    1. Não li, meu caro. Vai-me faltando o tempo e sobretudo a paciência para certos articulistas, que deixei de frequentar por nada terem de esrimulante para dizer.
      Um abraço.

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