Tiro no porta-aviões.


Luís Menezes Leitão,

 

O desastre absoluto de Gaspar era visível desde o primeiro momento em que tomou posse. Mas a culpa não é dele, e sim de quem o escolheu para Ministro das Finanças. Era perfeitamente visível que a política de aumentar impostos e cortar salários em período recessivo só poderia piorar a situação, como qualquer estudante de Finanças Públicas sabe. Mas o Ministro das Finanças não é o senhor absoluto do Governo, devendo ser enquadrado pelo Primeiro-Ministro e até pelo próprio Presidente da República. Ora, o Primeiro-Ministro demonstrou-se totalmente incapaz de exercer qualquer controlo político sobre o Ministro das Finanças, deixando-o a pilotar um navio cada vez mais desgovernado. E o Presidente da República ficou de fora sem dar qualquer indicação, parecendo querer assistir de longe a este naufrágio anunciado.

 

Neste aspecto, a fiscalização sucessiva do orçamento por Cavaco Silva foi um presente envenenado para o Governo. Se tivesse realizado uma fiscalização preventiva, o orçamento seria declarado inconstitucional em 20 dias, mas o Governo ainda poderia corrigir a situação. Quase três meses depois, quando o barco já metia água por todos os lados, o chumbo pelo Tribunal Constitucional tem o efeito de um tiro no porta-aviões. Agora já não é só Gaspar que tem que ir para casa, mas sim Passos Coelho. Os partidos da maioria têm que arranjar rapidamente uma nova solução de governo que evite uma tragédia nacional. A meu ver, já há muito tempo que o deveriam ter feito.

 

9 comentários em “Tiro no porta-aviões.”

  1. Fiscalização preventiva de Cavaco? Desconhecia esse mecanismo. Outro factor curioso é que o Politburo do PS já conhece a decisão definitiva do TC, caso contrário não tinham mandado vir o filósofo para limpar a imagem e Seguro não tinha convocado uma reunião para avançar com uma moção de censura. É uma maravilha sabermos que um tribunal com a importância daquele mencionado afinal não é mais estanque do que um passador de uma queijeira da Covilhã.

    1. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando ouvi a noticia. Fiquei admirada..depois pensei..estamos em Portugal ..é verdade!
      UMA VERGONHA PARA O TC!

  2. Para além da dúvida que o PR tinha sobre a constitucionalidade de tais medidas, não posso adivinhar que outras intenções subjazem no facto de ter optado pelo pedido de fiscalização sucessiva e não preventiva.
    A meu ver, esse pedido foi muito bem decidido, porque permitiu que o TC se pronuncie num período em que a salgalhada levada a efeito por este desgoverno se torna mais clara a todos os cidadãos.
    Se a fiscalização preventiva tivesse sido pedida, e o TC se tivesse pronunciado no espaço desses 20 dias, o que hoje veríamos seria bem pior do que a situação em que nos encontramos, porque eles, à sua (deles) douta maneira, já teriam deitado o porta-aviões ao fundo.
    Sempre estive de acordo que fosse estabelecido um plano de austeridade, mas o que não estou de acordo é que esse plano de austeridade resulte de sucessivas medidas desprovidas de senso que obrigam os cidadaõs, em particular os mais desprotegidos, a financiar esses sucessivos erros e não a pagar a dívida.
    Corta-se nos ordenados, inventa-se propaganda para levar a crer que os desempregados refugiam-se em habilidades só para receber um fundo de desemprego, estigmatizam-se pessoas que recebem o Rendimento Social de Inserção e, por esta campanha, inibem outras, também absolutamente necessitadas, de pedir ajuda ao estado (espero que a medida que aí vem de iniciarem um novo processo de avaliação para atribuição do RSI não sirva somente de pretexto para suspender o pagamento das verbas, que muitos estão a receber, como medida de poupança temporária, e depois voltarem a atribuir novamente essas verbas). É dever e direito de todo o cidadão solicitar que o estado cumpra com a sua obrigação no que respeita a apoiá-los em momentos de necessidade, isto não é uma esmola, mas antes reivindicar o que por direito e dever lhes é devido. Peçam, peçam e exijam muito porque a situação gravosa em que o país se encontra deve-se ao prolongamento da política de Sócrates que Passos Coelho subscreveu e até mesmo admitiu pretender ir mais longe, ou seja, transformar este porta-aviões definitivamente num naufrago.
    Cheguei à conclusão, pelas declarações vindas a público, que afinal o problema destes rapazes é a falta de jeito para o desenho. Dizem eles que o plano estava mal desenhado, mas não só participaram nele (recordo-me das declarações de Catroga e da leitura de Portas aos portugueses depois de sair dessa negociação) como também continuaram a caricaturar o boneco numa folha de cálculo.
    Quero que a austeridade neste meu país seja um meio para sair do atolamento a que Sócrates, Passos Coelho, Vítor Gaspar & Cia Lda. conduziram este povo, e não um meio para financiar experiências de gente inepta e inapta, que também se encontra noutros países e em organições supranacionais. Tudo isto tem provocado o desemprego, e estas políticas fazem com que ninguém se atreva até mesmo a criar o seu próprio emprego quanto mais falar de investimentos no país. Como se pode ser empreendedor num país que não oferece o mínimo de estabilidade governativa!!??
    Chegou o momento do Senhor Presidente da República colocar a soberania, através de novas eleições, nas mãos deste povo. Senhor Presidente, a história revela que sem pão e sem esperança a alternativa é a guerra. Evite isto!!!!!, porque temos direito à Paz, ao Pão, à Saúde, à Alimentação e a um tecto digno para vivermos. Não queremos andar a esmolar por causa de outros. Queremos pagar a dívida, com sustentabilidade e não com a miséria que originará que sejamos eternos devedores.

  3. “Era perfeitamente visível que a política de aumentar impostos e cortar salários em período recessivo só poderia piorar a situação”

    Um junky a queixar-se que não tem mais heroína…

    É hilariante, não deu pelo caso de não nos emprestarem mais dinheiro porque atingimos o limite do “cartão”?
    Então o que é que esperava que acontecesse com menos défice ou seja menos crédito, menos dinheiro dos outros para pagar despesas correntes.
    Que este Governo é um desastre por ter decidido punir quem cria riqueza não discuto. Mas qualquer pessoa que saiba fazer contas sabe que era inevitável o regresso à economia que produzimos e a economia que produzimos+crédito acabou por muitos anos.

    Será que a gestão anterior que no limite pagava com dívida 3-4 meses de ordenados da Função Publica etc… é que era um caminho recomendável, isto fazendo de conta que não perdemos o crédito…
    Para si basta despejar dinheiro para ter crescimento?
    Pelos vistos os 10 anos anteriores de altos défices e crescimento nulo não ensinaram nada.

  4. Se acham que o que se passa é mau, e é, então esperem pelo que se está a preparar: o regresso dos socialistas ao governo coligados com o BE, que na altura própria vai abrir as pernas, porque a vertigem do poder cega até os mais renitentes.
    Não sou bruxo, mas parece-me que na próxima semana o Chipre vai sair do euro e da União Europeia.
    Nestas coisas da politica, como em muitas outras, o que custa é o primeiro: a seguir vão os que forem preciso! Não sei se já repararam, mas os tempos não estão para brincadeiras, nem para estados de alma: é que o dinheiro está mesmo a escassear, até onde agente pensava que ele abundava!
    Quando às decisões do TC, podemos esperar de tudo: chumbo de algumas medidas, mas não vale porque a situação é má; ou chumbo efectivo e o aumento dos impostos no respectivo valor. A levar a cabo por este governo, ou pelo que vier a seguir.

  5. “Era perfeitamente visível que a política de aumentar impostos e cortar salários em período recessivo só poderia piorar a situação, como qualquer estudante de Finanças Públicas sabe.” Bom, eu gostava de saber qual seria a receita que recomendaria, na situação em que o País se encontrava e encontra. Onde é que acha que se iria buscar o dinheiro para pagar salários da FP e reformas, quando a torneira do crédito se fechou…Também é dos que entende que poderíamos imprimir notas de euro numa rotativa? E já agora: onde é que estudou Finanças Públicas? É que eu também estudei…

    1. Fico surpreendido quando alguém fala ou escreve como se este país fosse uma ilha. Se por um lado argumentam com os parceiros europeus não compreendo a razão da não invocação dessa parceria quando é para levar a efeito um holocausto financeiro, e não só. Terei muito gosto em conferenciar consigo sobre finanças e mercados. Estou sempre disposto a aprender.

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