Nosso professor no mestrado, no ISCTE. Nós chegados de outras áreas, desconfiados do discurso economês, aquela arrogância ideológica que se grita ciência, aquela outra vinda da costela dos gestores disfarçados. E a sermos recebidos por um economista assim, economia compreensiva, outros a dizerem-na “economia social”. Debruçado na questão do desenvolvimento, mudar “isto” – e acho que ainda não se lhe chamava “sustentável”, era “enraízado” o apelido inglês que se lhe dava. E quão complexo era pensar o desenvolvimento naquele princípio dos anos 1990s, esbroado o mito comunista, explodindo os “tigres”, alterando-se a situação política em África sob “Bretton Woods”, contratualizando-se o GATT. E, já então, notoriamente descentrando-se o mundo da Europa. Podemo-nos sentar, eu, em casa, em família, o FF [meu co-bloguista no ma-schamba] e não só, e não só, e constatar que para tanto do que se anda hoje a discutir [a nossa vida, o nosso futuro, e o da(s) nossa(s) comunidade(s)] fomos nós convocados naquela altura. Alguns responderam à chamada, outros nem tanto. Pois a cada um o seu caminho, intelectual e profissional.
Assim um Professor. Um cavalheiro, também, dotado de uma enorme doçura, cruzada com a ironia bem-humorada. Com especial carinho por nós, gente da antropologia. Não só pelo seu humanismo. E não só por causa da sua paixão por Cabo Verde … Passados anos, uma década, integrou um processo de formação pós-graduada em Maputo. Por várias vezes aqui esteve. Foi visita cá em casa, nós cerimoniosos, em reverência não só pela sua idade. Nessas vezes chegou, pelo acaso, até a coincidir com o antropólogo da sua família, o Jorge, nosso companheiro de há muito. E era sempre um prazer a conversa com ele. Até pelo seu interesse no que aqui fazíamos e no aqui se passava, até nisso denotando um raro descentramento. De si próprio, do seu e nosso país. E do pequeno mundo académico.
Um economista nada acidental. Ficam os livros ali na estante. E também a sua página informática. Para quem o leu e conheceu. E para quem não o leu. Está aqui: Mário Murteira.


Acredito que Mário Murteira fosse uma excelente pessoa, e uma mente intelectualmente superior.
Mas MM fica na História do pós 25/4, como o ministro das finanças que nacionalizou a economia portuguesa a seguir ao 11 de Março de 1975, era então 1º ministro do IV governo provisório Vasco Gonçalves, e fê-lo não para salvar a economia portuguesa, mas por razões exclusivamente ideológicas, provocando uma catastrofe de que Portugal nunca mais recuperou.
Faço votos de que “a terra lhe seja leve”.
Desculpar-me-á, mas não quero fazer aqui, neste texto e neste momento, um debate sobre esse sempre momento da história do país e da biografia de Mário Murteira. Ouvi-o fazê-lo, até à minha mesa (tendo eu colocado as coisas mais ou menos como V. as coloca). E muitos o fizeram já. (E continuarão a fazer).
Ainda assim, e até lateralmente, permita-me sublinhar que quando a governação acredito numa coisa, e acredito visceralmente: não se governa sem opções ideológicas. Pior do que os tecnocratas (aparentemnte desideologizados) só, alguns, apparatchiks. A esses “que a terra lhes seja pesada”.
Caro JPT, a minha ultima frase nada tem de irónico: o homem já não pertence ao mundo dos vivos, pelo que da minha parte tudo quanto eu escreva ou diga sobre a sua actuação como politico, e neste caso como ministro das finanças, não será nunca pessoal.
Podia ter escrito p. ex. RIP!
Quanto ao resto, cada um fica com a sua.
Ainda bem.
Até breve, cumprimentos