O Bloco de Esquerda consegue marcar presença em qualquer debate televisivo: só falta mesmo vê-lo envolvido também nas discussões para a eleição do novo presidente do Sporting.
Ontem à noite, num canal televisivo, lá vimos o professor Fernando Rosas – um dos quatro fundadores do Bloco – perorando numa dessas tertúlias televisivas a propósito, vejam lá, da eleição do novo Papa. Começou logo, sem rodeios, por declarar-se ateu – o que em princípio não o recomendaria a estar presente num debate entre quatro pessoas sobre a Igreja: num país que tem vários milhões de católicos, certamente não foi por falta de alternativas que ele ali estava. Se o mesmo critério for aplicado num futuro debate sobre o próximo líder do Bloco de Esquerda (Deus conserve a liderança bicéfala de Catarina Martins e João Semedo por muitos e bons anos), não ficarei surpreendido por ver em estúdio alguém que esteja para a política como Rosas está para a religião.
O que disse neste debate o mais famoso ex-fumador de cachimbo da esquerda portuguesa? Nada que não se previsse: o Bloco impõe o seu caderno reivindicativo em todas as circunstâncias – e como tal, enquanto “cidadão do mundo”, Rosas apressou-se a enunciar o seu ao Papa, chefe de uma religião em que não crê.
Para merecer a indulgência do ilustre historiador, o ex-arcebispo de Buenos Aires terá de cumprir a agenda bloquista em matéria religiosa, isto é: pronunciar-se contra o “capitalismo selvagem e a irracionalidade neoliberal”, assumindo-se como “um Papa dos oprimidos”.
Mas, despido de paciência evangélica, Rosas não perde tempo a lançar um anátema sobre o sucessor de Bento XVI, do alto da consabida superioridade moral que serve para qualquer militante bloquista encarar o mundo. Ele, que duas horas antes talvez nem tivesse alguma vez ouvido falar em Jorge Mario Bergoglio, já estava ali na pantalha a dardejar o seu verbo inflamado contra o pontífice recém-eleito: “O passado dele não é muito animador. Observo com reserva um Papa que foi duro com Kirchner e mole com a ditadura.”
Se tivesse esperado um pouco mais, se soubesse informar-se melhor antes de se pronunciar sobre o que ignora, o professor Rosas teria lido a declaração de Adolfo Pérez Esquivel, o prestigiado Nobel da Paz argentino, que em declarações à BBC não deixa lugar a dúvidas: “Bergoglio não teve nenhuma ligação à ditadura.”
Abalará esta declaração as flamejantes certezas dos censores morais? Certamente que não. Podem proclamar-se ateus, como Fernando Rosas, mas adoram pregar no púlpito. Nunca se enganam e raramente têm dúvidas.


Partilho com Fernando Rosas o estatuto de fumador (ainda que milite nos cigarros) e a prática do ateísmo. E ainda que pense que o Papado, pela sua influência em Portugal e em parte do mundo, seja assunto discutível por todos, e pelos incréus também, concordo nisso que referes, porquê chamar um ateu para botar sobre “quem é o novo Papa”. E mais do que tudo, o que deve ele fazer.
Quanto ao resto, hoje vi imensas acusações ao Papa genocida e traficante de orfãos (para além de comilão, dado que as crianças africanas “não têm papa” – não passa pela cabeça dos “memeístas” da esquerda baixa que parcela-mor da crise contra a qual vociferam vem de que as crianças sul-americanas e asiáticas têm muito mais papa agora, em detrimento dos eurocartões-de-crédito). E notei que o mundo mudou: dantes eram os comunistas que comiam criancinhas agora são os Papas …
Pela mesma lógica televisiva, espero agora ver, num debate televisivo sobre o Benfica (por exemplo), alguém alérgico a futebol…
Enquanto escrevo estas linhas, vejo novamente o professor Rosas a perorar sobre o Papa, pelo segundo dia consecutivo, noutro canal televisivo. É, visivelmente, um tema que o fascina.
(Mais do que ao cachimbo, meu caro: ele ingressou já há alguns anos no clube dos ex-fumadores)
Não há isso de ex-fumador … Uma vez fumador, fumador para todo o sempre (este sempre é que se vai reduzindo …) Um tipo pode não praticar, mas isso é porque vive em estado de carência
(depreendo do teu comentário que eu, sportinguista, não deva comentar nem reflectir sobre as acções do Papa Jorge Nuno. Não é o meu entendimento … O que não tem lógica é que me chamem para a TV para comentar quem lhe deve suceder e como deverá actuar. – até porque eu pediria a extinção daquela igreja, como é óbvio)
Não é esse o paralelo, JPT. O paralelo com o ateu a dar a táctica sobre o que deve ser e como deve comportar-se o Papa é alguém que nunca tenha visto um jogo de futebol na vida dizer como a equipa X ou Y terá de agir em campo.
Têm todo o direito de não ir à missa ou à bola e até de fazer disso uma senha de identidade, claro. Mas custa-me entender que se pronunciem apaixonadamente sobre esses temas como se por momentos fizessem parte da agremiação – religiosa ou clubística. Estar e não estar simultaneamente é uma impossibilidade metafísica.
Estou, e julgo que será óbvio, de acordo contigo. É absurdo colocar os não católicos (não apenas os ateus, ainda que nós sejamos um caso particular nesta questão) a botar sobre o que o Papado, novo ou em curso, deve ser ou fazer. Opinar sobre, reflectir sobre, claro que sim, como sobre as outras facetas desta vida. Mas esta vontade de transformar a igreja por parte de quem nela não participa é uma tontice.
Disse que foi duro com Kirchner e suave com a ditadura. Não foi nada de mais, “suave com a ditadura” não significa que foi colaborador. Significa que não foi opositor e que frequentava os corredores do poder; o que é plena verdade. E também é plena verdade que foi grande opositor de Kirchner.
Só que Nestor Kirchner é, tão só, o Franklin D. Roosevelt da Argentina; ele correu com o FMI de lá para fora, tirou o país de uma depressão económica e, com isso, tirou o povo argentino da miséria extrema. É uma pessoa que muitos de nós respeitamos, pela coragem que teve e por ter conseguido governar (com o bom senso que falta aos nossos políticos) um país numa situação semelhante à nossa.
Fiquei fascinado com o seu fascínio pelo ‘Roosevelt argentino’. Mas em matéria de peronismo, se não me leva a mal, fico-me pela definição do grande Jorge Luis Borges: “Los peronistas no son ni buenos, ni malos; son incorregibles.”
“Kirchner manteve uma relação verbal conflituosa com o FMI, ainda que tenha optado, a exemplo de Lula, presidente brasileiro, pelo pagamento antecipado da totalidade da dívida com este organismo internacional (mais de 10 bilhões de dólares). Assim, apesar das declarações públicas, o governo de Kirchner foi o que mais pagou dívidas ao FMI em toda a história argentina.”
Dizem por aí as fontes onde bebi …
Bloco de Esquerda a comentar o Sporting ? bem sei que o Daniel Oliveira abandonou o BE recentemente, mas antes disso já comentava as ditas eleições, quanto a Perez…só acredito no Enzo !! 🙂
Tem bons motivos para isso, ‘Anónimo Desconhecido’. Já eu, em matéria clubística, ando quase a tornar-me agnóstico.
Este desabafo é apenas uma ironia, com um pé no sarcasmo. Fatwa aconteceria …
Eheheheheh…
A continua aparição destes paineleiros esquerdistas nas Tv´s (realmente só falta o futebol…) não é perceptível á luz da razão.sabem de tudo !
As pessoas vulgares, mais letradas ou iletradas, esão CANSADAS DE PAPAGAIOS ! e os que podem, passam para o cabo, onde pelo menos têm outras alternativas!
As Tv’s no nosso País, as TVI24,SIC Noticias, RTP Noticias, funcionam em circuito fechado, emitem para uma minoria de iluminados, comentários feitos por paineleiros, que parecem aqueles pavões inchados na época de acasalamento !
Alexandre
Neste caso específico, acho algo exagerado ver o professor Rosas aparecer em duas mesas-redondas televisivas (na RTP e na TVI), em menos de 24 horas, como treinador de bancada do Papa. Num país com mais de dez milhões de habitantes devia haver maior rotação de comentadores televisivos.
A história, história, repito história, de um homem começa a ser feita depois que é conhecido; e nela constarão certamente várias etapas. Esta história, para ser verdadeira, deve ser escrita não por percepções e emoções que outros têm, mas também pela percepção e pela realidade que a esse homem acompanhou.
Espero que os historiadores, por emoções, não caiam na tentação de contar estórias.
Concordo consigo. E devo acrescentar que o trabalho de Fernando Rosas como historiador é sério e bem fundamentado, merecendo-me natural respeito.
Pois eu Pedro postei-te no meu Fio de prumo porque disseste muito melhor do que eu diria, o que senti!
A minha vénia agradecida, Helena.
Se o Doutor Rosas comentou, não enquanto historiador mas na condição de militante do Bloco de Esquerda, eu acho bem e digo porquê.
A meu ver, o BE é, assim, uma espécie de religião, onde o Dr. Rosas deve ter um lugar equivalente a Bispo (o D. Policarpo também fuma…) e o Doutor Louçã, embora parecendo padre, também deve andar lá por perto, tipo monsenhor, ou parecido.
Nestas condições, acho que tem interesse ouvir o BE, e outras agremiações do mesmo género, numa espécie de diálogo inter-religioso. Ouvir seitas é que não.
Também acho bem. Aguardo agora que um bispo se pronuncie também, em mesa-redonda, sobre a liderança política do Bloco de Esquerda. Sempre em nome do ecumenismo.
E por que não? É só enviar o convite ao D. Torgal Ferreira, que ele aceita imediatamente. Como aceitaria para falar sobre o Porto ou sobre o Benfica. É só falar (-lhe).
Talvez também sobre o Carcavelinhos…
Ouvi ontem o insuspeito Guilherme Oliveira Martins, uma pessoa por quem tenho muito respeito, negar veementemente essa tese da responsabilidade do Papa na prisão dos padres e o envolvimento directo com a ditadura de Videla. Enfim, há esquerda e esquerda.
Há uma certa esquerda incapaz de aceitar as crenças religiosas e de conviver com elas. Foi verdadeiramente lamentável que seis deputados do PS tenham recusado um voto de saudação ao novo Papa na Assembleia da República. Para memória futura, aqui ficam os nomes destes seis magníficos: António Serrano, Elza Pais, Isabel Moreira, Mário Ruivo, Miguel Coelho e Pedro Alves.
Como é que ainda não comentou o futebol do Canelas?
O Fernando Rosas ainda não comentou porque talvez não goste de futebol.