Um bispo voando sobre um ninho de cucos


Rui Rocha,

Está um pobre de Cristo com os olhos e os ouvidos postos no Vaticano, sempre em estado de prontidão, à espera de um sinal do Espírito Santo, de uma manifestação do Divino, de uma inspiração do Altíssimo, e eis que a roda dos milagres aponta, pasme-se, para Bragança. Ali nos fazendo ver não um, mas uma catrefada deles. O primeiro consistiu, nada mais, nada menos, no facto de o Bispo de Bragança-Miranda ter voado. Literalmente, não na acepção mística. E sem bater as asinhas. Não muito, é certo. Coisa de 2 ou 3 metros, dizem os que viram e não foram poucos. O segundo no de D. José Cordeiro ter saído ileso de uma aterragem que, tudo somado, teve os seus melindres. O terceiro, mas seguramente not the least, no de o representante do Gabinete de Comunicação da Diocese ser o padre Fernando Calado. O quarto no de este, apesar disso, ter falado. Na ocasião, para esclarecer integralmente o assunto. O quinto no de o nosso Cordeiro de Deus, apesar de toda a pobreza e contrição que prega e vai recomendado, ter encontrado financiamento suficiente para se fazer transportar num Passat CC, sabendo nós, louvado seja o Senhor, ao preço a que está o dinheiro. O sexto no de o voo do Bispo contribuir decisivamente para a revitalização do sector automóvel potuguês. Se formos a ver, foi o Clio do leigo para a sucata e o Volkwagen do Bispo para o estaleiro. Tudo material que fica carecido de substituição. O sétimo no de a Sagrada Família, utilizando como  utilizava, um burro como meio de transporte, sem ABS, airbags ou rodas direccionais, ter conseguido sempre escapar a qualquer acidente. O último no de se terem salvo do embate um ninho de cucos e os seus condóminos, coisa que, não sendo verdade, ajuda muito a compor o título.

21 comentários em “Um bispo voando sobre um ninho de cucos”

  1. Que se tenha salvo um ninho de cucos não é, por si, um bom sinal. São os cucos promíscúos, acasalando machos e fêmeas com vários parceiros e parasitam os ninhos dos outros deixando que outros lhes alimentem as crias, clamando pelo estado social. Podem assim, livres de preocupações, serem os primeiros a anunciar a primavera, coisa que este ano terão de rivalizar com a chaminé da capela sistina.
    Desta história podemos, não tirar uma lição, mas confirmar o adágio: Lixam-se os pobres que ficam sempre por baixo. Houvera de cair um clio em cima de um passat e ouviríamos o beija-flor, que é ave operária, anunciar a primavera.
    Quanto ao burro, venerável transporte da sagrada família, não é certo a isenção de acidentes, mas a ocupação do estábulo de uma vaquinha pachorrenta que teve assim de partilhar quer a mesa quer a cama com asno metido a limousine, é certeza firmada em notário.

    1. As igrejas são assim: falam por calados e calam-se nas denúncias. Preocupa-me apenas as crianças, pois essas não costumam ser protegidas por airbag nem, infelizmente, pelos nossos impostos. Ainda bem que os cucos saíram ilesos. Ao bispo, desejo voos mais ambiciosos – se se apressar, ainda o nomeiam papa.

      1. Rui, o meu irmão escreve como um verdadeiro crente. Constato isto através das reticências que coloca à frente do «Audi ou de um BMW». Na realidade, um crente nunca coloca limites à providência Divina; Porque não um Ferrari ou Lamborguini?

  2. O dinheiro está caro, mas não é para todos.
    Quando o despesismo chega da Igreja…eu chamo-lhe falta de moralidade…mas isto sou eu que tenho um feitio do pior!!

    😉

  3. São as tragicomédias do nosso tempo, aqui muito bem exemplificada e retrata ! Há muito, muito tempo que não não chorava e ria ao mesmo tempo – pois foi exactamente o que me acoteceu enquanto lia este artigo.

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