Está um pobre de Cristo com os olhos e os ouvidos postos no Vaticano, sempre em estado de prontidão, à espera de um sinal do Espírito Santo, de uma manifestação do Divino, de uma inspiração do Altíssimo, e eis que a roda dos milagres aponta, pasme-se, para Bragança. Ali nos fazendo ver não um, mas uma catrefada deles. O primeiro consistiu, nada mais, nada menos, no facto de o Bispo de Bragança-Miranda ter voado. Literalmente, não na acepção mística. E sem bater as asinhas. Não muito, é certo. Coisa de 2 ou 3 metros, dizem os que viram e não foram poucos. O segundo no de D. José Cordeiro ter saído ileso de uma aterragem que, tudo somado, teve os seus melindres. O terceiro, mas seguramente not the least, no de o representante do Gabinete de Comunicação da Diocese ser o padre Fernando Calado. O quarto no de este, apesar disso, ter falado. Na ocasião, para esclarecer integralmente o assunto. O quinto no de o nosso Cordeiro de Deus, apesar de toda a pobreza e contrição que prega e vai recomendado, ter encontrado financiamento suficiente para se fazer transportar num Passat CC, sabendo nós, louvado seja o Senhor, ao preço a que está o dinheiro. O sexto no de o voo do Bispo contribuir decisivamente para a revitalização do sector automóvel potuguês. Se formos a ver, foi o Clio do leigo para a sucata e o Volkwagen do Bispo para o estaleiro. Tudo material que fica carecido de substituição. O sétimo no de a Sagrada Família, utilizando como utilizava, um burro como meio de transporte, sem ABS, airbags ou rodas direccionais, ter conseguido sempre escapar a qualquer acidente. O último no de se terem salvo do embate um ninho de cucos e os seus condóminos, coisa que, não sendo verdade, ajuda muito a compor o título.
Um bispo voando sobre um ninho de cucos
Rui Rocha,


Que se tenha salvo um ninho de cucos não é, por si, um bom sinal. São os cucos promíscúos, acasalando machos e fêmeas com vários parceiros e parasitam os ninhos dos outros deixando que outros lhes alimentem as crias, clamando pelo estado social. Podem assim, livres de preocupações, serem os primeiros a anunciar a primavera, coisa que este ano terão de rivalizar com a chaminé da capela sistina.
Desta história podemos, não tirar uma lição, mas confirmar o adágio: Lixam-se os pobres que ficam sempre por baixo. Houvera de cair um clio em cima de um passat e ouviríamos o beija-flor, que é ave operária, anunciar a primavera.
Quanto ao burro, venerável transporte da sagrada família, não é certo a isenção de acidentes, mas a ocupação do estábulo de uma vaquinha pachorrenta que teve assim de partilhar quer a mesa quer a cama com asno metido a limousine, é certeza firmada em notário.
As igrejas são assim: falam por calados e calam-se nas denúncias. Preocupa-me apenas as crianças, pois essas não costumam ser protegidas por airbag nem, infelizmente, pelos nossos impostos. Ainda bem que os cucos saíram ilesos. Ao bispo, desejo voos mais ambiciosos – se se apressar, ainda o nomeiam papa.
Sem o Passat a coisa poderá demorar mais tempo.
Excelente, Xico, excelente.
Bolas, tanto milagre deixou-nos mesmo precisados de um Domingo, para descansarmos.
Até o Senhor chegou ao 7º dia precisado de descanso.
Mermão, esqueceu de concluir: E ainda dizem que Deus não existe.
Certo. A pergunto que coloco é se não estará a enviar um sinal… Sei lá, de que preferiria que o bispo escolhesse um Audi ou um BMW…
Rui, o meu irmão escreve como um verdadeiro crente. Constato isto através das reticências que coloca à frente do «Audi ou de um BMW». Na realidade, um crente nunca coloca limites à providência Divina; Porque não um Ferrari ou Lamborguini?
Se eu tivesse um papamóvel, ficava cheio de inveja desse CC.
Suponho que antes do voo, não?
Eheheh.
Sim, o trono lá no Vaticano é capaz de ser bem menos interessante do que um banco de condutor de Passat em Bragança.
Muito bom!
🙂
Ainda bem que gostou, Talia.
O dinheiro está caro, mas não é para todos.
Quando o despesismo chega da Igreja…eu chamo-lhe falta de moralidade…mas isto sou eu que tenho um feitio do pior!!
😉
E somos dois.
Com um condutor tão dotado, quem teve sorte foi o burro.
Sim, também está bem visto.
São as tragicomédias do nosso tempo, aqui muito bem exemplificada e retrata ! Há muito, muito tempo que não não chorava e ria ao mesmo tempo – pois foi exactamente o que me acoteceu enquanto lia este artigo.
Valha-nos ao menos isso, mfm.