Havendo sido cego, agora vejo


Pedro Correia,

 

Esta fotografia da agência France-Presse é candidata desde já a uma das imagens do ano. Por nos mostrar um extremista islâmico, que sonha com a dura lei alcorânica vigorando no mundo inteiro, ao lado do caixão do presidente da Venezuela, tendo a poucos metros a imagem de Cristo na cruz, símbolo supremo de uma religião que Mahmud Ahmadinejad combate com tenaz proselitismo.

Ironia das ironias. Um assumido marxista, amigo e aliado de todos os comunistas que restam em postos dirigentes no planeta, conseguiu este quase-milagre durante as honras fúnebres que lhe foram prestadas como devoto da mensagem cristã: o fanático que negou o Holocausto, quis riscar Israel do mapa, considerou o 11 de Setembro uma “enorme mentira” e se gaba de não haver homossexuais no Irão prestou homenagem ao amigo Hugo Chávez na Academia Militar, em Caracas, numa cerimónia presidida pelo bispo de San Cristóbal, Mario Moronta, que leu trechos do Evangelho de São João. Segundo relata a imprensa, Ahmadinejad era o líder estrangeiro mais comovido, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara.

Se há fotos que são notícia, por falarem mais que mil discursos, esta é uma delas. “Havendo sido cego, agora vejo” – como se lê precisamente no Evangelho de João.

14 comentários em “Havendo sido cego, agora vejo”

  1. Obviamente que não há comparação e não pretendo estabelecê-la, mas 4 (!) votos de pesar, TODOS APROVADOS POR UNANIMIDADE na AR, mais 1 minuto de silêncio, é um bocado demais, acho eu. Apetece dizer: um quase-milagre, tanta convergência onde ela é tão rara…

    “O Parlamento português aprovou, esta sexta-feira, por unanimidade votos de pesar do PSD/CDS-PP, do PS, do PCP e do BE pela morte do presidente da República da Venezuela, Hugo Chávez.

    Os votos foram todos aprovados por unanimidade pelos deputados, que cumpriram um minuto de silêncio pela morte do presidente venezuelano, cujo funeral se realiza esta sexta-feira, com a presença de pelo menos 22 chefes de Estado e de governo.”

    (Jornal de Notícias, 8/3/2013)

    1. O presidente bielorrusso, último ditador da Europa, e o representante da repugnante teocracia iraniana figuraram na primeira fila dos convidados estrangeiros às exéquias de Chávez. O que diz tudo sobre o finado e o regime que deixou. Se Kadafi estivesse vivo, lá teria estado também.

  2. Que asneirada de post.
    Primeiro, a generalidade das pessoas vão a funerais independentemente da religião que (não) professam. As pessoas não deixam de ir ao funeral de um amigo por este ser processado segundo um rito religioso diferente.
    Segundo, Jesus é um profeta do Islão e é muito respeitado pela religião islâmica. E a religião cristã é uma “religião do livro”, como tal peculiarmente respeitada pelo islamismo. E no Irão há muitos cristãos, que são respeitados.
    Terceiro, dificilmente Ahmadinejad pode ser considerado um “extremista islâmico”. É um político profissional e presidente de um país oficialmente islâmico, o que é muito diferente.

    1. Não iria tão longe ao ponto de considerar o post uma asneirada, mas creio que tem razão em muito do que escreve, especialmente na relação entre Islão e cristianismo.

      Quanto ao “extremismo islâmico”, do meu ponto de vista, Ahmadinejad é de facto um extremista. Acredita na superioridade incontestável do seu Islão (xiita) e combate todos os “desvios” como pode. Pode não ser o pior dos fanáticos e nem sequer ser muito diferente de outros extremistas/fundamentalistas cristãos ou judeus (que até serão respeitados e eleitos democraticamente), mas não deixa de ser alguém cujos pensamentos sobre a religião são fundamentais para ascender ao cargo que tem.

      Já quanto à afirmação do Pedro Correia «uma religião [cristã] que Mahmud Ahmadinejad combate com tenaz proselitismo», penso estar algo errada. Ahmadinejad é visceralmente anti-semítico e anti-judeu, isso é claro. Já em relação aos cristãos, não me parece que lhes tenha simpatia, mas não lhes dedica a mesma bílis.

      1. Acredita na superioridade incontestável do seu Islão (xiita) e combate todos os “desvios” como pode.

        Virtualmente qualquer adepto de qualquer religião monoteísta faz isso. O que não faz de ninguém um extremista.

        alguém cujos pensamentos sobre a religião são fundamentais para ascender ao cargo que tem

        Claro, o Irão é uma República Islâmica, logo é normal que exija que o seu presidente seja muçulmano. O mesmo se pode dizer do Paquistão, país cujo presidente não é alvo de mimos por esse facto.

        Mas eu diria que o mesmo também é verdade de muitos outros países… o Reino Unido, por exemplo… ou talvez mesmo a Alemanha…

        Ahmadinejad é visceralmente anti-semítico e anti-judeu, isso é claro.

        Para mim isso não é absolutamene nada claro. Vivem no Irão algumas dezenas de milhares de judeus, que têm instituições (um hospital, diversas escolas) próprias. São respeitados e essas instituições não são alvo de ataques. Nunca, que se saiba, Ahmadinejad pôs em causa a existência e o bem-estar desses cidadãos do seu país.

        1. Lamento, mas insisto.

          Basta ler o relatório anual sobre o Irão de uma das mais prestigiadas organizações internacionais, o Observatório de Direitos Humanos:
          “Authorities have arbitrarily arrested and detained over 300 Christians, the majority of them evangelicals or Protestants, since June 2010.

          http://www.iranrights.org/english/document-2321.php

          Só não vê quem não quer. No Irão do senhor Ahmadinejad, é possível um pastor protestante ser condenado à morte por apostasia, conforme denuncia a Amnistia Internacional:

          http://www.amnesty.org/en/news-and-updates/iranian-christian-pastor-accused-apostasy-must-be-released-2011-09-30

          1. No Irão, tal como em muitos outros países islâmicos, é proibido por lei tentar converter muçulmanos a outras religiões. Se andam pastores protestantes (certamente estrangeiros) a tentar converter muçulmanos iranianos, não duvido que sejam condenados à morte.
            Mas aqueles iranianos que já são cristãos de nascença, ninguém os incomoda, desde que não tentem converter os muçulmanos.

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