Todos nós o tratávamos assim.
O Senhor Comandante, era sabido, gostava de doces e de contar as suas histórias.
Dizia ser um marinheiro que, afinal, acabara a ser piloto. Foi para a Marinha para não irritar a mãe, ela que não o queria lá no alto, a voar. Ele, já sabendo que podia ser piloto da Marinha, trocou-lhe as voltas.
As histórias são muitas: a vida fez-se com cinco filhos, nove netos, dois bisnetos. E foi uma vida com altos e baixos mas bonita. Não se pode dizer de outra forma.
Depois um Verão terrível, o senhor Comandante despediu-se, prometendo não morrer no dia do aniversário de um dos bisnetos ou da mulher. Morreu no meio. Os sentimentos são sempre contraditórios e é difícil ver a morte com bons olhos.
Vivemos, imediatamente depois da sua morte, momentos extraordinários: os primos juntaram-se para um almoço e discutiram tudo, a importância de manter a família unida, as receitas para a consoada e ainda a existência de som no espaço (parece que não há, dizem os meus primos!).
O meu filho mais novo salvou o natal inventando um personagem estranho chamado Dipak que falava inglês com sotaque e todos nos rimos e abraçámos. As minhas primas, de um lado, fizeram um livro com as fotografias e as histórias e textos do avô com design gráfico da mais nova. Todos nos ligámos ao Facebook, todos tentamos ir ao mural uns dos outros de quando em vez e colocar uma mensagem. Porque uns vivem no Algarve, outros em Inglaterra, porque o tempo tem voltas e revoltas. Hoje, o senhor comandante faria anos. Nós, os netos e bisnetos, tal como os filhos, brindamos com saudade. Mas com alegria. Por tudo isto, aprendi que se pode olhar a morte nos olhos e sorrir. Levemente.

“natal” com minuscula, Facebook com maiúscula.
Interessante.
Há pessoas que têm o condão de unir a família, mesmo depois de morrer. É bonita a história do teu avô. 🙂