Falso anacronismo


Teresa Ribeiro,

Pasmado, o país assistiu outra vez às enchentes que lhe invadiram as ruas nos idos de 70. As mesmas palavras de ordem : “O povo, unido…”, as mesmas músicas: “Aprende a nadar companheiro…” Um anacronismo inusitado. Houvesse mais barbas e patilhas compridas e seria como uma viagem no tempo, inquietante como tudo o que parece contra-natura.

Seria? Não. A ilusão só funcionou em plano aberto. Vistos de perto os manifestantes de ontem eram o reverso dos que desfilaram no passado. Sem esperança e com medo do futuro, exactamente nos antípodas dos outros que os precederam. Mesmo os novos, mais velhos que os velhos que há quase quarenta anos tropeçavam, cheios de adrenalina, na letra da Grândola Vila Morena. 

9 comentários em “Falso anacronismo”

  1. 1.Na década de 70, o País vivia num jardim onde a vizinhança vegetava num precioso crescimento económico acima dos 2,5%. Enriquecer devia-se a si próprio e a uma ou outra política. Taxavam-se importações, havia moeda e uma só bandeira.
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    2. Na década de 90, a Europa após mandar dezenas de milhar de contos por dia insistia na destruição do tecido produtivo e no federalismo que os pacóvios do centrão xuxial (ps/psd) comiam e calavam. Na democracia partidária, só Manuel Monteiro (cds-PP) levantava voz… mas era chicoteado pelos “media” e a “elite” que este quadrado ibericamente plantado tem e o “pobinho” néscio, imitador de estrangeirices, ignorante e sofrível na aritmética ia tomando como válidas as tiradas dos nossos “melhores”.
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    3. Do fedor a alcatrão cavaquista ao donjuanismo discursivo de Guterres tudo valia: pão e bola ao tuga, casinha dói-dói aqui e ali, tiranete local a pôr rotunda e pavilhão multiusos/gimnodesportivo para além de um milhar de “acções/actividades promotoras de coesão social e desenvolvimento regional” que resultaram … zero, um sem número de diálogos em vez de decisões, pata-ti, pata-tá!
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    4. Agora … agora, acabou-se o guito. O guito da Europa é … pouco para tanta dívida. Mantem-se o “luxo jurídico” europeu, direito disto e daquilo, muito paleio, muita opinião, válida, à custa de um abstracto cidadão que sabe o que diz. Agora, agora … a festa é noutras paragens. Ali para Bogotá, ou Lima, Pequim, Canberra, ou Wellington, Nova Deli, ou Cidade do Cabo. Milhares de trabalhadores observam a olhos vistos as suas condições de vida a serem melhoradas … enquanto por aqui discute-se pensões e subsídios, férias e indemnizações. O capital fugiu … para onde o acarinham.
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    Grandola vila morena….
    terra da …..
    …
    em cada esquina um amigo…

    1. Nunca fui europeísta convicta, monge. Mas sei que quando “entrámos na Europa”, o sentimento de muitos como eu era de que face à evolução das políticas europeias não nos restava outra solução senão aderir. Isolados não teríamos qualquer viabilidade. Também me lembro que pouco depois da nossa adesão mesmo os europeístas ficaram com calafrios quando começaram a assistir, através dos media, à destruição da nossa agricultura e frota pesqueira.
      Ontem tal como hoje somos um país pequeno, pobre, vulnerável. Há responsabilidades repartidas, isto se falamos do descalabro económico a que chegámos, mas quanto à construção da democracia a conversa já é outra. Ao comparar as manifs dos anos 70 e as últimas a que assistimos é nisso que medito. A nossa cultura política é da exclusiva responsabilidade dos portugueses que passaram pelo poder ao longo destes 40 anos. O desleixo, a irresponsabilidade, a incompetência, a corrupção, o nepotismo são da exclusiva responsabilidade das nossas elites políticas, com quem o povo cantou com entusiasmo, nos verdes anos da democracia, a Grandola Vila Morena, a mesma canção que agora entoa com tanto desespero.

  2. Bem observado.
    As “mesmas músicas”, do entusiasmo ao desespero. Seguir-se-á a fúria?.
    Mas, como bem dizem nos V/ comentários, pelo menos, desta vez, escolham o alvo certo.

  3. Bem observado, Teresa. São as mesmas pessoas – em muitos casos literalmente as mesmas – mas com sentimentos muito diferentes dos de antes. O que mais me aflige nestas manifestações de agora é a quantidade de cabelos brancos que enchem as avenidas, gente que já devia ter o seu futuro (o que lhe resta de futuro) assegurado com tranquilidade depois de uma vida de trabalho. Ver tanta gente desesperada, desempregada aos 50 anos, ou mais velha ainda e com reformas miseráveis, é uma tristeza. E não vejo os nossos governantes minimamente sensíveis a este drama.

      1. Só não é mais perigoso porque estamos em Portugal. Em vez de partirmos montras e incendiarmos carros, fazemos anedotas com os governantes e cantamos a Grândola a plenos pulmões.

        1. Dei comigo a sentir orgulho por sermos assim. Há quem chame a isto falta de nervo, ou até cobardia. Eu chamo-lhe civismo, delicadeza, elegância. Mas se a corda estica mais, acaba-se a poesia.

          1. Penso o mesmo, Teresa. Geralmente só reagimos in extremis, mas quando o fazemos somos bem explícitos, embora quase sempre pacíficos.

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