Que se linche o teu irmão


Pedro Correia,

Por muito menos, este senhor proclamou-se vítima de um linchamento. Agora, estando sob mira pública um irmão na fé, e sem o menor assomo de caridade cristã, ei-lo a acender a fogueira num tema onde todas as precauções são devidas sendo a natureza humana o que é e tendo provocado os assassínios de carácter que já provocou. Repare-se no nível intelectual desta argumentação: “Ouvi que ele tinha tido um comportamento dessa ordem.” E desta, que inverte o ónus da prova: “Não possuo quaisquer elementos que provem que isso não é verdade.”

Se não é linchamento, imita bem. Sobretudo após o categórico desmentido do visado, a quem não pode ser negado o direito à defesa. E do louvável acto de contrição já assumido por outro interveniente na polémica.

Merece forte penitência por tão ruim pecado, senhor bispo.

 

42 comentários em “Que se linche o teu irmão”

  1. ei-lo a acender a fogueira

    Não foi ele quem acendeu a fogueira.

    um tema onde todas as precauções são devidas sendo a natureza humana o que é e tendo provocado os assassínios de carácter que já provocou

    Não percebo exatamente a que se refere. Ser homossexual não é crime. Nem sequer é pecado, que eu saiba, de acordo com a Igreja. O que é pecado é manter relações homossexuais.

    O que o bispo está a dizer é o mesmo que Carreira das Neves dissera: que “ouviu” rumores sobre uma suposta homossexualidade. Rumores esses que podem ser verdadeiros, mas também podem não ser.

  2. A frase “Não possuo … que isso não é verdade” é um brilhante exercício de retórica pois , contendo dois sinais negativos corresponde a um só positivo .

    Mas a culpa não é só dele , é também de quem lhe pede a opinião por tudo e por nada (muito em especial por nada).

  3. Repare-se que aquilo que o bispo Carlos desmentiu foi que tivesse praticado assédio sexual.
    Ora, Carreira das Neves aquilo que disse foi que Carlos é homossexual, e até que o assumiu. E, como Carreira das Neves muito bem diz, ser homossexual nada tem de errado, nem é pecado.
    O que seria pecado (mas não seria criminoso!) seria o assédio sexual.
    Quanto ao bispo Januário, ele fala de “um comportamento dessa ordem”, mas não diz especificamente a que comportamento se refere: se a um assédio sexual, se a uma tendência sexual.
    Enfim, as palavras de Januário são muito ambíguas, e não penso que mereçam tão forte condenação.
    (E mesmo o assédio sexual, sendo pecado, não é certamente pecado muito grave. E a Igreja reconhece que os padres são seres humanos e pecadores.)

    1. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. O bispo Januário esqueceu este preceito cristão. Invoca para si o que não concede a outros.
      O ponto é este. E só este.

  4. Bem esgalhado, Pedro, subscrevo. Esqueceu-se de colocar a penitência. Por mim pode ser 3 rosários por cada membro da troika e dois copos de azeite ao pequeno-almoço.
    Quanto se atiraram a ele, por causa das declarações bombásticas, apoiei-o, mas não nesta circunstância. Isto é matéria por demais delicada para ser mexida com colher de pau.

  5. Curiosamente, esse cavalheiro apelou à tolerância e a orações por um sacerdote do Fundão suspeito de pedofilia, REPITO PEDOFILIA, em prisão domiciliária,
    REPITO EM PRISÃO DOMICILIÁRIA. Porque será?

    http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/sociedade/bispo-apela–a-tolerancia-com-padre-luis

  6. Sou católico, monárquico e do sporting. Durante muito tempo afirmei (sorrindo) que era assim que se ganhava o céu, porque ser-se “isso” requer muito espírito de sacrifício. De facto hoje em dia dou por mim a ouvir um bispo, um padre ou um simples católico a falar e enrolo-me logo de medo com o que poderão dizer em público. O D. Januário já passou, infelizmente, para o domínio da (quase) da total falta de senso, da quase irresponsabilidade, exibindo um espírito cristão nulo.Às vezes também me torço de vergonha, porque nem sempre me consigo torcer de pena. Parabéns pelo seu post, muito bem escrito. De facto, nem sempre é fácil ser-se católico quando há bispos assim. Talvez seja apenas mais desafiante.

  7. Tem toda a razão, estes membros da igreja nãoa podem ver um microfone à frente que começam logo a dizer coisas, asneiras incluídas. O padre Carreira das Neves, retratou-se e pediu perdão, mas o mal está feito e muita gente não vai esquecer, quer para acusar o Padre, quer para acusar o Bispo.

    1. Do bispo das forças armadas, que eu saiba, não se escutou até ao momento um sussurro de rectificação. É uma interpretação muito ‘sui generis’ dos ensinamentos de Cristo.

      1. Ao que me disseram, o Bispo das Forças Armadas, em entrevista hoje concedida à Antena1, tentou corrigir o “tiro”, mas, a meu ver, o mal está feito e não há forma de anulá-lo. O D. Carlos até pode perdoar, quer ao Padre Carreira, quer a Bispo Januário, mas nunca mais vai ser como antes. Justa ou injustamente, isso agora conta pouco.
        Que fique a lição, desde há muito ensinada pela Igreja Católica: ou se fala quando de deve, ou se cala para sempre. Assim é que não.

        1. Tanto quanto sei, essas declarações são mais do mesmo. Ou mais graves ainda, pois o bispo Januário menciona a palavra “crime”.

          visao.sapo.pt/d-januario-desafia-nuncio-apostolico-a-esclarecer-caso-d-carlos-azevedo=f715948

          Sempre no mesmo registo: muita insinuação, nenhuma concretização. O bispo gosta de linchamentos. Dos outros.
          Enfim, surpresa nenhuma.

  8. Que um bispo e um professor universitário façam declarações, no mínimo, apatetadas, ao nível de comentadores televisivos de frivolidades de jetset, é que me espanta. Muito mais do que o assédio de um bispo. É que o apelo sexual é forte e compromete até os melhores. Agora se um bispo e um professor não conseguem fugir à tentação de resvalar para o chinelo, como aguentarão as tentações da carne? As declarações pareceram-me típicas de mulheres mal fxxxxxs.

    1. E porquê de “típicos de mulheres”, Xico? Porque será que os comportamentos vergonhosos deste género são naturalmente atribuídos a mulheres, como se isso fosse esperado e como se não houvesse muitos homens igualmente capazes deles? Como se prova com estes dois casos, aliás. Que eu saiba, nenhuma mulher se pronunciou publicamente sobre este assunto. E, deixe que lhe diga, há por aí uma quantidade apreciável de homens mal fxxxxxs.

        1. É um assunto que me tira do sério, Pedro. Um pensamento viciado (típico de homem) que tem justificado muitas injustiças ao longo dos tempos. E que ainda vigora, pelos vistos.

          1. Muito bem comentado. O Xico deve ter andado na escola do Januário.

          2. Já me retratei porque de facto Ana Vidal está cheia de razão. No entanto não me referi a “típico de mulheres” assim, no geral.
            Não andei na escola do Januário mas andei na escola onde todos andaram com a minha idade. E sempre houve características que se colaram às mulheres e aos homens que pecaram por exageradas e injustas por não terem em linha de conta as circunstancias que as tornaram assim, tais como um homem não chora, etc. Por isso há coisas que se nos colam à pele e não saem com facilidade no deslizar rápido da pena.
            Acho no entanto que o ataque ao comentário é, no mínimo, exagerado. Mas um “homem é um homem” e deve saber dar-se por vencido como é o caso.
            (Profunda vénia.)

  9. Este foi um caso inacreditável.
    A única conclusão a tirar é que algo está podre na Igreja em Portugal.

  10. A intervenção da igreja católica portuguesa no “caso” D. Carlos de Azevedo – sejam ou não verdadeiras as acusações – desde o comunicado da Conferência Episcopal às alarvidades de Torgal e Carreira das Neves são classificáveis como reles.

  11. Eu até estaria plenamente de acordo com o teor do post, não fosse o facto deste tipo de discurso acabar invariavelmente por desviar a atenção daquilo que realmente está em causa.
    E isso é inaceitável.

  12. Esta boçalidade , sórdida e reles, é ascendida a Bispo!!
    Os critérios de selecçao dos RH da Igreja Católica Portuguesa andam pelas ruas da amargura…

  13. Já aqui o disse e cada vez com maior crença e veemência o faço. Política, futebol e religião a pata que os pôs.

  14. Absolutamente de acordo, Pedro. Chocou-me ouvir o padre Carreira das Neves naquela condenação liminar (como se não soubesse o efeito que as suas palavras teriam, e o peso delas sendo quem é). Mesmo que depois se tenha retractado o mal já estava feito, foi uma punhalada muito feia. E depois o Bispo Torgal Ferreira remexeu o punhal na ferida sem qualquer pudor nem caridade cristã. Ora, ambos são representantes da ICAR em Portugal, e ainda não dei por uma condenação veemente e frontal da igreja a estes comportamentos tão baixos. É por estas e por outras que tanto me desilude a actuação da ICAR, quase sempre pífia em casos deste género.

    1. O caso do bispo castrense é agravado pela reincidência, Ana. Não contente com o que disse, com a sede insaciável de protagonismo que o caracteriza, voltou a pronunciar-se sobre o assunto em termos ainda mais inaceitáveis. E em nada condizentes com a letra e o espírito da mensagem cristã.
      Percebo a tua revolta. E partilho-a em grande parte.

  15. Pedro, percebo o que diz, e devo dizer-lhe que ambas as declarações (de Carreira das Neves e de Torgal Ferreira) me pareceram infelizes. Contudo, em termos de solidariedade para com um irmão de fé, como diz, a questão torna-se mais bicuda, porque o acusador é precisamente um irmão de fé. (Eu sou muito desligado da Igreja, mas amigos meus asseguram-me que o padre José Nuno Silva é uma excelente pessoa — não escrevo isto com o sentido de reforçar a acusação; apenas para dizer que a acusação parte de alguém bem considerado dentro da ICAR.)

    1. Não digo que não, Carlos: é também essa, aliás, a informação de que disponho. Mas há nestas questões – e nos conceitos a elas associados – fronteiras difusas que não podem nem devem saltar para o mundo das indignações fáceis das redes sociais, e para a leviandade sempre inscrita nos clamores justiceiros que as acompanham, sem haver sólida, comprovada e irrefutável documentação.
      Ninguém merece ser alvo de apedrejamento público por, no conceito do bispo D. Januário, “não possuir quais elementos que provem que isso não é verdade”.
      Aqui ultrapassamos uma linha muito perigosa, meu caro. Porque ao invertermos o princípio do ónus da prova, passando o alegado culpado a ter que fazer demonstração pública da sua inocência, já estamos a regredir em termos civilizacionais.

      O meu ponto é essencialmente este. Que as pessoas envolvidas pertençam às estruturas da Igreja Católica é um aspecto secundário, neste caso, embora devesse aumentar o grau de contenção verbal do bispo das Forças Armadas. Se não sabe, se não conhece, deve remeter-se ao silêncio por uma vez. Para não imitar os fariseus, sempre prontos a esticar o dedo indicador na direcção alheia crendo que assim estariam mais livres de que os apontassem a eles.
      O facto de o próprio D. Januário, fazendo minhas as palavras que na altura usou, ter sido alvo de uma tentativa anterior de ‘linchamento público’ deveria ter-lhe conferido ainda mais precauções antes de se ter pronunciado nos termos em que se pronunciou.

      1. Pedro, quanto ao ónus da prova, o que escreve nem sequer é discutível — para mim, pelo menos, não é. Em parte, escrevi que ambas as declarações me pareceram infelizes por isso mesmo; a restante parte fica por conta da confusão que ambos, Torgal Ferreira e Carreira das Neves, fizeram entre homossexualidade e assédio.
        Com o meu comentário pretendi apenas dizer que, num caso destes, não é possível defender-se o meu homónimo (!) sem se atacar o padre José Nuno Silva, pela simples razão de que, quando alguém afirma que o bispo Carlos Azevedo não faria tal coisa, diz simultaneamente que quem o acusa está a mentir — não é possível fugir a isto. Coisa muito diferente é alguém mostrar publicamente a sua solidariedade para com um deles. Eu, se tivesse um amigo meu em tal situação (uma ou outra), também lhe declararia publicamente a minha solidariedade (a amizade é para todas as ocasiões, não só para dar beber uns copos e dar umas palmadinhas na costas), o que é muito diferente de pôr a mão no fogo por quem quer que seja. No campo da sexualidade, convém termos sempre presente que nunca sabemos tudo sobre os outros.

        1. Caro Carlos (e só agora reparo na coincidência onomástica): eu também não me pronuncio sobre a questão no concreto, até por carência absoluta de informação já sujeita ao indispensável crivo do contraditório.
          Só posso pronunciar-me sobre actos públicos e declarações públicas. E aqui, falando em abstracto, entendo que um bispo tem responsabilidade acrescidas na emissão de sinais que reforcem a cidadania, não de sinais que a reduzam. E atirar seja quem for aos lobos, metaforicamente falando, sem inequívoca produção de prova é inaceitável.
          De um lado está alguém que merece o meu respeito e consideração – até evidência em contrário. Do outro, idem aspas. Até por isso, toda a precaução é recomendável na abordagem pública da questão. Precauçao que, a meu ver, D. Januário não teve – logo ele, que tanto a exigiu a outros, noutros contextos e noutras matérias.
          Se o bispo possui provas daquilo que parece insinuar, ele que as faculte às autoridades eclesiásticas (e outras, se houver razão para tanto). O diz-que-disse já fomentou muita morte civil num país onde é demasiado fácil ‘emprenhar de ouvido’, para utilizar uma expressão muito portuguesa.

          Um abraço,

          P. S. – E grato pelo reparo feito há dias, sobre os anos que já passaram desde a morte do José Afonso. O tempo passa tão veloz que às vezes até nos baralha as contas…

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