Outros caminhos


Teresa Ribeiro,

“O que se pode fazer é reorganizar a produção. Porque é que temos que importar mobílias baratas da China? Vamos fazê-las nas regiões à volta das grandes cidades, vamos tornar a produção local – todos os países o têm. Devíamos também re-localizar os créditos, criar pequenas associações de crédito, pequenos bancos: porque é que os bancos de retalho têm que estar nas mãos dos grandes bancos? Há muito que se pode fazer, inclusivamente dentro do próprio sistema actual. Isso vai alterar o poder do mercado financeiro? Não. Mas pode ser um passo no espaço económico em que os locais têm mais controlo e haverá maior resposta às necessidades locais. Para os projectos locais é preciso bancos locais que os financiem. Os bancos locais dependem das pessoas locais, mas devolvem o dinheiro à produtividade local. Seria um pequeno passo para criar um outro espaço económico. Mas isto não é apenas uma questão económica, depende da política económica”.

Saskia Sassen, uma das principais teóricas da globalização.

12 comentários em “Outros caminhos”

  1. Mais uma ditadora em potência. Depende da “política economica”, ou seja depende dela ter poder todo para mudar a vida dos outros e impedi-los de gastar o produto do seu trabalho onde querem. Uma fascista portanto.

    Nada surpreendente, a maior parte das pessoas de esquerda e direita são fascistas.

      1. Sem concordar com o comentário que aqui comenta não vejo de todo que alternativa ao modelo liberal vigente isto seja , dá para as mobílias que são uma parte pequena da indústria (se houver marceneiros) e pouco mais que vá para além do artesanato .

        De facto Saskia Sassen não é tanto uma teórica da globalização mas sim de um aspecto específico dela , o do poder das grandes metrópoles do mundo como centros aglutinadores de poder financeiro e económico .
        Convém assim lê-la à luz do facto de ela viver nos EUA onde a pequena/média cidade tem características muito próprias que não se encontram na Europa nem noutras partes do planeta .

        Quanto à questão do pequeno crédito estar localizado nos pequenos meios e ser autónomo é um princípio que eu sempre defendi até há um ano atrás .
        Só que há um ano atrás reformei-me e fui viver a maior parte do tempo para uma pequena vila do interior e mudei radicalmente de ideias .
        Isto de se viver quase a vida inteira em Lisboa distorce a visão do mundo real …

        1. E já agora podia explicar-me o que o fez mudar de ideias? (Quanto à primeira parte do seu comentário: o argumento de que nenhuma solução pode ser importada porque cada um é como cada qual é que não nos leva a lado nenhum. As ideias com bom potencial podem sempre ser adaptadas à realidade).

          1. Não está escrito em sítio nenhum do meu comentário que “nenhuma solução pode ser importada …” , essa interpretação é sua e deixo-a portanto consigo .
            Também não disse que “cada um é como cada qual” , referi apenas as condicionantes – no bom sentido – da autora do texto e o meio em que se insere , outra interpretação que é sua e que consigo fica .

            As ideias com bom potencial podem e devem ser adaptadas à realidade , aliàs foi a isso que me dediquei (e ainda vou dedicando) toda a vida , com razoável êxito na aplicação prática das mesmas .
            Mas aqui na net isso somos todos um número e isso pouco interessa , podemos dizer o que quisermos na certeza de que ninguém acredita .

            Acontece que aquela ideia em concreto não me parece ter bom potencial , mas isto é só uma opinião que , como todas as opiniões , só vale o que o interlocutor quer que valham (muito , algo ou nada).
            De resto não é uma ideia original , vem da Idade Média e foi assim que tudo começou .

            E ainda que fôsse adaptável ao caso concreto das mobílias não sei a que mais casos seria adaptável entre os bens que habitualmente se importam ou , não se importando , só fabricados com grandes economias de escala podem chegar a preços aceitáveis ao consumidor final .

            Não que eu ache que esteja bem nem certo mas era preciso convencer umas boas centenas de milhões de pessoas aí pelo mundo fora que em vez de comprarem umas coisas feitas na China e que não duram nem 2 anos deviam comprar coisas melhores e um pouco mais caras mas feitas pelo vizinho .

            “E já agora” , como também diz , não me parece que lhe vá explicar o que me fez mudar de ideias.
            Já me chega de leituras do que eu não escrevi !

  2. Questão um: É possível fazer mobílias baratas com salários europeus?

    Questão dois: Se não é, estamos disponíveis para perder poder de compra através do aumento de preços dos produtos que consumimos em troca de mais emprego?

    Questão 3: Se sim, estamos disponíveis para implementar um sistema proteccionista e ver os outros blocos fazer o mesmo, arruinando as perspectivas de grupos europeus em vários mercados (a VW, por exemplo, luta pela liderança de vendas na China) e potenciando tensões regionais que os interesses comerciais dificultam?

    Questão 4: Ainda que isso signifique coarctar a evolução de salários e de condições de vida nos países que mais têm ganho com a globalização (se exceptuarmos a Europa e os EUA, 2012 até foi um bom ano para a economia mundial) e onde, apesar de tudo, se vive pior do que cá?

    Nesse caso, OK.

    1. Estamos, pois, condenados ao definhamento. O melhor é sentarmo-nos todos num banquinho e esperar que o céu nos caia em cima. Com sorte pode ser que sim e fica tudo resolvido.

      1. Teresa: não é isso; convém é optar conhecendo os custos de cada escolha. Se as tuas respostas (como as de qualquer outra pessoa) às minhas questões forem no sentido do proteccionismo, pois muito bem. Eu próprio acho que em relação a alguns países que não são democracias e onde os trabalhadores ainda têm poucos direitos, a UE devia ser mais dura. Mas convenhamos que esperamos dos governos o que, enquanto consumidores, recusamos fazer.

        Por exemplo:
        http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4809496.html

  3. Talvez as mobílias não europeias sejam baratas porque são produzidas com trabalho quase escravo. Das duas uma ou permitimos a produção sem regras (horários de 12h, custos ambientais enormes, ditadura para garantir uma força de trabalho submissa) entre nós, ou teremos de controlar o que importamos.
    Pode parcer muito libertário dizer que temos que ter as cidades tão poluídas como as da China porque eles é que produzem barato, mas a mim parece-me estúpido.
    A igualdade de mercados só funciona com igualdade de condições à partida.

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