Coup de foudre


fiodeprumo,

 

 

Por uma estranha contradição, gosto de ler biografias, pese embora a vida dos outros, enquanto rendilhado de factos, me interesse muito pouco. O que, sim, me estimula, é perceber quem é que se esconde por detrás do personagem, já que todos somos um pouco actores.

Já aqui falei, por mais de uma vez, de DSK, ou seja de Dominique Strauss-Kahn, o ex Presidente do Fundo Monetário Internacional, que tem estado no centro de um furacão de escândalos sexuais. Embora o tema atinja hoje até as instituições religiosas, a verdade é que, neste caso, houve um lado quase rocambolesco – não encontro outra expressão – a envolver todos os acontecimentos. Os quais, ainda não esclarecidos nem julgados, acabaram não só por dar origem à dissolução de um dos casais mais mediáticos da França, como serviram de tema de literatura.

Com efeito, acaba de sair em França, na editora Stock, um livro explosivo, intitulado “Belle et Bête”, de autoria de Marcela Iacub, que conta o seu relacionamento com DSK, durante sete meses, de Janeiro a Agosto de 2012.

 

A autora não é uma qualquer arrivista, mas é uma figura controversa. Nascida na Argentina em 1964, chegou a França em 1989, estudou filosofia e direito, entrou para o CNRS – Centre National de la Recherche Scientifique – do qual se veio a tornar directora de investigação, em 2010. É também cronista do jornal Liberation.

Convenhamos, pois, que decerto terá medido bem as consequências da publicação da obra, dado que o envolvimento de ambos data de um período em que já eram públicas as potenciais acusações.

No último Nouvel Observateur são dados a conhecer excertos do livro em questão. O que li deixou-me algo surpreendida. Não pelas revelações, mas pela interpretação que Marcela – uma bela mulher – dá aos seus sentimentos e, sobretudo, à forma como “vê” o homem a quem se entregou. Parece-me uma história de paixão fulminante, mas em que um dos intervenientes foi capaz de, em simultâneo, actuar e se analisar, quase como se de um desdobramento de personalidade se tratasse.

Confesso que fiquei curiosa, porque ainda hoje continuo a pensar que a história da França e, muito possivelmente a da Europa, seria outra se DSK tivesse chegado, como queria, a Presidente da República.

 

10 comentários em “Coup de foudre”

  1. Paixão fulminante? fez para escrever o livro.

    “a história da França e, muito possivelmente a da Europa, seria outra se DSK tivesse chegado, como queria, a Presidente da República.”

    Claro…nada como Berlusconi II…

    1. Comparar Berlusconi a DSK será sua opção. Que significa que quando pensa nos políticos só vê um dos lados. A França sempre teve histórias de alcova nos seus Presidentes. Que não deixaram de o ser por esse facto!

      1. Para mim eles são do mesmo clube.
        O que distingue DSK de Berlusconi?

        “President”… Mitterrand tão adorado pelos media de cá levou a França à pré bancarrota e à Austeridade : “tournant de la rigueur” passou a ser algo virtuoso até foi o nome adoptado após o Socialismo desabrido…

        Ao pé de Mitterand até o Gaspar das contas erradas parece um “estadista”. A não ser que fazer o contrário com estilo seja a definição de estadista e tal seja valor a elogiar…

  2. O trecho que li, no Espesso, meteu-me nojo, mais de quem o escreveu do que quem foi descrito. Com um ser descrito tão anormal seria possível uma pessoa normal envolver-se? Esta mulher nem sequer é bonita, não estando muito longe, ao invés, de uma autêntica “bota da tropa”, na gíria militar, no fundo um farrapo que, aliás, aplica em redor da cabeça.
    Mas tudo isto, como a descrição feita que li sobre a poesia do porco, revela que esta profunda leitura feminista mais ou menos (des)apaixonada tem o “bias” próprio, de quem não vê mais além do espelho. A literatura do mulherio, hoje em dia, é envolta, de facto, em não sei quantas sombras, de grey ou de blue é indiferente.
    Fazer disto um convite a ler o resto é mais da mixórdia relatada que realmente só interessa a porcos, sem diferença de género.

      1. Grande resposta! 🙂

        (Mas, machismos bacocos à parte, a publicação deste livro tresanda a aproveitamento mediático fácil. A senhora teve um romance com DSK, como dizes, numa época em que os escândalos sexuais eram públicos. Quem vai à guerra…)

      2. Interessante, por falar nisso, seria recuperar livros, peças, ensaios whatever em que um dos do “piorio” descrevesse o “mulherio”. Sem Sade ou Balzac, nem Prozac, s’il vous plaît…

      3. Por fim, o “piorio” já era conhecido pelo caso da camareira. Neamoins, helás, o “mulherio” quis ter a prova de que como ou é um porco. Parabéns à prima, que deve ser uma grande vaca! (não vaca, em sueco, que quer dizer bonita: esta não o é nem por fora nem por dentro).

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