Existe algo obsceno nesta litigação milionária, no exacto momento em que vivemos. Ao ponto de afrontar a consciência de um cristão que um banqueiro alegadamente católico continue a proclamar-se discípulo espiritual do Nazareno. Daquele que sempre enalteceu a caridade e sempre combateu a cupidez. Daquele que expulsou os vendilhões ao vê-los profanar o templo. Daquele que condenou sem rodeios a hipocrisia dos fariseus, “túmulos caiados”, capazes de atribuir mais importância ao ouro do que ao altar.

Ah, Pedro, esta é a minha batalha de há anos com a igreja católica! É obsceno, como dizes, e a igreja devia demarcar-se claramente destes “fiéis” milionários que demonstram uma insensibilidade social contrária a tudo o que defendem quando batem no peito. Mas faz o contrário: vénias e benesses com fartura, como se o luxo e a exibição de riqueza tivessem algum mérito. E alguma coisa que ver com a mensagem de Cristo.
Ana, não é a Igreja que lhe paga a reforma, é o BCP. Não vejo porque é que a Igreja se devia de marcar deste tipo de fiéis.
O Senhor na Sua infinita sabedoria disse que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, ( que era uma pequena porta na muralha de Jerusalém), do que um rico chegar ao Reino dos Céus”.
Este tipo de pessoas hão-de prestar contas a Quem de Direito, até pela fé que dizem professar.
Quanto ao assunto que levou esta querela ao tribunal dos homens, só me ocorre um termo e estou de acordo com a Ana: é obsceno!
Caro Alexandre,
“Quem se salvará, então, Senhor?”, perguntam os discípulos a Jesus. “Para Deus não há impossíveis”.
Vejamos agora o contexto destas afirmações. Na tradição judaica, a riqueza era considerada uma bênção do Altíssimo, por isto mesmo a pergunta a Jesus e a indignação dos discípulos. Todavia, a riqueza não pode ser vista como um mal a combater, mas sim a escravidão que a riqueza pode produzir: “não podeis servir a dois senhores, ou…”. Porém, essa impossibilidade, que é natureza do homem, não retira a possibilidade de Deus a transformar (à natureza); e essa condição não determina uma maldição e/ou um reprovação absoluta.
Vejamos agora outra questão, em absoluto estou de acordo consigo, porque a libertação é uma oferta Universal, e este tipo de julgamento não compete à igreja, ainda que saibamos que é mais fácil acolher um rico pecador que um pobre na mesma condição. Assim refere, nesta matéria, a tradição.
Bem sei que não é a igreja que lhe paga a reforma, Alexandre. Não são os milhões de Jardim Gonçalves (que não invejo, por estranho que pareça) o que me incomoda mais. Que lhe façam bom proveito, e que os exiba à vontade se acha que isso lhe fica bem, com tanta gente com fome à sua volta. E não faço ideia se ele prestará contas um dia a Deus e em que condições, mas o que sei é que a igreja não parece importar-se nada que ele exiba também, junto com os milhões, as pretensas e imensas virtudes cristãs que julga ter. E acho que faz mal, por isso digo que devia deixar bem claro que não são estes exemplos que melhor a representam.
Não há um vestígio de espírito cristão no comportamento de JG. É chocante, indigno, insultuoso. E em contradição flagrante com a fé que diz professar. Como a dos fariseus que Jesus denunciou.
Deve ser por isso que, diz ele, vai todos os dias à missa e comunga. Mas apesar da infinita misericórdia de Deus, nem assim se deve safar!
Vejo esta notícia e só posso sentir repúdio, tanto pelo ex-banqueiro como pelo próprio banco. Plutocracia individual e bancária, respectivamente. No fundo, para mim, é o resultado lógico da plutocracia reinante e que reinou à conta de milhares de milhões de euros de dívidas e de fundos (perdidos). Os exemplos de modernismo e de competência de outros tempos resultaram nisto… Triste fado! Aliás, o sector bancário português é o expoente de um país malfadado.
Esta é a face mais obscena da plutocracia.
Formosos por fora mas cheios de ossos por dentro, os túmulos. Disse bem, católicos. Não significa isto que sejamos cristãos. “Não podes servir a dois senhores, ou te dedicarás a um e desprezarás o outro ou amarás um e odiarás o outro”. “Olhai os lírios do campo, nem Salomão com todo o seu esplendor se vestiu de tanta grandeza. Se o Pai do céu veste assim a erva que seca e será lançada ao fogo, quanto mais a vós homens de pouca fé”.
Ou deixamos de ser católicos e nos transformamos em cristãos ou continuaremos a amar esse um e a odiar o Outro. Penso que a atitude de Bento XVI abriu de novo a porta da fé, aquela que João Paulo II abriu em 1999 e que se encerrou a 6 de Janeiro de 2001. A igreja não será mais a mesma; e nós ou nos convertemos ou permaneceremos como baratas tontas.
As citações bíblicas que aqui traz não podiam vir mais a propósito. Também penso que a histórica decisão pessoal de Bento XVI, certamente fruto de uma reflexão muito ponderada e muito dolorosa, abre novas portas para a fé.
Já agora, há uma coisa que ignoro, e que é o seguinte: que parte destas reformas (e de muitos outros quadros bancários, da PT, etc) está a ser paga pela Segurança Social, depois de os fundos de pensões da banca e de várias empresas terem transitado para a SS? (Neste caso, há evidentemente uma parte que está a ser suportada pelo BCP).
É uma excelente pergunta.
Dentro da Igreja o Jardim também tem quem o censure. Disseram-me que um seu “camarada” da Opus dizia que ele, o Jardim, vivia no inferno, por causa dos seus pecados, mas que ele, o Jardim, já não ouvia ninguém.
Por mim, julgo que o Jardim, se ler isto ou se alguém lhe ler, deve sentir-se mal, muito mal.
A minha ideia foi precisamente essa, Tiro ao Alvo.
A César o que é de César e um banco não é um templo. O que está em causa é um contrato entre particulares em que poderão estar interessados os accionistas do BCP.
Por mim, Zé da Esquina, não tenho elementos para saber se o ex-Presidente do BCP está bem ou mal pago e, por isso, se estamos perante um caso de cupidez. Muito menos, me sinto no direito de proclamar o que é “justo!.
Sei que estamos num país estatista falido e com muitos invejosos e isso basta para me pôr em guarda contra afirmações como as que profere, sem embargo de lhe atribuir – sem qualquer hesitação – as melhores intenções.
Pode-se discutir, em tese, a bondade económica dos altos salários privados, maxime os dos banqueiros, mas, por ora, e em Portugal, acho mais interessante discutir alguns problemas de salários e contratos públicos.
De acordo. Há um contrato entre dois privados, que terá sido feito livremente e cujo cumprimento deve ser assegurado ou também livremente renegociado!
A titulo particular e como bom cristão e mais importante que o valor da reforma é ..o que faz JG com o que recebe…
Tudo o resto é inveja.
dgf, muito tenho visto o uso dessa máxima: “A César o que é de César e a Deus o que é Deus”. Porém, se se situar no contexto em que ela é afirmada verificará que a leitura deve ser a seguinte: renunciai a César o que não pertence a César, ou seja, a liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que a igreja a proclamou durante muito tempo no sentido que refere, mas olhe que César também andava por esta igreja, e não estou certo se ele se dissipou por completo.
Para compreender um pouco o significado do que afirmo basta olhar à resposta de Jesus: “Que imagem vedes nessa moeda? César, respondem”.
Pois então, se a moeda tinha sido impressa por César, e nela constava a marca do proprietário, então, a moedita que lhe fosse entregue, mas mais nada.
Se há entidade em Portugal que não sabe pôr ‘César’ à distância é precisamente a banca. Muitos negócios supostamente privados da banca portuguesa afectam – e de que maneira – a esfera pública.
Precisamente por isso, Pedro, não lhe devemos dar absolutamente nada de nossa liberdade. A moeda tinha sido mandada cunhar por César, em nada fazia parte do património judeu da época, pois Roma era a puta da Babilónia que a todos sacrificava em proveito próprio (tal como os césares de agora). Neste sentido a afirmação de Jesus conduz-nos a que nos libertemos daquilo que não nos pertence, ou seja, a escravidão. A afirmação de Jesus não legitíma a moeda, a atitude e nem tampouco César. Os fariseus pretendiam criar uma armadilha a Jesus para que pudessem acusá-l´O de subversão e levar as autoridades romanas a executar a sentença que também para eles lhes era conveniente. Jesus, brilhantemente, entalou-os.
Tenho alguns problemas com este post, que são o espelho dos meus problemas com a parábola do óbulo da viúva:
Sempre achei que o pobre que recebe a esmola não tem nada que ver com a superioridade moral da viúva que dá uma mísera esmola que lhe faz muita falta, em relação ao rico fariseu que dá muito dinheiro do que lhe sobra. Para o pobre, a esmola do fariseu é com certeza mais importante do que a da viúva. Para Cristo, naturalmente, é o contrário.
Do mesmo modo, a ligação de Jardim Gonçalves aos seus milhões é um problema entre ele e o seu Deus. Porque, na verdade, nós não sabemos como ele os usa: se paga um programa de vacinação em África, se sustenta um colégio do Opus algures, ou se os tem num qualquer offshore na esperança de que se transformem em biliões.
A mim, tanto me faz que ele seja do Opus ou não, o que me interessa é se é solidário ou não nestes tempos de tanta necessidade. E isso é válido para o Jardim Gonçalves ou para qualquer outra pessoa que tenha largamente mais do que aquilo de que precisa para viver.
O elogio de Jesus sobre a atitude da viúva em nada constitui um julgamento moral, e não nega a importância da oferta do rico. As narrativas sobre este episódio, encontradas em Marcos e Lucas, simplesmente revelam o despojamento e a confiança. Para entender esta passagem é necessário inserir-se no contexto da época. De uma forma breve, na sociedade antiga a mulher não era independente, era membro de uma família e dependia do pai ou do marido. Em caso de morte do marido a mulher também não era herdeira, mas sim o filho, e, no caso de ter filhos, o primogénito herdava e ela dependeria dele. Se ficava sem filhos ela voltava a casa do pai. Imagine agora o que era ser viúva, sem pai e sem filhos ou com filhos menores. A mulher que não tivesse homem para a defendar era, evidentemente, vítima de extorsões de todo o tipo e alvo fácil nas mãos de, por exemplo, credores (já para não falar nas longas “orações” de apoio que os sacerdotes faziam em suas casas. Percebe?). A lei judaica estendia à viúva certa protecção, proibindo a injustiça na causa das viúvas. Mas existem alusões que indicam que esta lei geral era um ideal sem muita aplicação prática.
Pois bem, a oferta da viúva, que ocorre no templo, tem um fim específico, agradar a Deus. Este agrado, que é feito em total indigência, torna-se referência para que Jesus interpele seus discípulos sobre a confiança, despojamento e entrega; e, na realidade, nas circunstâncias em que ocorre a oferta, a mesma constitui um nobre e valoroso acto, mas nunca em oposição ao acto do rico. Dar o que sobeja, ou o que não faz falta, é fácil, partilhar do que se necessita é um nobilíssimo gesto.
Por outro lado, as narrativas de Marcos e Lucas contêm alguma imprecisão: Lucas refere que a viúva entrega dois leptos (a moeda grega), Marcos refere que a viúva deposita dois quadrantes (a moeda romana). Pois bem, eu afirmo que a narrativa está alterada e diz respeito a uma visão muito para além do tempo de Jesus. Afirmo isto porque, na tradição judaica, tudo quanto vinha dos pagãos era considerado impuro e, consequentemente, não podia profanar o templo (onde o Deus invisível habitava),razão pela qual se encontravam os cambistas junto ao templo. Não considero as narrativas originais no que respeita ao uso das moedas referidas.
Este Portugal está infestado de carraças que chupam o sangue do pobre povo (povo pobre). Durante toda a sua faustosa/porca vida de douradas reformas vitalícias e afins, não se lembram dos que não têm uma sopa para comer.
Não vivem no inferno, não; vivem cegos e surdos sem se aperceberem do que se passa è sua volta.
Quando estiverem com “os pés para a cova” vão a Fátima, poem umas velinhas e até beijam o anel do Papa sejam Opus Dei sejam Ateus, Agnósticos ou o Diabo que os carregue… e lá ganham umas asinhas para voar para o Céu.
Isto faz-me lembrar uma carraça qualquer…