Vi, ao vivo, três Papas. Paulo VI em Roma (1978), João Paulo II em Lisboa (1982), Bento XVI também em Lisboa (2010). Sempre associados a um magistério que só terminaria com o desaparecimento físico de qualquer deles. Nunca imaginei que fizesse sentido a expressão “Papa demissionário”.
Já faz, desde esta manhã.
Num tempo em que qualquer irrelevância se torna manchete, eis-nos perante uma verdadeira notícia. E se o romance As Sandálias do Pescador, de Morris West, antecipou em década e meia o pontificado de Karol Wojtyla, o homem que emergiu da igreja do silêncio, a renúncia de Joseph Ratzinger era de algum modo prenunciada há dois anos num filme visionário: Habemus Papam, de Nanni Moretti.
Ficção e vida entrelaçadas, tornando ainda mais insondáveis os desígnios de Deus.


Hoje, na minha Ronda, recuperei um texto que escrevi em Abril do ano passado: 2/sede-vacante-1-de-marco.html
http://arondadosdias.blogspot.pt/2013/0
Beijos, Pierre.
Gosto sempre destes teus contributos, Ivone. E já ando com saudades tuas.
http://www.vatican.va/holy_father/benedi ct_xvi/speeches/2013/february/documents/h f_ben-xvi_spe_20130211_declaratio_fr.htm l
Não foi a primeira vez, longe disso. Nem será a última.
Há uma década o então Cardeal Ratzinger pedia ao Sumo Pontífice João Paulo II que aceitasse a sua resignação. O Papa polaco declinou afirmando que a Igreja precisava dos seus serviços. Ratzinger nunca aspirou a ser Papa, mas aceitou o cálice que lhes foi apresentado.
Agora, um dos maiores intelectuais do nosso tempo, dá um exemplo extraordinário, não apenas de desprendimento do poder, mas sobretudo de lucidez e humanidade ao tematizar a fragilidade própria da idade e da condição humana. Fragilidade tantas vezes esquecida por uma sociedade obcecada pela juventude, pelo mais belo, mais forte. Ser-se verdadeiramente livre é isto, talvez por isso cause tanta surpresa esta decisão do teólogo alemão.
Este Papa, que tive o privilégio de acompanhar de perto durante dias inesquecíveis nas Jornadas Mundiais da Juventude aqui na Alemanha, merece ter o tempo que deseja para escrever. A Igreja precisa da sua lucidez implacável e esta que os maiores críticos temem.
Sem dúvida Pedro esta é uma verdadeira notícia.
Sem dúvida, Helena. E, tal como tu, também considero que Bento XVI nos dá a todos – crentes e não crentes – “um exemplo extraordinário, não apenas de desprendimento do poder, mas sobretudo de lucidez e humanidade ao tematizar a fragilidade própria da idade e da condição humana”.
É como dizes: ser verdadeiramente livre é isto.
É verdade que este é um exemplo de liberdade e de lucidez, mas será que devem ser esses os principais atributos de um papa? A verdade é que o exemplo de João Paulo II me impressionou muito mais: com um lancinante sacrifício físico bem patente e aflitivo de presenciar, quase morreu à vista de todos, aos poucos e cada dia mais um pouco. Porque ele acreditava, suponho, que a sua missão era servir, fossem quais fossem as condições que Deus lhe desse para a desempenhar. Porque punha esse serviço acima da sua liberdade pessoal, da sua vontade e, sobretudo, do seu bem-estar. Porque acreditava ter sido escolhido pelo Espírito Santo para desempenhar um trabalho que não tem direito a reforma nem a quaisquer mordomias, como nunca se cansou de demonstrar até ao dia da sua morte (o caixão e toda a cerimónia fúnebre foram a última prova disso mesmo). Bem sei que isto não é para todos – é para muito poucos, até – e não leiam as minhas palavras como uma crítica a Bento XVI, porque não o é. Este papa é humano e tem a humildade de admiti-lo. O que digo é que João Paulo II estava num patamar muito mais alto, e seria sempre dificílimo suceder-lhe.
Ambos são casos a reter, creio, Ana. João Paulo II fez o que todos os antecessores, desde Celestino V no século XIII, fizeram: morreu Papa. Sucedeu algo idêntico aos seus predecessores mais conhecidos – Pio XII, João XXIII e Paulo VI – que mesmo sofrendo de cancro terminal não renunciaram a funções que consideravam irrenunciáveis.
João Paulo II teve como novidade absoluta ser o Papa da televisão. Desde o primeiro dia do seu pontificado até praticamente ao último fomos acompanhando a actividade deste Papa, nos momentos de alegria como nos momentos de sofrimento, onde quer que estivesse – e ele esteve em quase todo o lado, pois foi também o Papa viajante, tendo percorrido 129 países. Foi também um Papa poliglota: dominava mais de dez idiomas. E foi também o primeiro papa desportista: durante anos, já como chefe da Igreja Católica, praticou esqui e natação, e fez alpinismo.
Foi inovador em todos estes domínios e tornou-se por mérito próprio uma figura verdadeiramente universal, muito para além das fronteiras da sua fé religiosa.
Bento XVI é inovador de outra forma ao transmitir o trono de Pedro ainda em vida. Algo impensável em qualquer antecessor nos últimos sete séculos. Este desprendimento total, esta renúncia total a essa espécie de ‘luz do Mundo’ que o Vaticano também é, constitui motivo de reflexão profunda para crentes e não-crentes. E confere um carácter único ao seu papado.
Talvez eu não me tenha explicado bem: considero a decisão de Bento XVI um acto de inteligência e de humildade (não é fácil reconhecer as próprias limitações, mesmo que sejam só físicas) e acredito que as intenções tenham sido as mais elevadas. Mas admiro muito mais quem, reconhecendo embora as suas limitações, mesmo assim oferece o que pode dar, entregando a decisão a uma entidade superior. É a fé suprema e uma outra forma de humildade, quanto a mim de muito maior alcance.
No fundo, acho que admiro mais aquilo de que não me considero capaz: abdicar do direito a uma decisão sobre a minha própria vida. Até porque não tenho essa fé invejável de quem se entrega assim.
Mas tens razão quando dizes que este gesto deve ser motivo de reflexão para todos, crentes e não crentes. Os tempos vão mudando e a religião católica, como qualquer outra, não deve ser estática.
Tal como tu, Ana, também me inclino para admirar mais quem é capaz de abdicar da sua própria vida em nome de um valor que considera mais elevado. Mas esta renúncia do Papa, que deriva de uma assumida fragilidade humana, tem também uma inegável grandeza que somos talvez incapazes de avaliar ainda em toda a sua extensão.
Fica uma errata ao que escrevi acima: o último Pontífice a renunciar ao magistério supremo da Igreja foi Gregório XII, em 1415 – numa época de grandes divisões no mundo católico. Curiosamente, viria a ser designado bispo do Porto no Concílio de Constança.
Assisti a este vosso diálogo com muito interesse; e recordei-me do evangelho de Lucas: “(…) mas o que entre vós é o maior, torne-se como o último; e o que governa seja como o servo”. cf. Lc. 22,26
João Paulo II e Bento XVI possuem características próprias. Bento XVI é o homem das congregações, ele sabe que quem governa a Igreja não é o Papa mas a cúria. João Paulo II foi aquele que procurou transformar tudo isto, e, temporariamente, conseguiu. João Paulo II levou o serviço e a servidão às últimas consequências, e, por isto mesmo, neutralizou a cúria romana.
Tem razão. Muitas vezes discordei de João Paulo II por achá-lo conservador demais em assuntos cruciais, numa época em que me parece que a Igreja tem de acompanhar os tempos e ser mais flexível. Mas sempre respeitei profundamente quem, sendo inabalável nas suas convicções, dá o exemplo em vez de argumentos. E nisso ele foi insuperável. Penso que poderíamos talvez resumir tudo numa frase simples: João Paulo II regia-se pelo coração, Bento XVI pela cabeça. E talvez ele esteja certo, talvez este momento seja mais de pensar do que de sentir. Não sei, o tempo o dirá.
Não concordo consigo, Aninha, sobre um reger-se pelo coração e o outro a cabeça. Recomendo-lhe a leitura do livro de Bernard Lecomte, a biografia de João Paulo II. Vai ficar surpreendida com a envergadura intelectual dele e também com os seus feitos numa Polónia regida por um poder bem musculado. Mas também sobre a liberdade que a ele devemos por ter sido um dos principais protagonistas na queda dos regimes de leste.
É necessário também descobrir o poeta, o professor e actor que foi João Paulo II. Descobrir o homem que juntava os jovens (rapazes e raparigas) e fazia com seu kayak a descoberta da espiritualidade em sintonia com a natureza.
Encontraremos vários mundos ao debruçarmo-nos sobre este homem.
Quanto à sua dúvida sobre o Espírito Santo actuar: deixe-me dizer-lhe que eu acredito na actuação do Espírito; e se Ele não esteve na eleição, certamente que estará na resignação.
“O vento (espírito) sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito”. cf. Jo. 3,8
Serve a citação para estimulá-la a continuar em busca do que busca (assim entendo em suas palavras), fazendo-lhe um recomendação para que procure distinguir nos evangelhos, em particular nos sinópticos, onde reside a ideologia e começa a teologia. Esta busca, para quem busca, mergulha sempre o ser na solidão, mas a luz virá. Bom trabalho!
Quando escrevi essa frase pensei que alguém podia achar que eu estava a menorizar as capacidades intelectuais de João Paulo II. Nada disso, anoniminho. Sei que ele era um homem superior em muitos sentidos, e também nesse. E muito completo: pensador, artista, líder, globetrotter, desportista. Mas nada disso invalida que fosse essencialmente (e acima de tudo) um homem bom, de uma humanidade rara. Por isso disse que ele se regia pelo coração. Tinha a simplicidade dos grandes, e nela há sempre muita inteligência.
Obrigada pela sua recomendação de leitura, não conheço essa biografia de João Paulo II. E obrigada também pelo incentivo às minhas buscas. Toda a busca é solitária, tem razão. 🙂
Uma boa recomendação, sem dúvida.
Acredito firmemente que em todas as ocasiões os Papas devem fazer (e farão) aquilo que é mais correcto para a condução da Igreja. João Paulo II entendeu que era ficar, mesmo sofrendo. Bento XVI entendeu que não tinha condição física para continuar, num tempo particularmente exigente. Ambos fizeram o que acharam melhor. Não nos esqueçamos que a decisão de João Paulo II foi também criticada.
E não nos esqueçamos que também foi o Espírito Santo que elegeu este Papa que, na sua lucidez, decidiu o que decidiu.
João, admito humildemente que me falta fé para não questionar o que vejo e ouço, assim como admito que me falta fé para acreditar que é de facto o Espírito Santo quem escolhe um papa. Mas aquilo em que eu acredito (ou não) não é minimamente importante para o caso, o que é importante é aquilo em que acredita o papa. E se ele acredita que foi o Espírito Santo a escolhê-lo, suponho que deve achar também que o mesmo Espírito Santo lhe dará as forças necessárias para desempenhar as suas funções até ao fim. Ou talvez – digo-o sem a menor ironia, juro – ele acredite que o Espírito Santo não o quer mais nessas funções. Quem sou eu para julgar um papa…
Também fiz essa primeira leitura–uma comparação inevitável–, mas talvez nos dias de hoje a mensagem da liberdade seja mais importante do que a do sacrifício. Pode ser um passo importante para aproximar a Igreja das pessoas que cada vez mais entendem o sacrifício como uma resposta antiquada à liberdade criativa que exigimos da vida.
Pode ser, sim. Todas as minhas opiniões são revisíveis, sobretudo as mais espontâneas. 🙂
Rezemos pelo que vier. A julgar pelo caderno de encargos, pode não ter carisma mas tem de ter os ombros bem largos. Este, seja-lhe feita justiça, teve-os.
Penso o mesmo, Fernando.
A pouco e pouco vão-se os que ainda pensam. Ficamos entregues a robots.
http://cartasdascaldas.blogspot.pt/
Parabéns pelo seu blogue, João.
Não estranhei a decisão. O que não quer dizer que a esperasse. Ela decorre da personalidade, do espírito filosófico e da nacionalidade deste Papa pragmático. As limitações físicas da idade e as lutas que se advinham no futuro impõem alterações. Ter consciência disso e saber retirar-se a tempo é admirável. Para quem como eu é católica, para a Igreja e para todos aqueles que venham a ser seus sucessores.
«Cheguei à certeza de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o ministério de Pedro.» Acho extraordinária esta frase de Bento XVI, Helena. Pela humildade que revela, pelo desprendimento que traduz. Por assumir nos seus ombros já frágeis e na lucidez do seu intelecto toda a fragilidade da condição humana.