Da obscenidade


Rui Rocha,

 

Pelo visto, não se trata já dos efeitos da antropomorfização  nascida com os filmes de Walt Disney. Nem da extensão da tese do bom selvagem aos animais. O que está em causa já não é só perguntar se há gatos siameses maus e responder sempre que não, coitadinhos. Ou ter de aturar uma legião de padres américos que se dedicam a pastorear as almas das lagartixas. Ou os que sabem de cor o nome do Zico para o qual pedem uma segunda oportunidade e não perderam um segundo a dar um nome à criança que morreu com o crânio esmagado. Estamos, ao que parece, um passo à frente. No sentido do abismo. Agora, a luta não é apenas a da igualdade de direitos entre animais e humanos. É, mais do que isso, a da admissão da prevalência do direito à sobrevivência de um animal doméstico sobre o de um qualquer ser humano. Isto é, os animais, ou pelo menos certos animais (o que para o caso tanto vale) um passo à frente e os humanos, ou pelo menos certos humanos (para o caso tanto vale) um passo atrás, quando se posicionam numa escolha fundamental de vida ou de morte. Há perguntas de onde não se regressa. Porque mesmo uma resposta negativa transporta sempre um efeito de legitimação da hipótese formulada, mais que não seja enquanto tal. E em caso algum devemos ser cúmplices da obscenidade.

 

23 comentários em “Da obscenidade”

  1. Eu bem que menciono ocasionalmente o que defino como “efeito pêndulo”, em que numa tentativa moralista – para não lhe chamar proselitista – se tentam reivindicar direitos, muitas vezes utópicos, sem a consideração de todos os outros que foram espezinhados pelo caminho.

    Esta, agora, parece ser uma nova versão.

  2. Três notas:

    1 – Quando se tem um animal perfeitamente sociabilizado, que amamos, e que sabemos que nos ama, é realmente difícil responder a uma pergunta dessas. Eu acho que me resolveria pelo ser humano, mas garanto-lhe que morreria de sentimento de culpa por ter traído a minha cadelinha. Talvez até precisasse de uma psicoterapia para superar o trauma (não estou a ser irónica).

    2 – Os animais não têm culpa, são perfeitamente alheios, à antropomorfização nascida com os filmes de Walt Disney. Infelizmente, isso contribui para que muita gente crie ódio por eles. É uma injustiça e espero que o Rui não caia nessa armadilha.

    3 – Nunca lhe ocorreu que o nome da criança assassinada pelo cão tenha sido omitido por vontade da família? Há quem prefira manter-se anónimo, em casos destes, já que muita gente pode usar o nome para outros fins, que a família não deseje. Como se usou o nome do Zico.

    1. O seu comentário fala por si nos pontos 1 e 2 .
      Não discuto se o cão deve ser morto ou deve ter uma 2ª oportunidade (?) mas eu não hesitaria nem iría precisar de tratamento psicológico , acho que o balanço entre as duas atitudes seria sempre positivo para mim .

      Mas isto sou eu que sou casado e tenho filhos , netos , amigos e conhecidos por toda a parte (incluíndo cães bastante sociáveis).

      Quanto ao ponto 3 a criança tinha nome , chamava-se Dinis e isso apareceu em quase todos os jornais .
      Ponha o nome do cão no Google e aparece-lhe logo isso tudo na 1ª página .

      É disso precisamente que o post se queixa : como tantos outros sabe o nome do cão mas não se cansou a procurar o da criança , partindo logo para uma justificação (a família não quereria) .

      1. Foi aqui no Delito que fiquei a saber do nome do cão, não fui à procura de um nem do outro ao Google. Não vivo em Portugal e não leio jornais portugueses. Nas notícias que li na internet, não vi o nome da criança em lugar nenhum. Pela maneira como se falou aqui do assunto, presumi que o nome não tinha sido revelado.

        Quando o cão está sociabilizado, é considerado um membro da família e, em casos de aflição, em vez de reagir com violência, vira-se para o/a dono/a, a pedir ajuda. Seria esse olhar, numa aflição, que me iria incomodar. E muito! E quem não se compadecesse com um olhar desses, é que precisaria de ajuda psicológica!

        Sinto aqui muito a falta, aqui no Delito, dos autores defensores dos animais. Sinto a falta da Teresa Ribeiro (o que me deixa muito preocupada) e do António Manuel Venda.

        1. Eu sei quem é , ao que se dedica , que livros escreveu , em que blogs escreve ou colabora, onde vive , como se chama o seu marido e até várias fotos suas vi .
          Está tudo na net , tal como o nome do cão e o da criança porque os jornais portugueses que diz não ler também lá estão .
          Demorou-me isto tudo pouco mais de 5 minutos , logo visitarei com mais calma .

          Espantou-me assim que uma estudiosa não tivesse estudado e uma pesquisadora não tivesse pesquisado , nem parece seu .

          Quanto a cães não vamos trocar opiniões pois seria a minha experiência contra a sua e isso vale o que vale no mundo virtual (isto é , nada de nada).

          Mas sempre lhe digo que tem razão quando se refere a “esse olhar” de aflição , já o vi num cão de que gostava muito , talvez o único cão de quem realmente gostei a sério e que morreu na sequência de um acidente infeliz .
          Mas como também já vi 2 dos meus filhos em situação muito difícil (e não por acidentes)
          sei bem “onde acaba o arame e começa o varão” .
          Será assim possível que a minha cara tenha a teoria (decerto útil) e eu tenha a prática (decerto desagradável) .

          Não vejo assim a que propósito vem agora a história contada ao contrário quanto às ajudas psicológicas .
          Pode dar as voltas que quiser ao texto mas isso nunca foi posto em causa .

          O que foi posto em causa foi a escolha entre uma vida humana desconhecida e um animal conhecido .
          E isso para mim não devia ser motivo de dúvida nenhuma , o que não me pareceu ser o seu caso .
          Entre um remorso e o outro , eu precisaria de ajuda psicológica (e muita , talvez mesmo internamento !) era se deixasse morrer uma pessoa.

          Ainda que a demagogia reinante meta sempre seres tenebrosos nas comparações idiotas que se fazem entre homens e animais , a grande maioria da humanidade é (felizmente) constituída por pessoas simples e boas que não devem morrer , nem que seja porque fazem decerto muita falta – sob todos os pontos de vista – ou aos cônjuges ou aos filhos ou aos pais ou aos amigos ou a todos eles juntos .

          Claro que há pessoas que só têem na vida o seu cão ou o seu gato mas aí já estamos a falar de outros assuntos …

          Uma boa semana para si

          P.S. – Não concordo nada com o que diz sobre o ódio aos animais que na sua opinião por aí começa a proliferar , não é isso que vejo (e passo metade do tempo na cidade e a outra metade no campo , lido com realidades diversas) .
          O que incomoda muitos é o fundamentalismo , qualquer fundamentalismo – mas isso é algo de que nenhum fundamentalista se apercebe , por definição .

          1. Eu não disse que não precisava de ajuda psicológica se deixasse morrer a pessoa, porque penso que não havia necessidade de o referir. Eu só quis frisar que talvez precisasse dessa ajuda se deixasse morrer a minha cadela, porque, isso sim, já será mais estranho para quem não está habituado a lidar com animais (o que, pelos vistos, não é o seu caso).

            Quanto à comparação de uma aflição do meu animal ou da minha criança, como o/a rmg a põe, não tenho nada a acrescentar, concordo consigo, nem nunca insinuei algo que pudesse pôr tal em causa. Só uma má interpretação das minhas palavras pode levar a conclusões em contrário.

            Também repudio qualquer fundamentalismo.

          2. Agradeço a sua resposta .

            Isto dos debates virtuais vale o que vale e , como já disse , é nada ou pouco mais .

            Porque na net andam “ao estalo” pessoas que se estivessem juntas e ao vivo talvez se entendessem , ao mesmo tempo que na net “se entendem” pessoas que se estivessem juntas e ao vivo talvez andassem ao estalo .

          3. E nao esquecer que este é um assunto que atualmente incendeia os ânimos. Vê-se muita histeria de parte a parte e partimos para o “debate” armados até aos dentes, independentemente de quem está do outro lado da barricada.

    2. Não se pode dizer que vivemos em Democracia, quando se permite a pessoas como a sra Cristina Torrão usar o direito de voto.
      Quando uma pessoa se põe o dilema de salvar o seu cão ou outra pessoa, precisa de cuidados médicos, e urgentes. Vá-se tratar, minha senhora!

      1. Não posso dizer que a espécie humana seja tão inteligente como se pensa, quando constato que pessoas como Alexandre Carvalho da Silveira a ela pertencem.

        Se não admite uma opinião diferente da sua, se pensa ser dono da verdade, precisa de cuidados médicos, e urgentes. Vá-se tratar, senhor!

        1. Então vou-lhe explicar de outra maneira, pode ser que assim, descendo ao nivel da minha pouca inteligência, a srs Cristina perceba melhor: quem hesita entre salvar um cão ou uma pessoa, está abaixo de cão, e dificilmente pode ser considerada uma pessoa no seu juizo perfeito. Isto não tem nada a ver com o amor aos animais, que não está aqui em causa. O que está aqui em causa, é a escala de valores pelos quais as pessoas se regem. Pode-lhe dar as voltas que quiser, mas um cão é um cão, por muito que gostemos dele, e uma pessoa é uma pessoa. Quem não é capaz de distinguir esta diferença, não sabe o que é que anda cá a fazer!
          Nota: tenho 61 anos, e sempre tive cães, desde míudo em casa dos meus pais, e depois de ter a minha própria casa. Como sabemos, os cães têm uma vida mais curta que as pessoas, e de cada vez que que nos morre um cão, é um desgosto colectivo que atinge a minha numerosa familia. Nesses momentos tristes, eu costumo dizer que já não quero mais cães em casa, não quero tornar a passar por aquilo.
          Mas apesar de ter sempre a casa cheia de gente, existe sempre um vazio; sentimos a falta daqueles olhos que parecem sorrir para nós, e a cauda a abanar quando nos vai esperar à porta. Ou a festa que nos costuma fazer quando estivemos uns dias fora. E não há como resistir a isso. Por isso continuo a ter um cão do qual gosto muito; mas que nunca hesitaria em deixar morrer, se disso dependesse a vida de uma pessoa.

          1. Caro Alexandre Carvalho da Silveira,
            ainda assim, consegui levá-lo a mostar os seus sentimentos. Assim, entendemo-nos melhor! Reagiu muito agressivo ao meu primeiro comentário e não havia necessidade. Foi só por isso que lhe paguei da mesma moeda.

            Decidir entre a vida da minha cadela e de uma pessoa que me fosse desconhecida seria um conflito terrível para mim e espero nunca me ver nessa situação (não ponho o caso de ser uma criança, mas um adulto). Como há outros conflitos em que não gostaria de me ver, como: saltar de uma janela alta, em caso de incêndio, ou deixar-me queimar; ter de escolher entre dois familiares, salvando a vida de um deles, etc. Deus me livre de tais destinos! Aliás, obsceno é um jornalista do Público ter a ideia de fazer uma reportagem baseada numa pergunta deste género, que só serve para exacerbar radicalismos.

            E, já agora, perdoo-lhe por me dizer que estou abaixo de cão. Tenho humildade suficiente para reconhecer que, em muitas coisas, eles são-nos superiores, sim: ouvem melhor, farejam e pressentem melhor o perigo, são ajudas imprescindíveis no salvamento de pessoas soterradas na sequência de um tremor de terra, por exemplo. Sem eles, não estaríamos em condições de encontrar essas pessoas, a fim de as salvarmos. E isto são só pequenos exemplos, haveria muitos mais. Também há cães que conseguem farejar doenças, como a diabetes.

            Só tenho algo acrescentar: sei muito bem o que ando aqui a fazer!

  3. Não sei qual a dúvida…

    Todos os dias as pessoas escolhem o seu animal a uma pessoa.
    Aliás todos os dias, nem é preciso um animal, as pessoas escolhem divertir-se, por ex: ver um jogo de futebol.
    Nos nossos tempos livres vamos todos para uma associação de assistência ser voluntários? Não.
    Doamos todo o nosso dinheiro e riqueza para uma qualquer causa que salve vidas? Não.

    Não gostamos de pensar nisto e talvez até seja mau pensar nisso para muita gente, mas é assim.
    E eu acho bem. Devemos ser diferentes para existir redundância. O egoísmo é necessário para a sobrevivência.

    1. Nem sempre concordo com o luckluckly nos vários blogues onde o encontro, mas tem pelo menos a grande (e rara) qualidade de chamar os bois pelos nomes. Muito bem!

    2. Também gostei muito deste seu comentário, lucklucky, aplaudo!

      Aproveito agora para dizer que, numa primeira leitura, penso ter interpretado mal o post do Rui Rocha. Não é minha intenção, nunca foi, pôr os animais à frente das pessoas, mas, sim, contribuir para que haja mais harmonia na relação entre uns e outros, evitando a radicalização. Numa primeira leitura, o post pareceu-me mais um texto que apenas serviria para cavar o fosso mais fundo. Na verdade, o Rui ficou, e muito bem, indignado com o facto de se ter usado tal pergunta a servir de reportagem.

      Quanto ao nome da criança, que sei agora que era Dinis, reparo que o Rui apenas menciona o facto de os iniciadores da petição (que eu não assinei) não se deram ao trabalho de o mencionar. Por algum motivo, sempre pensei que o nome não era conhecido do público e interpretei isso como uma possível estratégia de defesa por parte da família. Erro meu.

      Apenas um reparo: não sei que mal possa vir ao mundo por existirem legiões de “padres américos que se dedicam a pastorear as almas das lagartixas” 😉

  4. Subscrevo inteiramente a tua indignação perante a simples formulação de uma pergunta destas, Rui. Mais um passo descendente que vai sendo dado quase sem se dar por isso. Impossível não fechar os olhos a esta contínua degraduação dos patamares éticos mais consensuais neste nosso mundo ocidental, onde o animal é tratado como gente (e sempre com nome de gente) e o ser humano é tratado como besta.

  5. Tendo em conta a quantidade de pessoas que no meu blog comentaram a admitir que escolheriam salvar o seu bóbi em vez de um desconhecido em geral, e do Daniel Oliveira em particular, talvez a pergunta nao seja tão obscena assim, mas possa ilustrar um problema social e fazer-nos olhar seriamente para ele.

    1. Andou perto, pena não ter concretizado. Na realidade andamos sempre com reflexões e, mesmo que possamos falhar, nunca vamos ao cerne da questão.
      Irónicamente, postei um comentário acima onde deixei ao critério dos instintos animalescos, principalmente pela sua (deles) tendência para escolherem sempre o espectro da luz vermelha (as cores vivas), a resposta existêncial que se coloca. A quem necessite de uma resposta credível, vinda dos bichinhos.
      Todos sabemos que os seres humanos são mamíferos. Muita gente pensa que isto nos torna idênticos aos outros mamíferos (e não só), até mesmo nas reacções (daí o termo «lei da selva»).
      Porém, nas reacções que vemos por parte desses outros animais, em particular naquilo a que se denomina «selvajaria» e «crueldade», conscientemente sabemos (os que sabem) que eles não agem segundo esses critérios: para eles não existe «crueldade» e «selvajaria». Mas para nós existe, e nós conhecemos isso. Aqui está a grande diferença entre nós e a «lei da selva», ponto final.
      Agora avanço um pouco na mais na matéria que se deve cumprir. Creio que o Homem chegou ao ponto em que não se satizfaz (individualmente) e não é capaz de satisfazer as necessidades colectivas. Entrou no domínio do eu e para mim e subverteu a sua própria natureza. Esta atitude, que tem raíz numa antroplogia filosófica (no que respeita à nova forma de pensamento e raciocínio, que se inicia no século XX), conduziu o Homem a um estado permanente de solidão; e, em estado de solidão, surge a necessidade do relacionamento passivo, aquele que se estabelece com outras formas de vida que não incomodam tanto quanto os mamíferos que somos. Creio, isto sim, que a reflexão deve centrar-se nas formas que desejamos para viver e morrer, revelando sempre a divindade da vida e da morte que reveste e preenche o ser Homem.
      No essencial, aproximo-me do pensamento não expresso do Rui.

    1. Poderá parecer-lhe arrogante – por vezes não nos resta outra alternativa -, mas vai sendo altura de aprender alguma coisa.

      Concluo da seguinte forma: Há uma ostentação da bondade que até parece maldade.

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