Em política não há coincidências


Pedro Correia,

Os primeiros sinais positivos das finanças portuguesas desde o pedido de intervenção externa (regresso aos mercados após 30 meses, com juros abaixo dos 5%, garantindo as necessidades de financiamento de Portugal para este ano; execução orçamental abaixo do limite do défice para 2012  previsto no memorando de entendimento; seis avaliações positivas ao cumprimento das metas de consolidação orçamental impostas pelos nossos credores do FMI, do BCE e da Comissão Europeia; primeira balança comercial positiva desde 1943) estão a acelerar algumas pulsações nas fileiras do PS. A economia é o melhor barómetro para entendermos certas movimentações políticas.

António José Seguro bem tentou reclamar para si os louros da dilatação dos prazos previstos para o pagamento da nossa dívida, mas não consegue convencer ilustres socialistas, que lhe vão apertando o cerco, conscientes que a recuperação da economia portuguesa daqui a um ano já será realidade, de acordo com as previsões do Banco de Portugal: aguardar pacientemente um longo processo de desgaste dos rivais internos deixou de ser a palavra de ordem.

Os sinais são evidentes. Pedro Silva Pereira, ex-ministro da Presidência, afirma em entrevista à Rádio Renascença que a principal força política da oposição ainda não se apresenta como uma “alternativa credível” ao Governo PSD-CDS, enquanto reclama a antecipação do congresso do partido – cenário já rejeitado pelo dirigente socialista José Junqueiro. Outro deputado do PS, José Lello, defende também um congresso “o mais breve possível”, pressionando Seguro. O ex-ministro da Defesa e dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, no seu habitual espaço de comentário na TVI 24, diz sem papas na língua que a recente trapalhada no PS em torno da ADSE resultou de “um erro de liderança”.

E – superando em acutilância os seus camaradas de partido – António Costa aproveitou também a sua tribuna de comentário televisivo semanal, na SIC Notícias, para acusar Seguro de partir para as próximas batalhas políticas “diminuído, sem autenticidade, sem convicção, sem capacidade de confrontação, sem capacidade de formulação de uma alternativa sustentada”. Isto enquanto tarda em confirmar a sua recandidatura à Presidência da Câmara Municipal de Lisboa.

Terminou o tempo de esperar para ver: estas vozes não se levantam agora por acaso. Em política, nunca há coincidências.

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12 comentários em “Em política não há coincidências”

  1. Acutilâncias,fazer tremer os banqueiros,eu sempre disse.No regime anterior ao de Abril havia um general conhecido por Meia-Nau,só proa.Talvez por causa dos meias-naus Mário Soares convidou,no 2ºFMI,para ministro das Finanças Ernâni Lopes que fez o sangue,suor e lágrimas noticiados pelos media da altura.

    1. Esse foi, na altura, o Governo com pior imprensa de que me lembro. Hoje é evocado à esquerda e à direita como um Governo patriótico, que pôs Portugal no bom caminho. Mudam-se os tempos…

  2. Pedro, não se queira iludir.

    Desde logo porque a ida ao mercado de hoje não garante de forma nenhuma “as necessidades de financiamento de Portugal para este ano”, como escreveu. Muito longe disso.

    Os limites do endividamento foram cumpridos porque se orçamentou o encaixe da concessão da ANA por cinquenta anos a uma empresa francesa que gere aeroportos regionais. Nenhum país tem a sua autoridade aérea privatizada. Um disparate digno de um Sócrates.

    Taxas de juro mais baixas agora do que antes até os gregos conseguem.

    O que realmente conta são outras questões, e essas mantêm-se inalteradas:
    – a economia vai voltar a encolher 3% em 2013;
    – o desemprego vai aumentar em 2013;
    – o orçamento para 2013 é inexequivel sobretudo pelo lado da receita;
    – o Estado vai contribuir diretamente para aumentar em 50mil desempregados o número calamitoso que já hoje existe;
    – que todos passem fome porque o importante é “salvar” os bancos e a integridade política e territorial da URSE;
    – o titanic que a UE é vai afundar economicamente um pouco mais este ano, como ainda hoje o FMI declarou quando reviu de positivo para negativa a evolução do PIB europeu;
    – os portugueses são os passageiros da 3ª classe deste Titanic político.

    Numa coisa concordo, obviamente, consigo:
    o PS faria o que o PSD está a fazer. Até nisso somos replicamos o Dupont e Dupond que o PASOK e a ND são. Até nisso somos “gregos”.

    Quanto à balança balança comercial positiva, seria realmente bom ele resultasse de sermos mais competitivos.
    Infelizmente resulta apenas de estarmos mais pobres, de não haver dinheiro para importar bens de consumo, assim como de não haver investimento que implicaria o habitual movimento de aumento das importações a curto prazo resultante da aquisição de tecnologia.

    O nosso futuro próximo já existe, podemos vê-lo agora: ele está ali, mais próximo do que os 3 mil km que nos separam da Grécia parecem fazer crer.

      1. @ belos…
        Infelizmente, é para uma nova Albania (por sinal, ali junto aa Grécia) que o socialismo eurocentrico nos está a levar.

        E o camarada Hoxa também já existe; está à frente da Comissão Europeia, e nunca ele imaginou quando migrou do MRPP para o PSD que um dia ainda iria cumprir o sonho falhado na juventude.

        1. Caro PPorto:

          A operação de venda de dívida pública a cinco anos surpreendeu pela dimensão da procura – 4,8 vezes superior ao montante colocado de 2,5 mil milhões de euros – e pela taxa de juro implícita da emissão, que ficou abaixo dos 5% (4,891%). Foram 289 os investidores que colocaram ordens de compra nos livros de emissão, num montante total superior a 12 mil milhões de euros – seis vezes mais do que o objectivo inicial.
          Conclusão: tratou-se de uma demonstração de força do Estado português e sugere que este não terá dificuldade em se financiar até pelo menos ao início de 2014.
          Até há muito pouco tempo, Portugal não merecia confiança para um empréstimo mínimo. Na última emissão comparável realizada por Portugal, em Fevereiro de 2011, a procura total tinha sido de aproximadamente sete mil milhões, realizada por 160 investidores.
          De acordo com o Ministério das Finanças, 93% da dívida colocada rumou ao estrangeiro, designadamente EUA e Reino Unido.
          Sinais positivos? Ninguém de boa fé pode ignorá-los.

          Longe de mim negar os problemas a que você alude: a pior atitude é sempre a da avestruz. Mas também de pouco vale olhar para o copo e vê-lo sempre sem água.
          Não se trata aqui de fazer nenhum favor aos bancos. Como bem sabe, sem credibilidade financeira externa não há crédito bancário. E sem crédito bancário não há financiamento das empresas. E sem empresas com acesso ao crédito não há criação de emprego. E sem criação de emprego não há produção de riqueza. E sem produção de riqueza há aquilo que temos hoje: um país estrangulado financeiramente e há mais de uma década estagnado, dependendo do auxílio externo para o cumprimento das mais elementares operações de tesouraria.
          Para o bem e para o mal, isto anda tudo ligado.

  3. Os primeiros sinais positivos das finanças portuguesas

    Não se refere, certamente, a a dívida do Estado ter ultrapassado os 120% do PIB, valor a partir do qual é habitualmente considerada impagável.

    regresso aos mercados após 30 meses, com juros abaixo dos 5%

    Num período em que os mercados financeiros estão bull nas obrigações high yield (que dantes eram mais prosaicamente apelidadas junk bonds), isso pouco tem de especial.

    execução orçamental abaixo do limite do défice para 2012 previsto no memorando de entendimento

    Quer dizer, abaixo da revisão desse limite feita em setembro passado, porque se constatou que o limite original de forma nenhuma poderia ser cumprido. E com a ajuda da receita extraordinária da venda da ANA.

    1. Não, Luís, não estou a referir-me à dívida pública, nem ao desemprego (quase em 17%), nem à retracção do consumo interno, nem à quebra do investimento (que caiu 36% desde 2009). Por isso me refiro aos ‘primeiros sinais positivos’ nas finanças portuguesas desde a intervenção da troika em Portugal.
      Estes, pelo menos, são sinais positivos. Os analistas internacionais classificaram o nosso regresso ao mercado obrigacionista com palavras como “estrondoso” e “impressionante”. O País ganhou credibilidade: é um passo na reconquista progressiva da nossa autonomia de decisão. Portugal deixa de ser visto como um país que tem as portas fechadas às emissões de longo prazo, o que terá efeitos positivos para as empresas de maior dimensão e para os bancos, que procuram financiar-se no exterior.
      Diz você que para o sucesso do controlo do défice em 2012 – contrariando os vatícinios de quase todos os comentadores internos – houve uma ajuda da receita extraordinária da venda da ANA. É certo. Mas qual o problema se esta operação for validada pelo Eurostat?

      1. Os analistas internacionais classificaram o nosso regresso ao mercado obrigacionista com palavras como “estrondoso” e “impressionante”.

        Bah… Num momento em que os mercados estão bull em obrigações deste tipo, todos os vendedores de produtos financeiros ficaram entusiasmados por terem mais umas obrigações high yield para enfiarem pela goela dos clientes abaixo. E por isso deram muitas palmadinhas nas costas ao Gaspar. Mas não se iluda o Pedro, os mercados finaceiros são volúveis e mentirosos. Não tardarão nada a pôr-lhe (ao Gaspar) os cornos, desculpe a expressão.

        qual o problema se esta operação for validada pelo Eurostat?

        Há dois problemas. O primeiro (o menor) é que a operação pode de facto não vir a ser validada pelo Eurostat. O segundo (maior) é que é uma operação irrepetível, que só mascara este ano a realidade de um défice que é bem maior.

        1. Eu não me iludo quanto aos mercados, Luís. Sei bem que são volúveis e traçoeiros. Mas até por isso achei particularmente saborosa esta vitória portuguesa sobre as agências de ‘rating’. Uma vitória que é colectiva: ninguém deve apropriar-se dela.
          Quanto ao resto: se a operação contabilística for viabilizada pelo Eurostat, como provavelmente sucederá, isso significa que cumprimos o limite imposto pela ‘troika’ para o nosso défice em 2012. Mesmo em clima de recessão, nesse cenário, teremos baixado o nosso défice em seis pontos percentuais em escassos dois anos (de 11% para 5%), o que não deixará de ser devidamente apreciado pelos nossos credores e nos confere maior margem negocial.
          Para o ano veremos. Julgo que as condições macro-económicas mudarão substancialmente. Já é evidente para qualquer observador que a UE não deixará cair o euro e combaterá qualquer cenário de incumprimento de um dos seus membros com todos os instrumentos já criados ou a criar.

  4. A respeito deste tema:
    “[…] E eis que surge, no horizonte, o que primeiro se pensou tratar de uma miragem. Isto porque, pelos cálculos iniciais, estavam ainda a uns meses de viagem. Lá para Setembro, talvez. Ou será que Gaspar sabia de algo que não disse? O que é certo é que, à medida que a caravana agora avança, os contornos dessa promessa, que se pensava ainda longínqua, assumem contornos reais. Rostos de homens e mulheres, esgotados, iluminam-se de esperança. A morte, afinal, deixa assim de ser certa. Silenciaram-se as vozes de protesto. Nesta esperança, todos sabemos que a caminhada não acabou. Não! Mas morta a sede naquelas águas correntes, poderemos dar algum descanso aos corpos desgastados pelas privações do deserto. Chegamos ao fim da primeira grande etapa, antes do dia previsto. Mas o grande nada – o deserto impiedoso – estende-se ainda, desafiador, à nossa frente. Gaspar ajeita o chapéu, toca uma vez mais os cavalos e a caravana passa enquanto, ao longe, ladram os cães selvagens.”

    Artigo completo aqui:

    http://antologiadeideias.wordpress.com/2013/01/23/mercados-a-oeste/

    O Autor
    Blog: http://antologiadeideias.wordpress.com
    Facebook: https://www.facebook.com/antologiadeideias.wordpress
    E-mail: antologia.wordpress@gmail.com

  5. Temos de tentar abolir o AO rapidamente (no PS já diriam “abolir rápido” e tudo) antes que estes trogloditas voltem para o poleiro. Os tugas são suficientemente broncos para votar nestes tuaregues novamente.

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