tudo passa


Patrícia Reis,

Os dias correm. O tempo corre. Isto depois tudo junto dizem são anos. E que, como as crianças, é uma inevitabilidade biológica: passa, cresce e depois mingua. A minha bisavó dizia que eu crescia e ela minguava. Eu tinha quatro, cinco, seis. Não sei. Ela morreu a dormir, foi o que me disseram, não sei se é verdade, porque se mente às crianças sobre a morte, porque todos mentimos, num momento ou outro. Às crianças e aos adultos e à imagem que o espelho nos devolve. O que importa é o cliché que resume a coisa: tudo passa, os dias correm, nada que foi pode voltar a ser e o que será é imprevisível até certo ponto ou mesmo na totalidade e não há super homem algum. E eu vou sempre a jogo. Mesmo quando não me convidam, por isso sigo no carril, teimosa, no mesmo carril, sabendo que está gasto e que não me leva a lado algum, mas faz com que o tempo passe e se o tempo passar, os dias passam a semanas, as semanas a meses e os meses a anos e, a seguir, logo se vê. Logo se vê é uma expressão que eu uso com o meu filho mais novo. Logo se vê. E ele acata. Não por ser um menino muito certinho, mas para não levantar ondas, prefere fazê-las de outra forma e faz por estar na idade de as fazer e ainda bem. Até o invejo. O que não invejo é este carril que tenho e que é meu, não posso descartar-me e ninguém o leva daqui. Podia aparecer uma alma gentil que tivesse o condão de me fazer mudar de linha mas dizem que está tudo na minha cabeça e, se for o caso, estou tramada, porque tudo passa e, daqui a nada, já não me lembro. Como aquelas palavras que sei dizer e que não sei pronunciar ou que não me saem, ficam só a boiar na cabeça. Há quem teime nas más notícias e em ver bruxas e nuvens cerradas, o meu carril já passou as bruxas, as traições e as nuvens cerradas, há uma clareira e mesmo que depois seja o mesmo, sinceramente, quem é que se importa?

6 comentários em “tudo passa”

  1. Importo-me eu, minha amiga, porque ganhaste por direito próprio, que os amigos estejam atentos aos teus carris. Eu sei que eles andam por montanhas e vales, que atravessam ventos e tempestades, que a máquina também pode falhar. Mas no fim haverá sempre uma mão, um abraço, um colo para te aconchegar. Eu sei que há-de ser sempre assim e que, inesperadamente, o vento cai, a tempestade passa, o sol desponta. Tudo muito devagar, com um tempo que não é o nosso. E isso é que dói!

  2. “O que importa é o cliché que resume a coisa: tudo passa, os dias correm, nada que foi pode voltar a ser e o que será é imprevisível até certo ponto ou mesmo na totalidade e não há super homem algum.” Sem dúvida e a meu ver… ainda bem que assim é!

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