Ao contrário do que se pretende sustentar neste artigo, não me parece que o caso Depardieu seja pretexto para uma maior harmonização fiscal europeia. Nesta época de crise económica, é evidente que os Estados europeus não vão abdicar de ter uma política fiscal própria, depois de terem perdido a sua política monetária. O que o caso Depardieu demonstra é que, numa Europa integrada, os Estados passam a ter que ser competitivos também na sua política fiscal, já que se lançarem impostos exagerados, correm o risco de que os grandes contribuintes procurem outras paragens. E insultar esses contribuintes ou fazer declarações patéticas sobre a grandeza do país a que todos devem ter honra de pertencer nada resolverá. A carta aberta que Depardieu escreveu a Ayrault ficará na história como a reacção de um grande francês a uma tributação confiscatória e a um inacreditável insulto. “Minable, vous avez dit “minable”? Comme c’est minable.”
Se a França tributasse Depardieu a uma taxa na ordem dos 40% ficaria seguramente com 40% dos milhões que ele ganha. Ao subir essa taxa para 75% verá todo esse dinheiro ir para outras paragens. A ganância nunca foi boa conselheira e a ganância fiscal ainda o é menos. E, como se vê, há muitos países que recebem de bom grado o Sr. Depardieu. Até Putin lhe ofereceu um passaporte. Já as irritações do Governo francês nada podem contra esta frase lapidar com que Depardieu termina a sua carta: “Qui êtes-vous pour me juger ainsi, je vous le demande monsieur Ayrault, Premier ministre de monsieur Hollande, je vous le demande, qui êtes-vous? Malgré mes excès, mon appétit et mon amour de la vie, je suis un être libre, Monsieur, et je vais rester poli“. Só é pena que os cidadãos comuns, quer em França, quer em Portugal não tenham a mesma liberdade do Sr. Depardieu, e tenham que sofrer na pele estas tributações confiscatórias. E ainda por cima pela mão de partidos que se diziam liberais e defensores dos contribuintes.


Não me canso de repetir que o que foi “minable” (petoyable, misérable…) foi a política conduzida no sentido de favorecer-se corporações (públicas e privadas), quer nacionais quer europeias. Não houve uma política de cidadania, e nós não soubemos ser cidadãos. Chegou-se à conclusão que não é possível confiar os destinos de uma nação a corporações políticas sem que essas corporações sejam verdadeiramente fiscalizadas por grupos de cidadãos comprometidos. Quer queiramos admitir quer não, as instâncias que deveriam proteger, supervisionar e impedir o abuso que sobre os cidadãos pesa (quer nacionais quer europeias) estão contaminadas por uma atitude partidarista que corrompe o equilíbrio das sociedades.
Também quer queiramos admitir ou não, as fundações económicas das nações, e também em Portugal, nunca estiveram alicerçadas na responsabilidade social, e a política actual tudo faz para desresponsabilizar ainda mais. A conversa de que a economia deve estar ao serviço das pessoas já eu o afirmo há mais de vinte anos, e nunca esteve.
Sempre entendi que o estado é um elemento agregador de vontades e de de interesses que devem ser comuns. Para este efeito, criar instituições que regulamentem, supervisionem e estabeleçam os necessários equílibrios é uma constante das sociedade em progresso. Todavia, aquilo que hoje presenciamos em países mais debilitados, como é o caso de Portugal, é a transformação de uma nação em laboratório, onde às cobaias, submetidas às mais diversas e atrozes experiências, são inoculados os mais diversos tipos de cancro sem que o antídoto exista.
Mais grave ainda, usa-se o factor psicológico da culpa para levar as cobaias a submeter-se passivamente ao holocausto que lhes é proposto, não faltando também, em discursos de ocasião, o fúnebre elogio da sua submissa e valorosa rendição.
Já agora:
http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Inter ior.aspx?content_id=65213
http://visao.sapo.pt/o-que-diria-jesus-s e-voltasse-a-terra=f703398
Ao autor do post e aos diversos comentadores faço votos de um Feliz Natal, desejo para todos aquela alegria que é possível obter mesmo perante a miséria.
Nota: Depardieu fez bem, porque se defende de uma agressão do estado francês. Ele nunca usou o estado francês para enriquecer. Faz bem em proteger-se. Todavia, aqueles que estiveram sob benefícios dos estados, quer na economia quer nas finanças quer noutro tipo de corporações, paguem, mas paguem forte!
É bem verdade, Luís: “A ganância nunca foi boa conselheira e a ganância fiscal ainda o é menos.” O gesto de Depardieu de repúdio pelo confisco fiscal decretado pelo executivo francês tem, de resto, ilustres precedentes no mundo do cinema – basta lembrar Ingmar Bergman ou Sofia Loren.
“Se a França tributasse Depardieu a uma taxa na ordem dos 40% ficaria seguramente com 40% dos milhões que ele ganha. Ao subir essa taxa para 75% verá todo esse dinheiro ir para outras paragens.” O povo resume tudo nesta fórmula certeira: quem tudo quer, tudo perde.
A ‘harmonização fiscal’ bem pode esperar por melhores dias…
“demonstra é que, numa Europa integrada”
Isso existe com Europa integrada ou não. Aliás as ameaças e constantes ataques da Política Europeia Unionista à Suiça a obrigá-la a obedecer a regras da União- e propositadamente ignoradas por jornalistas- são cada vez mais frequentes.
Com a tecnologia a evoluir chegaremos a um momento em que cada um poderá fazer o seu país
O Seasteading Institute é um exemplo do trabalho.
Não tenho dúvida que os Estados existentes – em especial o Unionismo Europeu, e o Estatismo dos EUA irão atacar sem dó nem piedade quando isso acontecer.
O Socialismo Comunista colocava muros para as pessoas não fugirem, a Democracia cada vez mais Socialista e cada vez mais Totalitária vai fazer o mesmo. O que táctica será obviamente declarar que o Novo Muro é o Planeta Terra como já faz o IRS americano – com cada vez mais Americanos a recusarem o passaporte – mais outra história convenientemente ignorada.
O episódio de socialismo absolutamente simplório, via “l’affaire Gérard Depardieu”, será a gota de água que vai entornar o caldinho lá para o centro de aquela “União Europeia”?.
Um episódio secundário mas que está a levar os “europeus” a re-analizar a “Europa” que lhes estão a impingir?.
“Cette affaire est souvent considérée comme le symbole moderne et universel de l’iniquité au nom de la raison d’État …” reza a Wikipedia sobre o caso Dreyfus.
Aplicável, traduzindo anti-semitismo por “anti-riquismo”?.