Perspiquidade, a receita do sucesso


Ana Vidal,

 

Na SIC, uma reportagem denominada “Momentos de Mudança” revela-me o universo dos jovens empreendedores portugueses. Grande destaque para um deles (escapou-me o nome, mas, a avaliar pelo sotaque, é um verdadeiro homem do norte), que conta a sua história de sucesso e dá conselhos aos outros com a absoluta segurança dos vitoriosos. Entre mil chavões – decalcados dos discursos dos gurus Jobbs, Krugman ou Gates e devidamente explicados no esterilizado economês de Silicon Valley – o rapaz pára um momento e aventura-se numa ideia própria, ou, pelo menos, expressa na sua própria língua, para responder a uma pergunta da plateia: “Pá, além de proactivo, polifacetado, hands-on, tás a ver?, tens de ser perspicaz. E a tua perspiquidade tem de se ver logo na universidade”.

 

48 comentários em “Perspiquidade, a receita do sucesso”

        1. Aquela criatura acredita genuinamente que nasceu para triunfar e para levar exércitos de aspirantes a perspiquicadores atrás dele. Disse variadíssimas asneiras que não fixei, esta foi só a mais chocante.

        2. “Desconfio naturalmente de gente que se acha extraordinária e capaz de fazer a diferença.”

          Especialmente porque ao longo dos anos vamos vendo reportagens de tantas pessoas (e já agora de empresas) “extraordinárias” que “fazem a diferença”, e que meia dúzia de anos passados, não fez diferença nenhuma.

        3. idem.
          Também eu desconfio desses fantásticos seres extraordinários que marcam a diferença neste enorme universo de diminuídos e fracos (nós)…

  1. E o tão perspiquento rapaz empreendeu exactamente o quê? Espera, já sei: criou um dicionário online onde os utilizadores colocam palavras inventadas e respectivos significados…

    (Hmmm, se calhar eu devia ser suficientemente empreendedor para colocar estas ideias em prática…)

      1. já percebi que não foi o caso, mas dita de propósito perspiquidade teria sido genial. por exemplo: “aquele rapaz cuja perspiquidade o levou a protagonizar um programa de televisão…”

  2. Calhando é este artista. Este artista é um êxito porque alhures alguém se meteu a dizer que este artista era um verdadeiro êxito. Num sítio que eu cá sei deu ele umas palestras sobre «bater o punho [bater o quê?!] e nunca desistir» a 3 700,00 € ou mais cada. Não sei a dividir por quantos foi, mas sei que quem passou o cheque não era dono do dinheiro. Tamanho êxito contagia; ele é ver o ror de idiotas úteis a assegurarem que o êxito é um êxito.
    A “perspiquidade” é isto. E a intrujice e a roubalheira também.
    Cumpts.

        1. Não duvido, Zé. Eu é que vivo noutro mundo, onde as pessoas não desejam ardentemente ser “alavancadas” e “impactadas” por tipos destes (segui o link do nosso amigo Bic Laranja e encontrei extraordinários depoimentos dos convertidos à perspiquidade, que ainda por cima pagaram para ouvi-lo. Vale a pena ir lá lê-los…).
          Cheira-me que este rapaz ainda funda uma igreja.

    1. Caro edcab, muito obrigada pelo seu contributo. Confesso a minha ignorância. Não conhecia a palavra, e como não a vi escrita procurei-a com a grafia errada. Nada como uma lição de humildade. Sempre a aprender!

      (apesar de tudo, desconfio de que o orador iluminado de que falo também não a conhece bem, porque a associou a “perspicaz”)

      1. eu tb não conhecia, por curiosidade resolvi procurar e o dicionário é que automaticamente sugeriu a grafia correcta.

        acabámos todos a aprender à custa do rapaz:)

    2. Ai sim! E onde é que a «qualidade de perspícuo» entronca em «tens de ser perspicaz»?
      Clareza é uma coisa e argúcia é outra. Se é tudo o mesmo estamos como o vendedor de banha da cobra: o que é preciso é debitar palavras.
      Cumpts.

      1. Exactamente, Bic. A palavra existe mas foi usada no contexto errado, com o sentido de “perspicácia”. O que me leva a crer que era erro e não erudição.

    3. « Aqui advirto que este embaraço naõ seria taõ grande como parece; porque naõ he grande o numero destas palavras femininas, de que agora tratamos; e que em algumas seria bom, que por fugir de escrupulos e de duvidas, imitassemos com deliberaçaõ generosa e com rigorosa severidade, estricta e estrenuamente, o Latim, dizendo, por exemplo, por Podridaõ Putredine, por Cerraçaõ Caligine, por Comichaõ Prurito e Prurigine, por Prenhidaõ Gravididade, por Sequidaõ Siccidade ou Severidade, por Esfregaçaõ Friccione, por Devassidaõ Patefaccione e Perspicuidade, [e] por Charlataõ Blaterone […]»
      Antonio de Mello da Fonseca [i.e. José de Macedo], Antidoto da Lingua Portugueza, Amsterdam, Miguel Diaz, [s.d.], p. 70.

          1. No hard feelings!

            (Apetecia-me pôr aqui um sapinho com uma bandeira branca. Não é a primeira vez que me acontece. Porque é que não há esse sapinho?)

  3. Independentemente da perspicuidade (ou quidade) do homem, este tipo é mais um dos pro-activos.

    Eu sei que eu é que sou estranho, mas irrita-me esta história do pro-activo. Parece que já ninguém dá valor à competência, ao trabalho, à dedicação, à assiduidade… nada disso, hoje em dia o que é preciso é ser-se pro-activo. E o que é isso da proactividade? É uma cena, tás a ver, hoje pode querer dizer trabalhar de borla, amanhã outra coisa qualquer que o “manager” se lembre.

    Eu ainda acho que isto é culpa do aparecimento daqueles iogurtes com bifidus activus, ou lá o que é. E o meu problema deve ser mesmo esse: eu é mais bife, e dos activos!

    1. Também me irrita solenemente a importância que dão a esta pirotecnia de fachada, a substituir a competência e todos os valores que sempre associámos ao trabalho. É o triunfo das aparências, e não me parece que isso leve a nada de bom.

  4. Também já tinha visto há uns tempos. Fui pelo link ver o tal artista. Acima de tudo dá pena ao estado a que chegámos. É isto, este modo de ver a vida que está a sair das universidades? No tal site a descrição de cada um dos elementos que formam a equipa é assustadora. Sinceramente acho que no fundo são pessoas com uma vida muito mas mesmo muito triste.

  5. Mete dó pelo ridículo da situação, mas sobretudo pela situação em si: os jovens (alguns) estão convencidos de que se trabalharem muuuito, com muito empenho de acordo com o que ouvem por aí, conseguem vencer na vida. Ora, só vence na vida quem tiver alguém que os encaminhe, tipo um padrinho ou um patrono…
    Isso do empreendedorismo, proactividade, competências, formação académica, etc. vale mas só para esses. Tudo o resto é só para engrossar as filas do desemprego e habilitarem-se a fazer parte da tal sociedade de escravos que está a ser construída a pouco e pouco como na fábula da rã cozida em água fria…

    1. Não seja tão pessimista, DNO. O trabalho empenhado e a competência continuam a ser valores seguros. Muito pior é o xico-espertismo que parece emanar destas comunicações como fórmula de sucesso, isso é que me preocupa. Além disso, as cunhas podem servir para entrar (por muito injustas que sejam, e são sempre), mas não seguram incompetentes em lugar nenhum por muito tempo.

  6. Ana, ando desactualizada. Será influência da Casa dos Degredos? Será um seguidor de PPC que decidiu não emigrar? Será produto nacional? Não será um Seilassié da Troika?

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