Bananas e um programa de televisão quase clandestino


escafandro,

 

Há vários álbuns míticos com bananas na capa. O meu preferido (e, sendo a minha originalidade inatacável, de milhões de outras pessoas) é indubitavelmente The Velvet Underground and Nico. Mas Between 10th and 11th, dos Charlatans, merece menção honrosa e audições regulares. Os Charlatans ainda existem, claro, e até continuam a produzir canções bastante razoáveis mas, na minha opinião e na de qualquer outra pessoa com aquilo que se pode chamar de patamar mínimo de bom gosto (sente-se abrangido? Excelente), este é o grande álbum deles: se as bananas estão demasiado maduras, a música, apesar dos vinte anos de idade, permanece bastante comestível, num estilo Madchester-quase-a-terminar. Vi pela primeira vez o vídeo de Weirdo (oitavo tema, primeiro single) no mítico programa televisivo Pop-Off que, ainda universitário, acompanhava num televisor com um ecrã pouco maior do que o que hoje se pode encontrar num iPhone – e a preto e branco. (É verdade, crianças, embora a cor já existisse na televisão portuguesa há cerca de uma dezena de anos, ninguém avisara aquele televisor.) Numa época em que, Twin Peaks e um ou outro Império dos Sentidos exceptuados,  os conteúdos televisivos primavam pelo cinzentismo (ou talvez eu tenha ficado com essa ideia por causa do televisor), Pop-Off era um programa estranho mas também estranhamente entusiasmante, pela música que passava, pelos vídeos que produzia (tão low-budget mas tão esforçados que eram verdadeiras obras-primas de arte kitsch), pela Sofia Morais (então – a vários anos de catastróficas participações como jurada em programas de descoberta de talentos – inteiramente adorável), pelas entrevistas, pela vontade de provocar e de quebrar regras. (Quem desejar mais informações pode ir aqui; o artigo é óptimo e inclui coisas tão deliciosamente estapafúrdias como uma jornalista do Diário de Notícias ter pensado, ao assistir por acaso à emissão número 100, que aquilo era uma estação de televisão pirata.) Escrevia eu então (as divagações, garanto-vos, são uma coisa divertida para quem escreve, apesar de serem com frequência – estou consciente disso – uma chatice para quem lê) que vi este vídeo pela primeira vez no Pop-Off. Terá pois sido numa noite de Terça para Quarta, à uma e tal da manhã, fase do ciclo diário em que as minhas capacidades cognitivas tendiam a encontrar-se longe da melhor forma (*)(**), o que, refira-se, só parecia potenciar o efeito do conteúdo do programa. E por que é que ele me ficou na memória quando esqueci tantas outras coisas, entre as quais o conteúdo de todas as aulas teóricas a que assisti às oito da manhã? Em primeiro lugar porque, graças a uma razão misteriosa qualquer, passava estranhamente bem no pequeno ecrã a preto e branco que, alimentado de sinal por uma antena telescópica já bastante torcida, tremeluzia como se sofresse de uma variante electrónica da doença de Parkinson. Depois porque a primeira frase da canção me vem à ideia sempre que encontro pessoas incompreensivelmente felizes (felizmente cada vez mais raras). Deixo aqui o vídeo (que só consegui encontrar numa resolução fraquinha mas afinal tão adequada), com uma dedicatória à Sofia Morais dos tempos em que era gira e divertida, e outra ao pequeno televisor que um amigo a quem o emprestei depois de acabar o curso fez o favor de emprestar a uma namorada de quem se separou em termos tão pouco cordiais que nunca mais quis falar-lhe, nem sequer para lhe pedir o aparelho de volta.

 

Ah, a frase? Most of the time you are happy – you’re a weirdo.

 

 

(*) Nascido no campo, estou habituado a deitar-me cedo.

(**) Como – e deve ser tão óbvio – se encontram neste preciso momento.

 

(Republicado com alterações.)

2 comentários em “Bananas e um programa de televisão quase clandestino”

    1. Actualmente não faço ideia, Pedro. Na época em que foi jurada no… foi no Ídolos, não foi?.., não me pareceu. Especialmente não me pareceu divertida. Tive uma grande desilusão, confesso.
      Mas, enfim, se calhar eu também não conseguiria ser divertido se fosse jurado num programa daqueles…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *