Há, pelo menos, duas formas de ironia. A primeira socorre-se da linguagem, embora a tome muito para lá do seu valor facial. Quando Aníbal pede na cerimónia de entrega dos prémios Gazeta que digam que esteve mas não falou, o que propõe é um jogo que pressupõe o desvio do sentido literal das palavras que profere. É um tipo de ironia em que o proponente está aos comandos. Para que a ironia funcione é indispensável, é claro, que os destinatários participem. Que desviem o olhar interpretativo do valor facial das palavras para inquirir sobre aquilo que se quis dizer. Neste tipo de ironia há sempre algum risco. Se o proponente não tiver habilidade ou se os destinatários apresentarem uma qualquer barreira ao processo de comunicação (conhecimento deficiente da língua, desconhecimento do contexto ou segundas intenções, por exemplo) o efeito pretendido pode não verificar-se ou acontecer mesmo que a ironia acabe por residir no facto de esta se virar contra quem pretendia ser irónico. Em todo o caso, quando alguém utiliza a linguagem para produzir um significado oposto ou diferente do que decorre do sentido literal das palavras utilizadas temos sempre um proponente que aspira a controlar a informação transmitida, ainda que na prática as coisas possam, como vimos, descontrolar-se. Outras vezes, todavia, a ironia revela-se na descontinuidade entre um efeito e aquilo que seria de esperar que determinada acção viesse a desencadear. Aqui, a ironia não tem nada de voluntário. Surge sem que exista um proposta irónica inicial e intencional. A estas costumamos designá-las ironias do destino, expressão que traduz com a proximidade possível a irrupção de uma situação irónica inesperada e não controlada. Na entrega dos prémios Gazeta, a ironia que Aníbal quis produzir funcionou enquanto tal (outra coisa é saber se beneficia ou não o proponente). O sentido literal de estou calado foi transformado, remetendo para a interpretação do significado dos silêncios de Aníbal. Não deixa de ser irónico, todavia, que o Presidente tenha nesta mesma semana sido protagonista do outro tipo de ironia de que aqui se falou. Quando Aníbal refere a necessidade de regressar ao mar, à agricultura e à indústria, sendo ele quem foi, parece não se dar conta de que foi apanhado a jeito por uma ironia que surge de forma não provocada. É por essas e por outras que, mais do que ironias do destino, prefiro chamar-lhes supremas ironias.
Das ironias
Rui Rocha,

Repito o que disse ali em baixo: a ironia é uma arte difícil, não é para qualquer um. E não é, com toda a certeza, para Cavaco Silva.
Começo a intuir uma relação muito próxima entre o domínio da ironia e a forma como se come bolo-rei, Ana.
Não está nada mal visto.

e estão muito bem escolhidas, as supremas ironias.
embora ironia não seja bem isto, é mais a “falta de memória de político”, Rui. 🙂
Nesse caso que não lhe passe despercebido o nosso sorriso irónico, Luís.
um irói, este PR
Tem parecença com aquele Imperador do Japão, o coiso, o Iroito.
Quando li as declarações do PR e os vários comentários que correm a nação achei irónico que o PR seja criticado por falar e por ficar calado. Associando o preço da onça de ouro, que nos deu conta o PR, concluí que neste momeno o silêncio é ouro. Vamos lá ver qual será a cotação e a valorização no momento em que ele começar a falar.
Creio que a cotação vai descer a pique.
Até eu tenho mais piada.
Veremos se mantém o humor quando, juntamente com a vaca, for posto fora do estábulo.
Não esquecer que vou junto com a vaca.