Foi há 21 anos


Pedro Correia,

 

 

Não havia então “redes sociais” a proclamar indignações portáteis subscritas por revolucionários de sofá. Nem a difusão de imagens tinha a facilidade de um clique cibernético, tão comum nos nossos dias. O tempo passa, veloz. Parece ter sido ontem mas decorreram já 21 anos. A brutalidade indonésia liquidou naquela data várias dezenas de jovens timorenses que se limitavam a reclamar para o seu povo, por meios pacíficos, aquilo que nenhum de nós dispensa em qualquer quadrante onde se erga uma voz humana: liberdade.

A 12 de Novembro de 1991, o mundo começou a despertar para o imenso pesadelo de Timor-Leste, terra em transe, ocupada naqueles anos de chumbo pelas baionetas de Jacarta. E foi precisamente nesse dia, neste mesmo local que continua a ser alvo de emocionadas e emocionantes romagens da população timorense à memória dos seus mártires, que a soberania do mais jovem país da comunidade lusófona começou a ser resgatada.

No cemitério de Santa Cruz, em Díli. Onde se rezava e reza em português.

14 comentários em “Foi há 21 anos”

  1. Uma boa lição para os revolucionários de pacotilha de hoje em dia esta dada pelos jovens timorenses.
    Importantíssimo lembrar o papel de Max Stahl na divulgação deste massacre

    1. Rezava-se em Português sim. O Independente publicou na sexta-feira seguinte, 22 de Novembro, uma reportagem com fotos e texto de Steve Cox, título “Eu Estava Lá”. O texto foi escrito em inglês, em cima da hora de fecho, a tradução foi minha feita ao lado do Steve que várias vezes referiu precisamente que se rezava em português apesar de pouco se falar a língua.

      1. Isso mesmo, Luísa. E o trabalho de todos os jornalistas – mesmo com simples tarefas de tradução – foi fundamental então, nomeadamente em Portugal, onde muito pouca gente acreditava num Timor independente e livre. Havia até várias bempensâncias domésticas – tão arrogantes então como são agora – que asseguravam, por A mais B, que não havia alternativa à anexação dos timorenses pelas bestas fardadas de Jacarta.

  2. aquilo que nenhum de nós dispensa em qualquer quadrante onde se erga uma voz humana: liberdade

    A liberdade é um conceito pessoal. Dificilmente se pode conceber como um conceito nacional. Numa comunidade nacional, qualquer que ela seja, há pesoas livres e outras que o são muito menos.

    Pergunto se o Pedro descreveria com estas mesmas belas palavras as aspirações independentistas de escoceses, vascos, catalães, lombardos, etc.

    1. São situações incomparáveis, Luís Lavoura. Escoceses, catalães, lombardos, quebequenses, corsos, galeses, portorriquenhos, etc, vivem em sistemas democráticos, não em sistemas ditatoriais. Ao contrário do que acontecia com os timorenses sob domínio indonésio. Sucede ainda que vários desses povos tiveram já ou terão (os quebequenses e os escoceses, por exemplo) ocasião de se pronunciar em referendo sobre a possibilidade de se organizarem em estados independentes. Um direito que foi negado aos timorenses entre 1975 e 1999. Comparável com Timor nessa época é a situação actual no Sara Ocidental.

      1. Já agora, convem dizer que Portugal, regime neste aspeto ditatorial, continua a negar aos portugueses do Continente e da Madeira o direito de se pronunciarem sobre a independência dessa Região Autónoma, a qual tarda.

          1. Porque, que eu saiba, são constitucionalmente proibidos em Portugal partidos que sejam sequer regionalistas, muito menos independentistas.
            É nesse sentido que eu digo que Portugal não é democrático. Em Portugal, um partido como o Nacionalista Vasco seria proibido pelo Tribunal Constitucional.

          2. São proibidos partidos, mas não movimentos ou associações cívicas. Tanto quanto se sabe, nada existe organizado nesse género – nem sequer ao nível de fóruns nas redes sociais.

  3. Por mim reze-se em que língua for.

    O que realmente me interessa é lembrar para sempre, aquelas imagens de dor e sangue como um símbolo de luta por algo tão precioso.

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