A elegante despedida de Louçã


Pedro Correia,

Acompanhei o percurso de Francisco Louçã desde os primeiros passos que deu como deputado, era eu repórter parlamentar, e bem cedo percebi que estava perante um político que marcaria as legislaturas seguintes. Assim foi. O coordenador do Bloco de Esquerda, que em breve cessará estas funções, distinguiu-se como uma das vozes mais qualificadas da Assembleia da República, adversário temível de cinco primeiros-ministros (de António Guterres a Pedro Passos Coelho) e um hábil cultor do verbo parlamentar ao longo de 1012 intervenções – ao nível dos melhores tribunos que já desfilaram pelo púlpito de São Bento. Não é necessário ser simpatizante do BE para reconhecer esta evidência.

Treze anos depois da estreia, Louçã decidiu hoje pôr termo à sua vida parlamentar com uma inesperada declaração aos jornalistas, no estilo contundente a que nos habituou mas com um traço de emoção que costuma estar ausente das suas intervenções públicas.

“Quero deixar cristalinamente claro, sobretudo hoje, que não cedo em nenhum momento, nem um milímetro que seja, a qualquer populismo antiparlamentar. E por isso quero afirmar-vos a minha verdade: encontrei neste parlamento homens e mulheres extraordinários, adversários extraordinários. E eu respeito os meus adversários que são fiéis ao seu programa e ao mandato pelo qual foram eleitos. Por isso mesmo reafirmo convictamente que quem quer beneficiar do populismo que grasse na sociedade para ter algumas vantagens terá sempre a minha frontal oposição. É um crime antidemocrático deixar diminuir ou deixar corroer o pluralismo político – e nunca podem contar comigo para isso”, afirmou.

Palavras importantes. Por expressarem uma confiança inabalável na instituição parlamentar e uma recusa intransigente da demagogia rasteira que ameaça minar a democracia representativa nos mais diversos recantos da Europa, já tão esquecida das lições das duas grandes guerras.

Não sei se o Louçã de 1999 teria falado assim. Mas é importante que o Louçã de 2012 se pronuncie desta forma no momento em que se despede do Parlamento, renunciando às funções de deputado para que foi cinco vezes eleito. Com palavras de apreço pelos adversários num momento em que faltam gestos de civilidade na crispada política portuguesa. Palavras que deviam generalizar-se, agora e sempre, contra o espírito de trincheira que nos impede de reconhecer mérito a quantos não pensam como nós.

26 comentários em “A elegante despedida de Louçã”

  1. Francisco Louçã era um parlamentar que violava a apreciação de Agustina segundo a qual o “português não gosta de ouvir discursos” (na obra “A quinta Essência”).

    Estou convicto que todo o português, curioso sobre a peregrinação da Pátria, o gerúndio do País ou o fado da Nação, apreciava a retórica argumentativa de Louçã.
    Homem raro, porque de convicções.

    Factual, como é dever, não deixava de pegar no jogo da língua, seja a ironia ou genericamente o humor, mas sempre e todo o sempre sedimentado num tronco ideológico que por todos é conhecido e constituía a sua deliberação.Mas mais.
    Numa altura de “crise” e “re-descobrimento” do “ideológico” que comunga, participava, deliberando, arava e semeava a tentativa de construção de uma “esquerda”, avessa a uma burocracia impessoal de “organização”, antes pugnava pela desformalização de tal esquerda na origem, metodologicamente aberta a outros conflitos, seja de ordem económica, seja de ordem biológica, ou ecológica. A luta é o caminhar.

    Que muitos deputados aprendessem com Louçã. Sobretudo os muitos que pululam no psd, ps, ou cds e que se mostram completamente indiferentes porque…não estudam (logo não são factuais, não podem valorar, argumentar…).
    Ou, então, que fossem convictos (o que implica também …estudo, …é a vida!)
    Restam poucos, muito poucos.
    E enquanto a nossa sociedade civil continuar em não ser autónoma, madura e esclarecida, é de “Franciscos Louçãs” que vamos sentir…falta.
    Como parlamentar, fazia jus a tal nome e sentido fazia ao mandamento de Voltaire que, no seu “Candide”, apelava “trabalhemos…e deixemo-nos de discursos”.
    Trabalhou. E o que veio a mais…veio bem.

  2. Sem dúvida. Confesso que fiquei positivamente surpreendido. Numa altura em que o BE pode ter legítimas aspirações a tornar-se no Syriza português, é um acto de coragem deixar o partido. Mostra desapego ao poder, algo surpreendente em alguém que foi muitas vezes acusado justamente do contrário (um discurso em que, confesso, alinhei muitas vezes)

  3. O Dr. Louçã é sem sombra de duvida um grande crânio da politica portuguesa, sempre o foi, mesmo antes de proferir este adeus tocante que quase o remete à condição de martir.
    Sou coerente, ou pelo menos tento. O engraçado disto será igual ao funeral do finado? onde as lágrimas e o fenómeno do elogio apoderam-se dos sentimentos de todos? E quantos são os que no fundo rejubilam? Com lágrimas, mas que são de felicidade, choram como se tentassem amarrar aquela voz que vem do fundo e que quer dizer bem alto: – Bela hora, desaparece!

    1. Como escrevi, foi um dos mais brilhantes parlamentares de que me lembro (e conheci e conheço muitos). Julgo terem sido sinceros – e foram sem dúvida merecidos – os elogios que lhe foram dirigidos por adversários políticos desde que anunciou a renúncia ao Parlamento.

  4. Um elegante post de Pedro Correia. 🙂
    Sem dúvida um discurso bem pensado, o de Louçã. E é mesmo isso: não deixar qualquer dúvida quanto ao facto de o parlamento, o debate que aí acontece, apesar de todos os problemas, ser um esteio essencial da democracia.

  5. Caríssimo,

    “Um elegante post de Pedro Correia. :)” Faço minhas as palavras da Ana Reis.

    Forte abraço e bom fds,

    PS: E agora a matéria chata – Então e os meus livros ? 😛

    1. Achei muito importante que estas palavras tenham sido proferidas, Teresa. Numa altura em que tantos depreciam a instituição parlamentar e cedem à mais rasteira demagogia ‘antipolíticos’.

  6. Mais uma vez gostei de ouvir Louçã. Sei o que ele quer dizer com “populismos”. Sim, isto de populismos é para quem julga que tem um povo popularucho. Este prato já foi descontinuado. Agora temos um povo que não gosta de politiqueiros; quer gente honesta, gente séria, gente sabedora, gente interessada e não oportunista, mas, com alguma verdade, quer alguém que seja diferente dele próprio (perdoai-me esta dor da verdade). Louçã vai fazer falta no parlamento, e o povo agora vai mandar os populistas e populismos jogar o pau com os ursos.

  7. A mim o que mais me interessa é que estejamos (até ver) livres do seu ar de seminarista/pregador que sumamente me irritava.

  8. O Louçã é e foi muito inteligente em entender exactamente o que o povo precisava e queria ouvir.
    Isto é aquilo que mal e porcamente serve para alguma coisa, aquilo que qualquer entendido e informado sabe que não é verdade, o despejar de soundbytes de que vivem os cartazes do BE. De resto era toda uma verborreia quase igual às restantes bancadas, apimentada (claro está) sempre que o BE parecia desaparecer, com temas fracturantes sobre o sexo dos automoveis ou a influência da manicura nos transsexuais.
    Quem não se lembra do constante subliminar acusatório de todos os que não são BE, são betinhos, sendo ele um? Ou quando distorcia noções económicas (que ele próprio ensina) nos seus discursos? Falar de liberdade e democracia num partido que não vota no seu líder?
    Ele foi e é o amigo que fala alto e bonito no grupo em que a maioria se priva do disparate mais eloquente, e prefere o mais aborrecido facto.

    1. Como referi, não é preciso ser simpatizante bloquista para reconhecer o mérito de Louçã. As ideias que apresenta podem ser deploráveis, as soluções que propõe podem ser erradas, o estilo que o caracteriza pode ser irritante, mas isso não invalida as qualidades do líder cessante do BE enquanto tribuno, polemista, defensor firme de causas em que acredita e deputado que deixou rasto.

    2. Pois é, mas não é. O único com visão e lucidez, que antecipou tudo quanto está a acontecer nesta desenfreada lascívia e luxúria de agradar a Merkel e à troika que os pariu, foi Louçã. Ele fez calar banqueiros armados em astrólogos e economes(z)es que mal sabem fazer a prova dos nove. Uma coisa é analisar o seu projecto político outra coisa são as afirmações lúcidas de um visionário que quer concretizar o ideal de equílibrio, mas a quem Miguel Portas faz muita falta. Se o BE e o PCP desaparecessem neste momento o país ficava entregue à “bicharada”. Há equílibrios que necessitam ser reforçados.

  9. Estou inteiramente de acordo. Louçã vai fazer falta como oposição limpa, experiente, arguta e esclarecida, mesmo que não se concorde com ele. E estas palavras de despedida são a confirmação da sua merecida fama de estratego. Elegantes, ainda por cima.

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