Poucos escritores se bastam com o nome próprio, privilégio de quem se senta à nossa mesa nos Domingos que não são de festa. Sabemos que alguém é da casa quando o nome se antecipa a tudo o resto. Vem aí a Agustina. Estou a ler Agustina. Agustina é da nossa casa, portuguesa porque o seu (fora de) tempo é demasiado português para ressoar devidamente em casas estrangeiras. E se digo Agustina, e não a obra de Agustina, é porque sei, e ela também, que muitos dos que a admiram confessadamente nunca lhe leram uma linha. Bastava ouvi-la, travessa arguta desconcertante fulminante, para a sentirmos nossa. Agustina, como o tempo no fado da Argentina Santos, fica, ficará sempre, enquanto nós nos contentamos com estar de passagem.
Comecei a lê-la na faculdade, com a Sibila, e nunca mais parei, até à Ronda da Noite, com paragens pelas bermas, sempre sem saber porquê. Talvez porque haja ali um qualquer (fora de) tempo em que encontro uma ordem para o que sinto. E há sempre um riso, não muito óbvio, que se ouve enquanto nos deixamos levar pelos aforismos ou no momento em que uma personagem – são sempre as personagens, nunca os seus actos ou factos – nos passa a comandar, que me comove e desafia. E não sei resistir ao riso, nunca soube.
Parabéns, Agustina.

Meu caro Adolfo
Não serei exemplo para ninguém. Mas Agustina ensinou-me mais da vida que tudo o que o mundo à minha volta terá tentado ensinar. Fez-me como pessoa e fez-me como mulher!
Poucos escritores se bastam com o nome próprio
Desde que o nome próprio seja suficientemente invulgar, bastam-se sempre.
Por exemplo, ninguém pensaria em falar de Eça de Queiroz como “José”, por esse nome ser vulgar. Já toda a gente fala de Camilo Castelo Branco como “Camilo”, por esse nome ser raro. Nada tem a ver com a qualidade dos escritores.
A Agustina é património nacional, tens razão. A sensação que tenho é de que nos conhece a todos pelo nome também, tão a fundo entra em nós através do que escreve. Comecei a lê-la a medo, achando que não chegaria longe. Mas é um prazer imenso, semeado de divertimento, espanto e rendição absoluta. Os aforismos são insuperáveis: quase que cada frase, de cada história, vale por si própria e pode ser usada como lição de vida. Na última feira do livro comprei o primeiro livro da Opera Omnia de Agustina, com o título de “Dicionário Imperfeito”. Pode ler-se em doses terapêuticas, e aconselho a quem acha que não consegue entrar nos outros livros dela.
Como diz Ana Vidal, sempre que leio a Agustina fico com a sensação que ela me conhece. Ela entra pela nossa alma adentro remexe o que lhe apetece e denuncia tudo com uma candura desconcertante.