A propósito do que escrevi aqui, João José Cardoso assinala que a partir da fundação da SIC, em termos jornalísticos, passou a “valer tudo”. Pensava eu que o tempo do “vale tudo” na televisão portuguesa era o anterior, o do monopólio informativo com tutela pública, em que os ministros conheciam antecipadamente os alinhamentos dos telejornais… Estaria enganado? Creio que não.
Lembremos os factos. Durante a campanha eleitoral de 1995, o candidato socialista António Guterres anunciou o reforço de verbas para a saúde caso o seu partido ganhasse as legislativas. O repórter da SIC presente nessa acção de campanha – actual director do Expresso – quis passar do abstracto ao concreto, como se impunha, e perguntou-lhe quanto iria custar essa promessa. Guterres não soube responder.
Foi uma situação embaraçosa para o líder socialista. Mas repito: tratava-se de um acto de campanha eleitoral, com o secretário-geral do PS a prestar voluntariamente declarações aos órgãos de informação. Declarações que, caso não tivesse existido a referida pergunta, passariam sem o indispensável filtro mediático, como pura peça de propaganda. Assim enquadraram-se num trabalho jornalístico. Que contribuiu para desfazer o mito de Guterres como infalível prestidigitador de palavras.
O espantoso, nesta história de campanha eleitoral, não é que a SIC tenha difundido tais declarações – é que nenhum outro órgão de informação o tenha feito, uma vez que todos as registaram. Guterres falou por vontade própria aos jornalistas, ninguém o forçou a isso. E se algum facto relacionado com a sua vida privada o perturbara naquele dia percebe-se muito mal que não tenha agido em conformidade, anulando as acções da campanha e comunicado aos repórteres que não pretendia prestar declarações.
Alega João José Cardoso – como se os jornalistas tivessem obrigação de conhecer os detalhes da vida privada dos politicos antes de procederem, como lhes compete, ao indispensável escrutínio público das suas palavras e dos seus actos – que este episódio terá constituído um atentado à ética profissional por parte da SIC. Penso o contrário. “Valer tudo”, neste caso, teria sido expor perante os portugueses detalhes da vida privada ou íntima de um homem que se propunha governar Portugal. Estes limites são tradicionalmente respeitados entre nós, o que constitui um inequívoco sinal de civilidade, embora eu recorde exemplos recentes, que não especificarei, em que o princípio da preservação da vida privada dos políticos foi mandado às urtigas de forma leviana – para não dizer irresponsável.
Pouco depois da recolha daquelas declarações, o País inteiro assistiu ao desmaio de Cavaco Silva na posse de Guterres, entretanto designado primeiro-ministro por ter vencido as legislativas. Soube-se mais tarde que Cavaco não dormira nas duas noites anteriores devido à grave doença e morte de um familiar. Tal não impediu os portugueses de verem e reverem exaustivamente a cena do desmaio, ainda hoje exibida de quando em quando nos canais televisivos. À luz dos critérios de João José Cardoso, os jornalistas deveriam ter praticado autocensura, travando a difusão dessas imagens para não “valer tudo”. Ou – e aqui não menciono nomes, por motivos óbvios – jamais teriam amplificado e criticado declarações muito recentes de uma determinada figura pública a quem foi diagnosticada uma doença muito grave, eventualmente fatal num curto prazo. Os jornalistas terão a obrigação de conhecer tal facto? E, admitindo que o conheçam, isso deve bastar para que se abstenham de veicular as declarações e criticar duramente quem as profere?
Estes debates, pela sua natureza e pelo seu alcance, são intermináveis. Mas devemos precaver-nos contra a utilização demasiado rápida do rótulo “vale tudo” para qualificar o trabalho jornalístico. E há sobretudo que reconhecer este facto: a estação sediada em Carnaxide contribuiu de forma significativa para que os portugueses passassem a estar mais bem informados.
Houve exageros? Sem dúvida. Cometeram-se injustiças? Certamente, algo aliás quase inevitável num período já tão longo. Mas basta analisar como era a informação televisiva antes de 6 de Outubro de 1992 e compará-la com o que ocorreu após esta data para a SIC merecer os parabéns pelo 20º aniversário.


Pedro, concordo. A SIC apresentou-se – e foi – efectivamente como uma nova janela no panorama informativo português. Não sou jornalista, nem nada dessas coisas esquisitas (ehehehe). Assim sendo, o meu testemunho é isento de qualquer tipo de – como se diz agora?, isso – intoxicação.
Há, de facto, uma televisão em Portugal antes e depois do aparecimento da SIC. A actual é bem melhor.
Também tem a ver com a própria evolução dos tempos (sociedade e tecnologia). Se não fosse a SIC teria sido outra estação qualquer. Não quero com isto parecer holista (ou pior, marxista), mas neste caso concreto a SIC é mais um produto do seu tempo do que um grupo sociológico que mudou o seu tempo – ou seja, os ingredientes estavam no meio, não são exógenos. É a minha opinião, apenas.
Tem razão: tudo se relaciona também com a própria evolução dos tempos. Mas em Portugal essa evolução costuma ser muito lenta. Até 1989, tínhamos várias situações de monopólio – incluindo a da televisão pública. Algo que hoje nos parece quase aberrante.
Muito bem, só discordo quando diz que estamos melhor, eu diria estamos menos mal.
A justificação para esse caso é no minímo estranha.
Se Guterres ia lá receber informações sobre a saúde da mulher não tinha nada que ter jornalistas.
Se era uma actividade privada os assessores para isso servem, para falar com os jornalistas e dizer que é uma actividade privada que não tem nada que ver com campanha no caso de ser preciso. E em caso necessário bloquearem o acesso.
Não o fizeram, e que torna a justificação à posteriori estranha ao não reconhecer que Guterres candiato sozinho não existe.
Tem o seu staff, assessores para a imprensa muitas vezes ex-jornalistas que sabem como se faz as coisas e como se protege o candidato.
A justificação como dizem os ingleses smells fishy…ou o nosso prosaico cheira a esturro.
“Menos mal” é uma expressão tão portuguesa… Mas já é de saudar estarmos “menos mal” nessa matéria.
Deve-se usar uma expressão negativa mesmo quando há uma evolução positiva mas não suficiente.
Por exemplo quando se diz de alguém doente “está melhor” sabemos que não está curado. O problema continua.
Mas noutros casos quando se diz “está melhor” pode querer dizer já era bom e ainda ficou melhor.
Certo. Mas nós, em regra, recusamos transmitir aos outros a ideia de que está tudo a correr bem, não vão eles pensar que abdicámos da nacionalidade. Optamos pelo ‘assim-assim’, o ‘mais ou menos’, o ‘vamos andando’. Expressões tão portuguesas…
Sim essa é uma nossa característica . Ao dizermos “assim-assim” “mais ou menos” estamos a fazer por não nos distinguirmos, estamos abdicar da diferença, do contraste. Algo que na nossa cultura é mal visto.
Estamos a nos conformar ao mediano de modo a que a diferença entre interlocutores não seja acentuada.
Pois…
Que a SIC tenha passado a peça na época faz sentido. Com o que não consigo concordar é que anos depois ela continue a ser apresentada como sendo a gaffe que efectivamente não foi.
Por fim o argumento de que Guterres poderia ter anulado as acções da campanha não me parece sério pois isso pressupõe que ele não teria em conta a sua família que naturalmente estranharia essa decisão.
Estamos de acordo no essencial: “Que a SIC tenha passado a peça na época faz sentido.”
Quanto ao resto, Guterres poderia ter mantido as acções de campanha mas nada o obrigava a prestar declarações aos jornalistas: falou porque quis. Nem os jornalistas têm obrigação de conhecer, a cada momento, as questões da vida familiar de cada político ou figura pública.
Mas hoje conhecem-nas e deviam aquelas declarações no contexto. A omissão não é neutra
Helena: interessa-me valorizar o profissionalismo da equipa de reportagem e da editoria política da SIC daquela altura, sem fazer processos de intenção às motivações dos responsáveis actuais da estação. À época – isso sei e sublinho e aplaudo -, a SIC foi o único órgão de informação que pôs no ar uma frase atabalhoada do candidato socialista na campanha eleitoral que os outros media autocensuraram apesar de terem a gravação, talvez por acharem que “parecia mal”. Ou seja, a SIC deu à concorrência – a toda a concorrência – uma lição de jornalismo.
Isso é que conta. Tão exemplar hoje como foi naquela época.