Há rotinas que nos são impostas e rotinas que impomos a nós mesmos e aos que nos são próximos. Marcamos datas no calendário (cada vez mais datas) e definimos os comportamentos adequados a cada uma delas: felicitar, presentear, namorar, evocar pai ou mãe, fazer uma festa, jantar fora, estar com a família. E, invariavelmente, mostrar alegria. É possível que seja uma tentativa, ingénua ou desesperada, para nos assegurarmos da existência de dias alegres. Contudo, a alegria não se conquista programando avisos no telemóvel. A proliferação de datas (felizmente os telemóveis possuem memórias cada vez maiores) e as obrigações associadas a cada uma delas tornam-se cansativas. Com frequência mostramos e exigimos alegria escorraçando um sentimento de inadequação: como pedir alegria a alguém que se sente no final da vida ou que perdeu há pouco tempo um familiar próximo ou que – e nunca nos lembramos disto como um direito – quer apenas estar triste? Mas insistimos porque não vemos outra maneira de agir. Não telefonar ou enviar uma sms a dar os parabéns? Não fazer a festinha? Não comprar o postal? Impensável. E é impensável: as datas programadas são também formas de garantirmos que os outros se lembram de nós. Defraudar-lhes as expectativas significa arriscar que defraudem as nossas. Num jogo de afectos condicionados por actos menores (como praticamente tudo na vida), no aniversário quase toda a gente separa aqueles que telefonaram daqueles que não o fizeram – ainda que tente convencer-se do contrário. Fica-se triste se pouca gente telefonar. Revela uma falha alheia mas, acima de tudo, uma falha própria: fomos incapazes de nos tornarmos suficientemente importantes na vida das outras pessoas para que elas se tenham lembrado e/ou dado ao trabalho de ligar. No fundo, parecemos criar as datas para garantir momentos de alegria mas procurar com avidez formas de as transformar em mergulhos na tristeza; não conseguir viver sem estabelecer regras que nos manietem e ser especialistas em transformar prazeres em obrigações.
(Republicado com alterações.)
