Um Governo que já não existe.


Luís Menezes Leitão,

 

Só os cegos poderão não ver o que esta notícia significa: este Governo já não existe e Passos Coelho já não é Primeiro-Ministro. Duvido, aliás, que alguma vez o tenha sido. Escolheu um governo com uma péssima estrutura, com escolhas de pessoas desastradas, sobre o qual nunca teve o mínimo controle. Os ministros mais contestados continuavam livremente, mesmo depois de a sua situação se ter tornado insustentável. O Primeiro-Ministro exibia constantemente no Parlamento uma confrangedora ignorância sobre os assuntos da governação, como se verificou no episódio do fecho da maternidade Alfredo da Costa. O seu papel resumiu-se por isso unicamente ao anúncio das medidas preparadas por Vítor Gaspar, que ele próprio era incapaz de explicar, como se viu na entrevista à RTP. Cavaco mostrou agora o que pensa de Passos Coelho como Primeiro-Ministro ao convocar Vítor Gaspar para o Conselho de Estado. O CDS pôs-se de fora do Governo ao dizer que não concordava com a TSU. E o próprio PSD, ao propor um renovar do acordo de coligação com o CDS, demonstra que Passos Coelho está acabado como Primeiro-Ministro. Na verdade, como explicar que dois partidos que estão no Governo se encontrem a nível das direcções partidárias para discutir a coligação governamental a não ser pelo reconhecimento que o Primeiro-Ministro não tem autoridade sobre o Governo?

 

A meu ver, o PSD tem rapidamente que reconhecer o fracasso de Passos Coelho como Primeiro-Ministro e promover a sua substituição por outra figura do partido. Não deve dar qualquer margem ao Presidente para condicionar o novo Governo, e muito menos alinhar no disparate de um Governo de iniciativa presidencial. E não me venham falar da legitimidade eleitoral de Passos Coelho por ter ganho as eleições. Quem ganhou as eleições foi o PSD e a última coisa que o partido pode fazer é aceitar a continuação do desastre que tem sido este Governo. O país não é um laboratório para ser sujeito a experiências de um qualquer cientista louco, como o é claramente este disparate da TSU. Aliás, a resposta clara está a ser dada pelos empresários que já dizem que devolverão aos trabalhadores o dinheiro destes que o Governo lhes quer atribuir. Essa é a saudável resposta que as verdadeiras empresas dão a estes teóricos de modelos em Excel, que não fazem a mínima ideia do que é a realidade empresarial.

 

Claro que o PSD pode também não querer ver isto e continuar a ir atrás de Passos Coelho. Este é o resultado ao fim de um ano. Vão ver o que será ao fim de quatro.

10 comentários em “Um Governo que já não existe.”

  1. O aumento dos trabalhadores em sectores equilibrados foi sempre a intenção da mexida na TSU, de ambos os lados. Simplesmente, o Governo não o podia dizer.

    A medida é idiota a vários níveis, mas, neste particular, resultou exactamente como os modelos previam.

    Não percebeu? A Priscila Rego explica: http://adoutaignorancia.blogs.sapo.pt/313464.html

  2. É assustador, mas ao mesmo tempo chega a ser hilariante, a forma como se desmorona a frágil, enfim será que algum dia existiu?, coligação governamental. Diariamente o país assiste ao triste espectáculo de toca e foge entre psd e cds. Poderíamos falar em amadorismo ou falta de saber. Mas também podemos falar da vertigem do poder, temos um líder político, PP, que sabe verdadeiramente o que quer e onde quer ficar. Depois temos um pm, líder de um grande partido que julgava que governar o país seria o mesmo que correr as concelhias todas do psd a cacicar votos para ser eleito presidente desse partido. Hoje estamos a ser governados por incapazes, pessoas que nem uma previsão política de um dia consegue avaliar. Refugiam-se numa pretensa sinceridade em relação ao que desconhecem, pensando que daí lhes chegará o apoio dos cidadãos. Tomam uma atitude subserviente, dobradinhos, e tomam assim os cidadãos por tolos, julgando que desta forma poderão seguir e aplicar as suas políticas de destruição da classe média. Porque é verdadeiramente este o propósito deste PSD, acabar com a classe média, promover uma sociedade em que a assimetria seja bem vincada entre os que detém o poder e os restantes.
    Amanhã vamos assistir a mais uma inovação: O conselho de Estado irá servir para a apresentação de mais uma medida de austeridade. Será que, estando também presente a presidente da AR, se irá assistir a uma votação e posterior promulgação? É que está lá o PR para a promulgar e o pm para ratificar. Com jeito ainda é também públicada em DR.
    Lá irá o Gaspar, o pm hoje por hoje já pouco importa, debitar mais umas quantas alarvidades, sempre num tom pausado, imagem de marca daqueles académicos que julgam o seu saber e conhecimento acima de qualquer um. Levará gráficos, falará em rebalancear, o pm insiste na modulação (os restantes membros do governo hesitam entre modular e modelar).
    E é isto o governo da República.

    1. Este país só será verdadeiramente viavel, quando por um qualquer decreto universal/celestial, obrigar a plêiade de comentadores politico/economicos a formar goverrno… exemplos:

      Miguel S. Tavares/ Costas do Expresso/ Rebelo de Sousa/ Clara F. Alves, etc,etc … são tantos, tantos … que davam para formar 3 governos/ presidentes de autarquias… e, ainda sobravam muitos para vereadores/presidentes de junta!
      Eles sabem tudo.!
      Salvem-nos!

  3. A sua voz é uma voz lúcida. Sempre detestei a falta de pragmatismo, e também de viver uma paz podre. Há gajos que necessitam ser protegidos deles mesmo, e este governo é o exemplo típico. Protejam esta malta e a nação, mandem-nos embora!
    Porém estou em desacordo sobre a vitória do PSD. Quem ganhou foi a raiva do povo que queria ver aquele “corajoso” da Merkel fora da desgovernação. Agora temos os grandes cérebros da Europa, atestados pelo senhor Schauble. Não há dúvida que este último só pára com escadas à frente, porque não as pode subir. Quem é “rasteiro”, para Schauble, é que é competente, para pode passar por cima.

  4. “Essa é a saudável resposta que as verdadeiras empresas dão a estes teóricos de modelos em Excel, que não fazem a mínima ideia do que é a realidade empresarial.”

    Não é realidade empresarial, é pior, não fazem ideia do que é um mercado.
    Um mercado ao fim de anos que pouco muda tende para o equilíbrio, e o mercado há muito já incorporou muitas das distorções que lhe foram atiradas pelos governos: 13, 14 mês, etc embora se tenha sempre de incorporar mudanças nessa asneira chamada salário mínimo. Por isso é que me rio sempre que alguém diz que o governo deu o subsídio de férias/natal. Partir em 12 ou 14 é indiferente.
    As contribuições da segurança social é tudo salário do trabalhador ou que podia ser do trabalhador e é tudo custo da empresa só quem desenhou o sistema e que infelizmente se propagou por toda a sociedade é que julgam que a empresa paga segurança social.
    Ou queriam complicar para arranjar mais uns lugares burocratas para preencher…
    O bolo do salário para um empresário é um bolo X as partes que vai para a segurança social e para o empregado é indiferente em termos de custo financeiro para a empresa.

    E assim mais uma vez se demonstra o mercado é mais forte que os políticos e os seus devaneios.

  5. Ai não que não existe. Vejamos: depois do que se passou na última semana, aí estão eles de novo pela boca dos media com mais novos impostos. Já nem se dão ao trabalho de aparecer e usar a voz de incompetentes que são. A ver vamos se o Zé vai na conversa! Arrogância e autismo não lhes sobra.

    1. Se os portugueses não querem cortes então tem e terão impostos e muitos.

      A este nível é simplesmente um questão aritmética.
      Um país que desde o 25 de Abril se vem endividando cada vez mais (15% de Dívida para 120% mesmo com aumentos sucessivos de impostos) para que os constantes aumentos de impostos não sejam ainda maiores pára de o poder fazer quando a dívida se torna enorme e já não há mais ninguém que lhe empreste. Como acabou o recurso ao crédito restam os impostos e ou os cortes.

  6. Já li na informação de hoje que o Passos Coelho esteve para se demitir. Pois bem, deixo aqui um apelo ao primeiro-ministro (na expectativa que ele me contrarie):

    Excelência, por favor, não se demita. Nós tamos todos com saudadinhas de vosmicês. Nós queremos ser piegas. A nação necessita de cérebros. Se a malta toda já emigrou e vosmicês também os seguem, que será de nózes?

    Nota: o português usado é arcaico e não alinho em modernices.

  7. O melhor Governo de Sempre, umildes, inteligentes, jovens, com vontade de alterarem muitas xulices, não as acertam todas mas quem que as acerta todas?

  8. Mais um comentário. Parece que continuamos com governo. Felizmente que cumprimos a tradição: o parecer.
    Mas lá vou ficando muito feliz: a nossa Cândura, perdão, Cândida parece estar bem posicionada na corrida. As universidades de verão, ou deverão, esclarece(r)m muito.

    http://visao.sapo.pt/candida-almeida-na-calha-para-pgr=f687392

    Não percebo o motivo para se gastar tanto dinheiro em instituições judiciais. Afinal em Portugal não há corrupção. Pode haver perseguição, mas corrupção não.

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