Luiz Goes (1933-2012)
Foi-se uma voz única, singular, irrepetível. Um cantar como não se tinha ouvido nunca. Um registo de barítono inimitável, pelo timbre e pela excelência. Pelo sentimento profundo, nascido das entranhas. Saído dos poros da autoria das suas próprias músicas e também das suas muitas e belíssimas letras.
Não, este não é mais um qualquer requiem. Goes era arrebatador e nunca faltou no prato dos meus cd´s. Ficará para sempre, porque não vou amá-lo pelo tempo breve que dura o voo da ave sobre um campo de neve…
Luiz Goes foi, com José Afonso, o expoente máximo da canção de Coimbra do século XX. Ambos criaram estilos completamente novos rompendo tradições, o que, como sabemos todos, é o caminho certo para as manter vivas.
Hoje, a floresta arde nos subúrbios de Coimbra: olho ao longe e penso que serão, neste horror humano de destruição e perda, as cinzas das suas partituras, dos seus versos, das suas serenatas. E sobretudo das suas emoções, que convertia nas nossas próprias comoções.
Jamais conseguirei explicar a quem não o entenda o encanto indizível do fado de Coimbra. Que de elitista passou a provinciano, de bizarro a patético, mas continua, firme: fado, sempre fado, num género único que faz dele a única canção de cariz local que é cultivada pelos… forasteiros.
Talvez só saiba ouvi-lo quem vive o seu contexto.
Quanto aos outros, nem sabem o que perdem. Mas como chegar a tudo, neste país de melómanos e de intensiva criação musical? Percebo.

“Talvez só saiba ouvi-lo quem vive o seu contexto.”
Pois, Laura.
Eu acho que trata de “universais” portanto… não me parece totalmente acertado, ainda que o ambiente em Coimbra seja particular.
Concordo, Vasco.
Somos é desinteressados da música no seu geral. Porque é que os estrangeiros gostam de fado de Coimbra e não arredam pé (e é só vê-los…)?
Universal, sim.
Acho que tem a ver um pouco com o facto de em Portugal nunca ter havido um fenómeno como nas Ilhas Britânicas – a “folk revival”… A nossa música tradicional, tirando umas poucas excepções, permaneceu nos seus sítios e (mais importante) manteve a sua sonoridade instrumental – enquanto que na “folk revival” a electrização/reformulação permitiu que fosse absorvido pela POP. Não há que lamentar uma coisa e outra, a meu ver. As coisas são como são é há riqueza em ambas. O que há a lamentar é a capacidade dos povos anglo-saxões em preservar a sua identidade, reinventando-a, enquanto que nós gostamos de entregar a nossa ao mofo e acaba por ser rotulada como retrógrada e passadista.
O engraçado é que este género, que sofreu grandes evoluções, matendo-se firme, é um fenómeno de criação com um estigma especial: o sangue da juventude. É constitucional. Até porque o ambiente em que vive tem das maiores taxas de gente nova por m2.
É por isso que me custa ver o fado de Coimbra que se consome por aí, extra-muros (estou-me a lembrar do Sr. Vinho): passadista, velho, antiquado. E que em nada retrata o género – letras, sonoridade – na actualidade.
Pois, não… Eu adoro fado de Lisboa.
Muito bem.
Grazie 🙂
Bela homenagem que aqui deixas ao grande Luís Goes, Laura.
Grande mesmo, Pedro. Ainda bem que me entendes.
Era excelente, tens razão. E fazes bem em lembrar que ele não era só um intérprete, era muito mais completo. Não sou particularmente apaixonada por fado de Coimbra, mas sempre gostei de ouvir Luiz Goes.
Não se pode amar o que não se conhece. E por isso não poderias nunca ser fã.
Mas vais passar a ser…
… quando eu te mandar uma comandita garbosa fazer uma serenata à tua varanda, no silêncio da noite, com um menu escolhido a preceito….. (eu escolho… 🙂
Ena! Uma comandita garbosa? Já gosto! 🙂