A entrevista de Vítor Gaspar.


Luís Menezes Leitão,

 

A entrevista dada por Vítor Gaspar confirmou o que há muito penso sobre a personagem. Trata-se alguém de um enorme radicalismo ideológico, aliado a uma confrangedora falta de sensatez, e com uma muito fraca capacidade de gestão das finanças públicas.

 

O radicalismo ideológico ficou patente quando justificou a transferência da TSU dos trabalhadores para as empresas com o facto de “modernamente as empresas não estarem em antagonismo com os seu trabalhadores”. As empresas, por não estarem em antagonismo com os seus trabalhadores, vão ter um alívio fiscal, enquanto que os trabalhadores vêem os seus magros salários reduzidos.

 

A falta de sensatez resulta do facto de não hesitar em tomar as medidas mais brutais e claramente inconstitucionais, sem pensar minimamente nas consequências. Os funcionários públicos e os pensionistas são sujeitos a cortes de salários sucessivos, uns maquilhados, outros assumidos. Os trabalhadores levam agora também pela medida grande. Segue-se o património das pessoas (já este ano), tendo-se inventado à pressa um imposto de selo. Mas, com a indolência que o caracteriza, Gaspar não foi capaz de tomar uma única medida de redução da despesa. As fundações são peanuts comparadas com as autarquias, com as parcerias público-privadas e com as rendas excessivas no sector da energia. Aliás não deixa de ser comovedor pensar quanto estas empresas irão ser beneficiadas com a transferência da TSU para os seus trabalhadores. E não me venham que é agora que vão começar a fazer a redução de despesa que deveria ter sido feita logo após a tomada de posse.

 

Quanto à sua capacidade de gestão das finanças públicas, estamos conversados. Não precisávamos nem de mais tempo nem de mais dinheiro. O défice tinha sido controlado. O programa de ajustamento estava a correr bem. Não havia evidência de qualquer espiral recessiva. 2013 seria o ano de inversão da tendência, etc., etc., etc. Faz lembrar o Ministro da Propaganda iraquiano que dizia que o Iraque estava a esmagar as tropas americanas.

 

O problema é que este monumental erro de casting na escolha para Ministro é na prática a pessoa mais poderosa do Governo. Passos Coelho limita-se a fazer o que ele diz. Se entra em conflito com os outros Ministros, é sempre a seu favor que Passos Coelho decide. Se decide tomar medidas absurdas, cá está Passos Coelho para as anunciar sem qualquer objecção. E se descobre uma contestação generalizada ao que decidiu, manda distribuir uma cábula para os outros Ministros saberem bem o que devem dizer. Que seja possível passar-se isto num Governo diz tudo sobre o descrédito das nossas instituições.

 

Vítor Gaspar é neste momento um Ministro das Finanças fracassado de um Governo que perdeu toda a legitimidade. A sua manutenção no cargo será desastrosa para o país. Se os partidos da maioria não quiserem ver isto, vão afundar-se para sempre.

13 comentários em “A entrevista de Vítor Gaspar.”

      1. Correcção: o prazo de validade é EM PRINCÍPIO de quatro anos. Veja-se o anterior governo.
        Ou estas declarações de Passos Coelho:
        “Passos Coelho recusa “chantagem da estabilidade”
        “Não podemos aceitar chantagens de estabilidade, uma vez que esta deixa de ser útil se servir para agravar os problemas do país”.
        http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1794570
        De acordo?

  1. Caro Luís:

    Eu como é óbvio respeito a sua opinião mas gostaria de lhe perguntar onde andou entre os anos de 2005 a 2011? Acha que Gaspar é um erro de “casting” mas por mero acaso recordo-lhe de um determinado ministro das finanças que com o defice a 9,6% negava e garantia que o dito era de 5,9% em vésperas de eleiçoes legislativas em 2009. As politicas seguidas pelo regime da trafulhice socrática não são para si responsáveis de nada pelos vistos o estado de banca rota a que o país chegou só aconteceu agora. Pode não apreciar o estilo ou a politica do actual Ministro das Finanças é um direito que lhe assiste mas não pode é branquear o que se passou entre 2005 a 2011. Já agora gostaria também de lhe perguntar qual o motivo de fazer a afirmação de que o “governo perdeu a legitimidade”, que essa realmente não entendi pois tanto quanto se saiba a legitimidade democrática de um governo é dada pelos eleitores no momento em que fazem as suas escolhas e não por qualquer um de nós quando nos apetece só porque não gostamos por vezes de este ou aquele ministro ou politicas. A talho de foice gostaria de saber muito em concreto qual a alternativa que propõe ao actual estado de Portugal pois de chavões e demagogias eu muito sinceramente estou farto. Um abraço.

  2. Concordo, pareceu-me alguém com “complexo de Napoleão”, e muito arrogante, aliás parece que está sempre a dar-nos aulas, como se fossemos todos ignorantes! Já o vi num colóquio a falar inglês e estranhamente fala muito mais depressa e sem o tom “doutoral”, deve ter algum problema com a língua portuguesa.O pior é que esta “politica de terra queimada” vai-nos deixar o país na miséria, apenas com algumas torres intactas (EDPs, e outros) que continuaram a gozar a vida no seu condominio privado!

  3. Vasco.
    O Governo não está cumprir ao programa eleitoral seria razão para ser demitido. Mas claro que nenhum cumpriu. Logo todos o deveriam ser.
    Pior caso por exemplo o Partido Socialista com Sócrates e Teixeira dos Santos até mentiu sobre as finanças publicas na campanha eleitoral com um défice que saltou de 5-6 antes das eleições para 9% depois. Logo essas eleições foram uma fraude e deveriam ter sido anuladas por Cavaco… mas já sabemos como Cavaco é…

    “enorme radicalismo ideológico”

    Esta é gozar como pagode, só poder ser. A Constituição Portuguesa é de um enorme radicalismo ideológico muito maior que o desastrado Gaspar.
    Permite que o Estado nos endivide e imposte sem limite. Sem limite o que os políticos podem fazer à riqueza das pessoas. Não permite a ninguém educar os seus filhos sem ser pela bitola do Governo e dos ideólogos do Kremlin da 5 de Outubro. Extremismo.

    O extremismo do PS demonstra-se bem com os records de endividamento que fez. 80 mil milhões de Euros em 5 anos. E os ultimos 20 mil milhões com apoio do PSD num só ano. Isto é extremismo ideológico. Mas ficou calado.
    Records são coisas extremas e radicais. Records de dívida é extremismo ideológico.

  4. O Sr. Vítor Gaspar pode até ser um excelente técnico, mas não passa disso. Alguém que passou a sua vida inteira num escritório, em frente ao seu pc, sem noção do real para além do seu ficheirinho excel.

  5. Não me parece que o erro de «casting» seja o ministro das finanças. Se o 1º ministro fosse algo mais do que um pseudónimo do Relvas, há muito que tinha havido reformas nas autarquias, algumas delas bem simples.

  6. O Vitinho necessita ser confrontado com os objectivos negociados, com as medidas adulteradas e com os resultados catastróficos.

    O memo de entendimento é um desentendimento total, e o Vitinho não entende nada disto.

    Deixo aqui, para consulta, a prova do adultério. Vejam o que se diz sobre o desconto aos patrões para a SS e como o acordo não previa redução de salários e corte dos subsídios:

    http://economico.sapo.pt/noticias/acordo-nao-preve-reducao-de-salarios-nem-corte-nos-subsidios-de-ferias-e-natal_117217.html

    E agora aqui:
    http://economico.sapo.pt/noticias/conheca-as-34-medidas-da-troika-que-vao-mudar-a-sua-vida_117265.html

    e aqui:

    http://www.dinheirovivo.pt/Empresas/Artigo/CIECO030213.html

    e também aqui:

    http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=546545

    Alguém (António Borges) afirmou que o estado é mau gestor. E eu compreendo a razão de em Portugal, para haver boa gestão (noutros sítios), ser necessário que hajam maus gestores, mesmo muito mauzinhos, mas para a nação.

  7. “Os trabalhadores levam agora também pela medida grande”.
    Engano seu, ou não considera os funcionários públicos trabalhadores?

    “Gaspar não foi capaz de tomar uma única medida de redução da despesa”.
    Apesar de o próprio jornalista da SIC lhe ter chamado a atenção para o incumprimento desta promessa inicial (dois terços no corte da despesa e apenas um terço no aumento da receita), não se coibiu de declarar solenemente o aumento nalguns pontos percentuais da redução da despesa para 70 por cento. Além do mais, aprendeu depressa, como qualquer político que se preze, a mentir descaradamente…

    Quanto ao “radicalismo ideológico”, pelos vistos a ideologia desta gente consiste em baixar salários e cortar prestações sociais como única forma de “reduzir despesas”, ao mesmo tempo que se arranja maneira de cortar nos impostos das maiores empresas e de de se (ven)dar empresas públicas aos privados.

    Ao contrário da ideologia comunista, que nasceu e morreu (diria que apodreceu) no séc. XX, esta ideologia ultraliberal é tão velha como actual e chama-se, como disse Marx, “exploração do homem pelo homem”…

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