Os bem-vistos


escafandro,

Há um par de meses assisti a uma reportagem num noticiário da RTP1. Após vários minutos dedicados a alertas sobre como, para muitas corporações de bombeiros, a situação financeira se encontra à beira da insustentabilidade e a outras tantas queixas acerca da falta de apoio governamental, a reportagem terminava com uma tirada em voz off na qual se dizia que estas questões poderiam colocar em causa a acção dos bombeiros no ataque aos incêndios e no socorro às populações durante o Verão que se iniciava. Chamo-lho reportagem por não saber que outra coisa lhe chamar. A jornalista, do tal canal de serviço público, não questionou a informação, muito menos procurou saber se, no todo ou em parte, as dificuldades de algumas corporações de bombeiros não se devem aos seus próprios actos. Se o dinheiro que, apesar de tudo, receberam, não foi gasto em veículos de utilidade discutível (por exemplo: jipes e pick-ups para o «comando», autocarros para transporte de charangas) ou a fornecer emprego a cidadãos locais. Nada disso interessou à jornalista, à RTP1 e, presumo, à maioria dos telespectadores. Os bombeiros são «bons» e não se questionam.

 

Umas semanas antes ouvira, na rádio (já não me recordo se na TSF, se na Antena 1), outra reportagem: Luís Miguel Cintra avisava, em tom escandalizado, que, sem os apoios do Estado, poderia ter de dispensar pessoas ou mesmo fechar a companhia teatral que dirige. Eu, achando embora que as artes devem receber apoio público (algumas desapareceriam sem ele), estando certo de que Luís Miguel Cintra é um grande actor e encenador, fiquei a pensar nas centenas de milhares de pessoas, nos mais diversos sectores de actividade, correndo o mesmo risco de desemprego, sem voz célebre para exigir subsídios aos restantes cidadãos. Terão as pessoas ligadas às artes um direito especial? E tê-lo-ão todas? Ou apenas as que trabalham com Luís Miguel Cintra?

 

Fast forward até ao mês passado e ao rumor de que a Fundação Paula Rego estaria entre as que o governo pretende encerrar (a propósito: para quando os anúncios, Gaspar?). Embora decorresse Agosto e quase toda a gente estivesse esparramada na praia, seguiu-se um par de dias de comoção. Do coro de vozes ultrajadas salientaram-se as de Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais, garantindo que nenhuma das três fundações de Cascais seria encerrada (é sempre assim: poupem mas noutro lado) e a de António Capucho, ex-presidente da Câmara de Cascais, apelidando a medida de «selvajaria». Eu confesso que gosto da arte de Paula Rego e que não sei se a fundação em causa deve fechar. Mas sei que algumas fundações devem fechar. Através de subsídios e de isenções fiscais, custam demasiado. O problema é que quase todas, mesmo aquelas que se dedicam a estudos políticos vagos e organização de conferências irrelevantes, parecem ter objectivos dignos dos maiores encómios – e, por conseguinte, fechá-las (ou cortar-lhes os benefícios) surge como uma tremenda maldade. Isto aplica-se às fundações como também a entidades operando no sector social. Há um mês e meio, Luís Naves escrevia no Forte Apache, a propósito das declarações do bispo Torgal Ferreira: Estamos a falar de centenas de milhões de euros por ano, bastando somar os orçamentos das centenas de organismos que se dedicam à actividade social e que são dirigidas por sacerdotes. Muitas destas entidades trabalham no fio da navalha e desempenham um papel relevante na nossa sociedade, mas também há ineficiência, resistência ao controlo do dinheiro dos contribuintes, certamente desperdícios. Era disto que falava Torgal Ferreira, naquele tom indignado e retórico: não mexam no nosso dinheirinho. Bingo. Evidentemente, para além das organizações ligadas à igreja, há milhares de outras. Quase todas na mesma situação. Repletas de gente que custa dinheiro ao erário público e pensa estar a fazer um trabalho meritório (muitas vezes está; resta saber a que preço).

 

Poderia arranjar outros casos (no limite, todos aqueles políticos que gastam dinheiro que não têm em actos que a população aprecia poderiam ser aqui incluídos – a Câmara falida de Luís Filipe Menezes, por exemplo, oferece manuais escolares a todas as crianças do ensino básico residentes no concelho) mas julgo que estes são suficientes. Até porque escrever isto demorou mais do que eu previa e necessito de dez minutos (desde Sócrates, bastam) para ir ao Portal da Empresa criar uma companhia teatral que me garanta rendimentos no futuro.

11 comentários em “Os bem-vistos”

  1. …mas o post era debater qual “ponto”? Falar da nossa (dos postugueses) falta de rigor e planeamento? Do nosso (idem) individualismo? Para defender o governo? Para atacar D. Januário? Do mau jornalismo? Desculpe, mas penso que não se percebe…

    1. Todas as anteriores?

      Mais a sério: da tendência que temos para achar que o governo deve subsidiar tudo e mais alguma coisa, e em especial aquelas coisas que parecem justas e boazinhas, sem questionar se o são efectivamente ou se os efeitos negativos de o fazer não acabam por se sobrepor aos ganhos – i.e., se a longo prazo, por excesso de despesa pública, não fica toda a gente sem um par de subsídios.

  2. “necessito de dez minutos para ir ao Portal da Empresa criar uma companhia teatral que me garanta rendimentos no futuro.” Totó.

    E sobre os submarinos, nada? para quantas companhias de teatro, livros escolares, apoio a bombeiros é que dava?

    Ganha vergonha nessa cara!

    1. Totó! Do que me foste lembrar! Em miúdo, gostava bastante dos filmes dele. Se a RTP ainda os transmitisse, talvez até pagasse a taxa do audiovisual sem grandes reservas…

      Os submarinos não são bem-vistos.

      Até corei.

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