«A etimologia é configuradora de memória e cultura. Línguas que mantêm na escrita a memória etimológica tornam-se mais aptas à elaboração e construção do pensamento. (…) Como professor, concluo ser falso que a simplificação ortográfica facilite a aprendizagem – vejam-se os de língua materna inglesa ou francesa. Pelo contrário: uma das estratégias mais profícuas para promover a aquisição de vocabulário, pela relacionação, é a formação de cognatismos, ou famílias de palavras. Os meus alunos (de línguas maternas francófona ou germanófona) apropriam-se melhor se virem acção, actor, agente, actividade, activo, actuação, agenda, agir. Estas consoantes não são mudas no Francês, directamente se estabelecendo a relação: action, acteur, agent, activité, actif, actuation, agenda, agir. (…)
Ou como poderão os alunos reconhecer e perceber a sensatez de uma relação entre Egito (uma mentira, pois o ‘p’ não raro é pronunciado em Portugal), Egípcios e egiptologia (formas que o AO90 mantém)? Outro exemplo: optimus. Do radical, havia igualmente em Latim os optimates, que designava a aristocracia. E ainda opulentia, opulentus, opiparus, entre outros. Os últimos exemplos dados fazem perceber que a acepção para a qual apontava o radical era de abundância de recursos. (…) As línguas e as suas expressões utilizam estes mecanismos para criar e relacionar palavras, por vezes baseados na simples paronímia, u.g. o português ferrolho, do Latino ueruculum, com influência de ferro, pois afinal esse instrumento é feito deste metal (cf. Fr. verrou). A simplificação destrói laços de família.»
Rui Miguel Ventura Duarte, no Público

Pedro, isto tem link? Qual a data de publicação?
O artigo saiu hoje no ‘Público’. Como é costume neste jornal, o espaço de opinião em linha está reservado a assinantes.
Excelente referência, Pedro. Mas receio que os argumentos de Rui Miguel Ventura Duarte sejam demasiado pertinentes para os defensores do AO.
(sendo o tema a etimologia, queres apostar que até ao final do dia aparece aqui um troll a clamar pelo acordo de 1911, e que queremos todos voltar a escrever “pharmacia”?)
Seja, então. Escrevamos “pharmacia “, se esse for o caminho para acabar de vez com a Aberração Ortográfica. Não seria o regresso de um erro, seria a adopção defensiva de uma fórmula antiga, mas que, por respeitar o étimo, não poderia ser tida por errada. Ao contrário do disparate sem nexo, coerência ou necessidade que é o AO.
Quanto aos trolls e à sua recorrente invocação do acordo de 1911, não nos esqueçamos de duas coisas: um eventual erro, o AO de 1911, não legitima o clamoroso erro do AO90 ; a grafia pós-1911 é a grafia em que cresci e aprendi. É a minha grafia. É apenas natural que a queira defender quando atacada por uma outra que nada traz de bondosamente inovador. A abandoná-la, então que seja pela anterior, ainda mais próxima do étimo e por isso legitimada.
O que aliás apetece crescentemente fazer. E quanto mais oficial o documento em que se plasme, melhor!
Costa
O grande valor a defender e para o qual chama a atenção o Prof. Doutor António Emiliano é o da estabilidade da ortografia.
A estabilização de uma ortografia é um bem em si – e sinal de civilização: quanto maior o índice de literacia, mais estabilizada está a ortografia.
A existência de cognatismos, com as vantagens que lhe são apontadas, apenas é possível numa ortografia estável.
Já agora, ph é “antigo” apenas em Portugal e noutros países com iguais ou superiores índices de analfabetismo. É usado no inglês, no francês e no alemão… physics, philosophia…
Precisamente: iguais ou superiores índices e analfabetismo.
Ou de devastadora incultura, mesmo entre os alfabetizados. E de penosíssima falta de amor-próprio, coisa típica de um povo para quem o patriotismo se revela (e extingue) no fervor por uma “selecção” que no caso da de futebol nem carece dessa precisão; a coisa é presumida. E se exterioriza pela bandeira nacional exibida na varanda a pretexto do pontapé na bola – mesmo que colocada invertida… – e nada mais.
Um povo que não lê – a não ser os três jornais diários (!) de futebol – e as revistas de (perdoem-me a palavra) “sopeiras”. Donde, um povo para quem a única visão que interessa do idioma que falam é a funcional: entende-se o que se diz? Óptimo! Escrever não é problema, porque não se pratica. E para uma comunicação apenas rudimentar, uma fala ou escrita embrutecida serve muito bem.
É sempre é “pogresso”, numa país onde o antigo é “velho” (donde a abater, demolir, substituir).
E é por isso que bem temo que o AO paulatinamente vingue. É o que este povo merece.
Costa
Estou para saber quando a nossa guerra ao absurdo AO90 está para dar frutos, Pedro. Espero que nós, os que nos não cansamos de bater no ceguinho, nos não cansemos de bater no ceguinho.
Eu também não me canso, Joaquim. E, portanto, já somos dois. Dois mil. Dois milhões.
Para ser consequente, o autor do artigo deveria pedir o regresso da pharmácia, como muito bem disse um comentador (commentador) acima. E quem diz pharmácia, diz phyloxera, e diphtongo, que somos todos christãos, não somos phariseus, e as pharynges não são menos que os phosphoros.
O certo é que as “actrizes” não devem ter mais direito àquele c mudo que os contractos, nem as aflicções, para já não falar nas conjuncturas e nas occasiões.
E os pp mudos não são menos que os cc mudos!
Vai daí, é começar a applicá-los para que a escripta seja mesmo etymológica; nada de nos ficamos pelas apparências próprias de arrotadores de pechisbeque mudo.
E as condemnações? O que é que as condemnações de tão damnoso e de tão mudo que o tactear não tem? É só por serem mm? Esta conversa dá panno para mangas, e não ficaremos innocentes no assumpto se não re-habilitarmos também os nn mudos.
Matemos a etymologia simplificada! Mas matemos como nunca se matou antes em Portugal porque matar vem de “mactare” e nem o Camillo ousou escrever tal coisa como deve ser. A partir de agora tem de se matar a sério, tem de se mactar.
De resto, é natural que com o AO os portugueses deixem de perceber que egipcios são do Egito; afinal, quem sabe que os cipriotas são os naturais de Chipre? E quem sabia que os vimaranenses são os naturais de Guimarães?
Mas os problemas com a orthographia não afeCtam só os portugueses, ao contrário do que o articulista imagina. Os ingleses teem imensa difficuldade em perceber o verdadeiro significado da palavra ‘fantastic’ uma vez que escrevem a coisa sem o ph do étymo grego; assim como os franceses têm difficuldade em perceber a palavea ‘projet’ porque lhe falta o c mudo latino. E que dizer da difficuldade dos alemães em perceber plenamente o significado de direcktor’, assim com o k no lugar do c etymológico, porque aquele k é phonetico, não é etymológico, ao contrário do que alguns julgam saber.
E estes são os mais felizardos. Pior estão os finlandeses, os suecos, os noruegueses, os dinamarqueses, os checos, os espanhóis, todos com uma ortografia horrivelmente simplificada ainda que um pouco menos que os italianos. A trabalheira que o Verdi teve para escrever aquelas óperas. E se o DaVinci não escrevesse às avessas e em orthographia phonética, quem sabe se não teria sido uma mente brilhante. Coitados.
Mas o melhor é não continuar a augmentar as desgraças, ou então deixarmo-nos de exaggeros que ainda exhalamos o último suspiro antes de tempo.
Por isso, é boa ideia seguir o bom conselho de António Emiliano, o mais lúcido dos opositores ao AO, que acha que vcs são todos uns grandessímos nabos e se põem a jeito para serem ridicularizados quando veem com a conversa da importância do pechisbeque etimológico em ortografias simplificadas, como a portuguesa.
Ora, ide ler, ide.
Alto e para o baile!
Pergunto:
grandessímos nabos ou grandessisimos ou grandíissimos nabos?.
Nota:
Quem pergunta quer saber.
Penso que a questão tem mais a ver com gramática e como por certo o baile parou aproveitei para aprender.
Obrigado
P.S. acho o AO uma tristeza. Mas isto sou eu a dizer
O superlativo absoluto sintético de “grande” é “enorme”.
Cumpts.
@ECarvalho
Tomo boa nota do problema que encontrou.
Assim como tomo boa nota que encontrou um problema de teclas, e não um problema substantivo.
Quanto ao baile, meu caro, desculpe mas esse não para, continua; é só esperar que eles se ponham outra vez a jeito.
Cá temos o troll de que alguém falava. Parece electrizado. Só que ao contrário do dos eléctricos, que apontava para cima, este aponta para baixo como o dos burros. E pelo jorro que lhe saíu , mijou-se , o pobrezinho.
Quem quiser ler o artigo completo de Rui Duarte veja a página da I.L.C . contra o «coiso» cacográfico.
Cumpts.
Agradeço-lhe a hiperligação, que juntarei aos excertos do textos que escolhi.
@ Bic Laranja,
A sua conversa ordinária não espanta porque quando se esmaga um ordinarão é previsível que dele esguichem as ordinarices próprias da gentuça reles.
Considero-o esmagado.
Pf!
Raios me partam, que eu só não acerto no Euromilhões.
O Prof. António Emiliano apenas quis dizer que a estabilidade – que desapareceria completamente com o aborto – é, em sim, um valor importantíssimo a defender. E que estando a ortografia do português europeu estabilizada tudo o que vier perturbar tal estado de coisas merece ser combatido.
Por isso, aquele Professor é um firme opositor ao denominado “acordo”.
Caro c, desengane-se; ora leia:
“A matriz ortográfica greco-latina há muito que foi desfigurada por decreto […] invocar a dita matriz greco-latina é argumento que não vale um caracol na presente controvérsia e só serve para alimentar a imagem negativa que os acordistas gostam de dar a quem lhes faz frente”
Quando ao mais, é verdade que Emiliano usa o argumento da preservação da estabilidade ortográfica contra o AO (esse, sim, um argumento válido e “duro” de combater)
É por isso normal de aqui a, digamos, 3 ou 4 anos, quem se adota agora este argumento esteja depois a defender precisamente a norma que resulta do AO90.
Caro P.Porto,
Sou o autor do artigo. Li atentamente o seu comentário, que agradeço. E redijo, eu próprio, um comentário ao que escreveu.
Em primeiro lugar, “Mas os problemas com a orthographia não afeCtam só os portugueses, ao contrário do que o articulista imagina.” Não é verdade. Como pode presumir uma coisa a partir do que está ausente do que escrevi? Conheço o suficiente de outras línguas para estar ao par disso. Conheço o caso do ing. “fantastic”, e do fr. “objet” / “objectif”, “sujet” / “subjectif”, “projet”.
Simplesmente, não era meu propósito, mesmo por questões de espaço, alongar-me com a multiplicação de exemplos… Em rigor, o P.Porto só pode escrever: “Mas os problemas com a orthographia não afeCtam só os portugueses, são maiores do que o que o articulista imagina.” Até porque não pode imaginar o que eu sei ou não sei, imagino ou não imagino. Cabe este reparo.
O que escreveu acerca da questão etimológica, e dos problemas que coloca, como pode verificar pelo preâmbulo, não está ausente da minha reflexão. O enunciado dos problemas está lá, bem como da delimitação do assunto, das hipóteses e do propósito e do método a seguir. É o que se faz e trabalho científico, e isso foi feito. Por isso dispenso-me de voltar à grafia pré-1911, como sugere, pelo que não cometi nenhuma incongruência nem de tal é possível acusar-me. O propósito está explícito, claramente: constituir uma reserva que destrua de vez o que está porventura já de algum modo combalido.
As abordagens de António Emiliano são uma referência na questão. Não descarto isso. Mas não são exclusivas, não são as únicas. Não há abordagens exclusivas em ciência, muito menos nas filológicas. São complementares. Não sou estritamente da mesma área de António Emiliano, como vê. Não sou seu discípulo, apesar de prestar atenção ao que escreve. Como classicista, recuso-me, como expliquei, a não fazer apelo à etimologia e à lexicogénese. Já José Gil faz uma outra abordagem: filosófica, cultural. E quanto maior e mais importante é a questão, tanto mais passível de diversidade de abordagens pode ser… E há muitos e variados motivos para a rejeição do AO.
Partilho do que diz sobre os problemas da etimologia, mas como há-de ver… ficou claro que o ponto de partida necessário é o estado da grafia como ela se acha: a grafia que temos, a de 1945, e não o etimologismo “tout court”. Há quem não ame a reforma de 1973, nem a de 1945m nem a de 1911. Mas é esta a base estável que temos (de acordo com o princípio da estabilidade), e pela qual devemos pugnar.
Cos os meus melhores cumprimentos
Rui M. V. Duarte
Caro R.Duarte
Com base no que expõe acima e não escreveu por contingências do formato “artigo de jornal”, a minha perspetiva sobre o assunto tem mais coincidências com a sua do que eu supunha. Quando ao meu (ab)uso da ironia, são contingências formato “tiroteio na caixa de comentários” que estou certo o Rui Duarte vai saber relativizar.
Creio que posso resumir a nossa divergência aos dois pontos seguintes.
1 – Em absoluta oposição à sua opinião, a norma ortográfica de 1945 não pode ser tomada como a cristalização da ortografia; pelo contrário, ela pode e deve ser revista pelos mesmos motivos que foram revistas as normas anteriores, umas por processos mais formais que outros, como sabemos.
Sendo que esta revisão tem como ponto fulcral a eliminação das mudas, em minha opinião existem dois motivos que tornam o AO90 uma necessidade que chega com décadas de atraso.
Em primeiro lugar, a eliminação das mudas quase uniformiza as ortografias portuguesa e brasileira, pelo que o Português deixa de ser a única Língua internacional (exceto o inglês, com o qual nenhuma outra língua internacional compete) que estava na posição vexatória de não ter uma ortografia uniformizada.
Em segundo lugar, as mudas que, finalmente, são eliminadas, correspondiam a um sistema diacrítico pleno de falhas criado artificialmente em 1911 e inédito até então na(s) ortografia(s) portuguesa(s). Repare bem que pela RO1911 foram eliminadas todas as mudas EXCETO aquelas que precediam átonas abertas; ora, isto não foi a constatação de uma correlação, foi, isso sim, a criação de uma correlação que não existia, que nunca tinha existido, e que não fazia falta ao tempo como não faz falta hoje. Em breve aparecerá uma exposição mais desenvolvida sobre o assunto.
2 – Discordo profundamente de si no que respeita à questão da necessidade da manutenção de mudas por razões de inteligibilidade da Língua; e agora cito o que escrevi noutro lugar:
“
como é possível Rui Duarte considerar que as consoantes mudas que sobraram da razia simplificadora de 1911 são componentes imprescindíveis ao bom entendimento da Língua e, simultaneamente, considerar que o grosso das consoantes mudas abandonadas e esquecidas desde há cem anos não fazem falta à mesmíssima inteligibilidade?
Se Rui Duarte acha que os portugueses agora não sabem o que é uma “atriz” porque deixaram de escrever “aCtriz”, como é possível ele achar que os portugueses entendem corretamente o que são “contratos”, ou “aflições” ou “conjunturas”, ou “ocasiões” uma vez que não escrevem “contraCtos”, “afliCções”, “conjunCturas” e “oCcasiões”, como se fazia há cem anos?
“
Um extra:
Foi pena que o AO não tivesse ido mais longe; foi pena que não tivesse atendido à necessidade de adaptar a ortografia a um mundo de digital inclusive pela recuperação de aspetos identitários do Português que foram perdidos, alguns deles bem antes de 1911.
É que se a RO1911 veio simplificar o que era desnecessariamente complicado, infelizmente veio complicar o que era simples.
Por esse motivo, podemos encontrar na ortografia anterior à RO1911 usos que, a serem recuperados, permitiriam poupar demasiados toques em teclas para colocar diacríticos que assinalam a regra em lugar de assinalar a exceção, assim como recuperar o uso de ‘z’ que, por força da castelhanização de 1911, passaram a ‘s’ e que, também eles, serviriam para eliminar dúvidas e poupar o uso de diacríticos e toques extra no teclado.
Somos demasiado conservadores quando se trata de guardar pechisbeque, e demasiado poltrões quando de trata de mudar para melhor.
Agradeço-lhe ter vindo aqui, Rui Miguel Ventura Duarte. E aproveito para lhe dar pessoalmente os parabéns pelo seu excelente artigo, que desmonta com eficácia as falácias deste “acordo” tão nefasto quanto incompetente.