Memória de Jorge e Zélia


Pedro Correia,

 

“Em três palácios de governo relembrei que sou apenas um romancista de putas e de vagabundos.”

Jorge Amado, Navegação de Cabotagem (1992)

 

Com o atrevimento dos meus 18 anos, postei-me um dia à entrada do Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade, na esperança de poder entrevistar Jorge Amado para um semanário regional de que era colaborador nas horas vagas dos meus estudos. Bastara-me ler num jornal a notícia de que o grande escritor brasileiro se encontrava novamente entre nós para zarpar rumo ao hotel, onde o casal Amado sempre se instalava nas suas frequentes deslocações a Lisboa.

Os meus esforços foram recompensados. Ao fim de um par de horas sentado no vasto átrio central do Tivoli, vi surgir da rua o autor de São Jorge dos Ilhéus. Trazia um boné de marinheiro e uma camisa estampada, de cores garridas. A seu lado, a mulher, Zélia, companheira inseparável das suas deambulações em redor do globo, de sorriso permanente no rosto.

Dirigi-me de imediato a eles, apresentando-me e confessando-lhes a intenção de marcar dia e hora para uma entrevista. Para meu espanto, a conversa desenrolou-se logo ali, num dos sofás do piso térreo do hotel. Durante mais de meia hora, o consagrado autor brasileiro respondeu a todas as perguntas que entendi fazer-lhe. Com uma abertura e uma bonomia que seriam impensáveis na esmagadora maioria dos escritores portugueses, muito cientes da sua enfadonha importância.

Por vezes, a risonha Zélia intrometia-se na conversa e completava algumas das respostas do marido. Transmitiam a imagem de um casal fadado com o raro dom da harmonia conjugal. Nascidos um para o outro, como reza o lugar-comum. Mais tarde, ao ler os livros de memórias de ambos, confirmaria a impressão que deles retive nesse início da década de 80, quando Jorge Amado gozava de uma popularidade ímpar em Portugal. Escassos três anos antes, a telenovela Gabriela – extraída de um dos seus principais romances, Gabriela, Cravo e Canela – fora campeã absoluta de audiências entre nós, a ponto de fazer adiar sessões parlamentares e até reuniões do Conselho de Ministros. O País inteiro vibrava com os encontros e desencontros do Doutor Mundinho, do Coronel Ramiro, de Jerusa e Malvina, de seu Nacib e da fogosa Gabriela, interpretada por Sónia Braga em início de carreira.

 

Dessa conversa com Jorge Amado trouxe um autógrafo de valor inestimável num dos seus livros que já povoavam a minha biblioteca, ainda muito incipiente, um artigo que rapidamente redigi para o jornal de que era colaborador e uma recordação inesquecível. Aquele homem habituado a dialogar com os grandes do mundo, que fora amigo de Neruda e Picasso, concedera mais de meia hora do seu tempo a um garoto que se aproximara dele para uma entrevista sem marcação prévia.

Um ano depois, já eu era jornalista profissional num semanário de âmbito nacional, a cena repetiu-se. Voltei a abordar o casal Amado no mesmo local e voltámos a conversar, desta vez ainda com mais tempo. Da conversa nasceu uma extensa entrevista de duas páginas que teve natural destaque no jornal. Vim de lá com outro livro autografado e a convicção reforçada de que os melhores escritores não têm necessariamente de assumir pose intelectual. O Jorge Amado que eu via à minha frente  tinha a mesma desarmante simplicidade que transparecia dos seus livros – que serão sempre da minha vida, que serão sempre das vidas de milhões de seres humanos, incluindo muitos que nunca foram ao Brasil e não sabem sequer uma palavra do nosso idioma. Livros que o autor de Tenda dos Milagres começou a escrever ainda muito jovem, praticamente ainda adolescente, mas que constituem um fabuloso fresco das classes humildes do grande país irmão – e do estado da Baía em particular. Livros como Jubiabá, Mar Morto e Capitães da Areia, redigidos na década de 30 numa prosa inimitável, prosa que se confunde com poesia, cheia dos sons da rua, num português cadenciado e musical, muito marcado por múltiplos sotaques, romances onde a vida pulsa, tão vibrantes hoje como no momento em que foram escritos. 

 

Muitos anos depois desse meu encontro inicial com Jorge Amado em Lisboa, redescobri a mesma personalidade franca, acolhedora e despretensiosa nas páginas de um notável livro de memórias, intitulado Navegação de Cabotagem. Sem traço de soberba. “Em três palácios de governo relembrei que sou apenas um romancista de putas e de vagabundos”, assinalava ele, fiel ao seu estilo de sempre.

Neste dia em que se assinala o centenário do seu nascimento, recordo com particular emoção as personagens de Jorge Amado nos livros que constituem o mais precioso legado deste escritor que devia ter sido distinguido com o Nobel da Literatura. O António Balduíno, de Jubiabá. Pedro Bala, Gato e Volta-Seca, de Capitães da Areia. O Guma, desse maravilhoso e encantatório Mar Morto. A inesquecível Gabriela. A Tieta do Agreste. A Dona Flor, que tinha dois maridos.

Personagens locais e regionais. Mas também personagens universais. Graças à arte irrepetível de Jorge Amado, aquele senhor de cabelos brancos, bigode e camisa colorida que um dia acedeu em conversar com um jornalista em início de carreira, de um obscuro periódico regional, como se estivesse a dialogar com um veterano profissional do Le Monde ou do New York Times.

Parece que foi há dois dias e já se passaram trinta anos. Zélia e Jorge: brasileiros de gema, portugueses do coração, cidadãos do mundo. Um casal feliz. Jamais esquecerei as gargalhadas de ambos, à entrada do Tivoli: sinto-as reverberar pela eternidade.

20 comentários em “Memória de Jorge e Zélia”

  1. Horrorizado com as ideologias tanto da direita quanto da esquerda, Jorge Amado, deixa o PCB em 1955 após cumprir a sua última tarefa para pensar, como ele mesmo diz, por sua própria cabeça. Estava cansado de ouvir: “Você tem que fazer isso!”. A decisão de sair do partido coincidiu com a sua clareza de ideias a respeito da democracia.

    “A esquerda em geral não é democrata. Posso dizer porque fui comunista. Lutávamos confessadamente pela ditadura do proletariado, que resultou em ditaduras pessoais e violentas. Democracia não tem nada a ver com ideologia. Ou se é ou não é”.

    1. Jorge Amado começou a distanciar-se da ideologia comunista durante os anos de exílio nos países do ‘socialismo real’, nomeadamente na Checoslováquia. Os processos estalinistas desencadeados em 1951 na Hungria contra alguns dos seus amigos, nomeadamente Rajk, Slansky e Artur London, contribuíram para abalar a crença de Jorge Amado no Partido Comunista. As memórias de Zélia Gattai referentes a esse período, no livro ‘Jardim de Inverno’, são férteis em revelações a esse nível. Já na década de 90, o próprio escritor recordaria esse tempo e o seu distanciamento face aos comunistas desta forma: «Fui stalinista de conduta irreprochável, subchefe da seita, se não bispo ao menos monsenhor, descobri o erro, custou trabalho e sofrimento, deixei a missa em meio, saí de mansinho.»

  2. Pedro, obrigada pelo texto. O tamanho dos homens mede-se pelas marcas que deixam no mundo, nas obras e sobretudo, nas pessoas.

    E as Zélias são assim. Quem sobrevive ao fardo do nome, aprende a (vi)ver a vida sempre pela positiva.

    1. Gostei muito de conhecer o casal, Zélia. Fiquei com a firme convicção de que formavam um par muito feliz. Já não eram jovens, longe disso, mas olhavam-se como se fossem namorados. Mais tarde, quando li as memórias da Zélia, reforcei essa convicção. Cada livro dela era uma declaração de amor para ele.

      (registei essa frase: “as Zélias são assim”)

  3. Belas memórias, Pedro. Que sorte. Gostava de tê-lo conhecido pessoalmente, mas nunca aconteceu. Acho que li quase tudo o que ele escreveu, e é ele o principal responsável por eu gostar tanto do Brasil.

    1. Foi um privilégio, Ana. Tive a sorte de conhecer, no início da minha carreira profissional, figuras como Jorge Amado, Arrabal, Saramago, Alvin Toffler, Ruy Cinatti, António Quadros, Dinis Machado, Julião Sarmento, Thomaz de Mello, Joaquim Benite, Carlos do Carmo, Baptista-Bastos, Adolfo Simões Muller, Jorge Brum do Canto, António Vitorino d’ Almeida, Fernando Lopes, António-Pedro Vasconcelos. Gente da cultura, de Portugal e não só, que me ajudou a abrir horizontes e me estimulou intelectualmente.
      Hei-de falar de várias dessas personalidades aqui.

    1. Ainda bem, caro Luís. A memória deste meu primeiro encontro com Jorge Amado permanece muito vívida, muito impressiva. A partir de certa altura temos não só o direito mas também o dever de partilhar estas memórias com os leitores. Outro escritor que me marcou foi o Romeu Correia, da ‘nossa’ Almada. Falarei também dele aqui um dia destes.

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