Os decadentistas não reconheciam qualquer legitimidade à ideia de futuro. E arrastavam-se pelo presente contra a sua própria vontade. Mas encontravam todo o conforto no passado. A felicidade era a memória e o sentimento mais apreciado era a nostalgia. O decadentista não investia e gastava o menos possível no presente. Bastava-lhe viver dos rendimentos.
Depois, vieram os modernos e deram-nos cabo desse passado idealizado. A tradição foi desacreditada. Escorraçaram Deus, descendente directo do pensamento mitológico dos antigos, e a religião foi substituída pela ciência. O lugar da nostalgia foi substituído pela esperança. O Homem Moderno já não vivia dos rendimentos e, mais do que consumir, desejava poupar e investir. Isto é, preparava-se para gozar (n)o futuro.
Entretanto, as tragédias do século XX rebentaram com a ideia de que todo o futuro é fabuloso. Na verdade, em certas circunstâncias, o futuro pode ser bem pior do que o passado. Abalado nas suas convicções, o Homem reposicionou-se na sua relação com as dimensões temporais e reinterpretou a vida a partir de duas ideias fundamentais: a) é preciso evitar erros que estraguem o futuro; b) apesar de tudo, e como o futuro é menos certo do que aquilo que se imaginava, é boa ideia valorizarmos o presente mais do que o passado ou o futuro. Nasceu assim o Homem Pós-Moderno. Numa divisão de tarefas tácita e utilitária ficou subentendido que a de preservar o futuro seria cometida, sobretudo, aos políticos e às instituições. E que os indivíduos se ocupariam de aproveitar o presente.
Se virmos bem, isto faz muito sentido. Viver o agora, com dedicação total, pressupõe alguma confiança no futuro. Mas, se individualmente estamos demasiado absorvidos com o presente, precisamos de alguém com tempo para nos olhar pelo futuro. Para termos a certeza de que ainda está lá quando o presente acabar. E que vai ser bom. E como os políticos a as instituições nos asseguraram que cumpririam tal missão, isto é, que promoveriam a paz através de organizações supranacionais e a igualdade, a sustentabilidade, as oportunidades, o desenvolvimento, as escolas, os hospitais , as férias pagas, as reformas e as auto-estradas, passámos, inclusivamente, a antecipar o melhor do futuro recorrendo ao crédito.
Agora, acordámos e constatámos que nos falharam. Não queremos voltar ao passado, porque passámos boa parte das nossas vidas, e com boas razões, a renegar Deus, a religião e a tradição. Consumimos no presente o melhor da ilusão que o futuro nos podia dar. A ciência é maravilhosa, mas não é capaz de impedir a guerra e o sofrimento. O futuro não está assegurado. Se não queremos o passado, se o futuro pode ser pior do que o presente e se, nessa medida, o presente é contaminado pela angústia do futuro, em que raio de tempo histórico podemos viver, encontrar paz e felicidade?

consulto este blog à muito pouco tempo mas, para já este seu artigo é o mais profundo que li, aqui postado.
Voçe aborda um assunto base, que deve ser mais estudado e discutido com afinco. Não há efeito prático na deambulação, ou até em certos casos, no pavonear vastos conhecimentos de índole superficial, compreendo que são mais apetecíveis.
Mas você toca nos valores Humanos que cada vez são mais raros, parece até que estão em extinção. É precisamente na falta deles que reside causa os nossos males.
Muito obrigado pelas suas palavras e reflexões, PA.
Belo post Rui Rocha.
Não é em vão que há quem chame a este mundo “um vale de lágrimas”, e a felicidade tem de conquistar-se todos os dias, dependendo das expectativas de cada um.
Quanto à paz, só conheço uma possivel: a de espírito.
Boa pistas, Alexandre.
Grande malha, o Rui rematou como um grande “posteiro” (sic)… eh eh!
A ideia de construir o futuro pintando um passado, era ideia de jerico, e não de Jericó. Abdicar dos dois, promovendo o presente, torna os indivíduos marionetas inconsequentes. Como já aqui falámos, noutro post, confundir a alegria momentânea com felicidade é um erro que leva a uma incompletude permanente.
Para o povo se sentir bem, precisa de não ter ocultações antigas que ameacem perspectivas futuras.
Ou seja, na minha opinião, e julgo ser óbvio, que o passado tem que ser aberto, por mais tenebroso que seja, sob pena de estarmos a fazer mais buracos na panela para a consertar. Uso a imagem de Gilray: ozinheiro-e-o-sanduiche.html
http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/07/o-c
Se a tecnologia ajudou a suprimir o trabalho, as opções políticas transformaram isso na supressão de emprego, na consequente crise de procura e no caos económico.
Essas opções parecem bizarras porque assentam numa noção do passado diferente da que é divulgada. O povo só vê parte da informação, o resto vai ficando secreto, por décadas, por séculos, e por aí além.
Por isso, têm que se integrar os três tempos, o passado serve de orientação no presente para construir as perspectivas futuras. Deixar isso para as “elites” decisoras, só funcionou enquanto os fantasmas do passado não voltaram para ensombrar o futuro.
Excelente resumo o seu último parágrafo, daMaia.
Rui, elogiá-lo seria bem pouco para definir a qualidade deste seu post. O Rui aborda uma série de pontos, que são subjacentes à antropologia cultural, que merecem uma reflexão séria e profunda: individual e colectiva.
Vários aspectos atravessam este seu texto:
– a morte de Deus;
– a teoria da razão pura (com desvios à razão emocional e útil, ou seja, aquilo que nos permite ir além do que é visível);
– e, de certa forma, a infantilidade sem infância com que nos confiamos aos caprichos da nossa própria natureza (refiro-me aquela outra que convém combater).
Em qualquer destes vectores existem vertentes que convém decifrar.
Deus:
Há um Deus histórico, Aquele que se renegou por razões meramente humanas (mediátas e imediatas), e um Deus na história. O que aí se encontra (no seu texto) é o bezerro de ouro, a idolatria no deserto. O Deus da história morre na idolatria e, ainda que seja um Deus vivo, deixou de fazer história. Contudo, compreendo a sua afirmação sobre as boas razões para “renegar Deus, a religião e as tradições”. Sim, compreendo, porque a teologia tem como tarefa ajudar o homem, que busca um sentido para a existência, falando-lhe de Deus de maneira plena de sentido. Assim não aconteceu e ainda não acontece como desejaríamos. Precisamente porque, comodamente, confiámos a tarefa da busca de Deus a outros e não a nós mesmos. Como esse Deus nem sempre veio da melhor forma aí estava o pretexto, por “nossa” preguiça, para o renegar.
Todavia temos um outro carácter histórico, o da religião ou religiosidade. O instinto religioso do homem não é histórico (o Rui, sem o completar, abordou este aspecto ao afirmar “Escorraçaram Deus, descendente directo do pensamento mitológico dos antigos, e a religião foi substituída pela ciência”), é o desenvolvimento desse instinto que constitui um excelente registo histórico. Quero com isto dizer que o mito só é hoje, não o era no passado. Assim sendo, olhando para o contexto histórico, estamos perante uma e somente uma visão de Deus, mas com diferentes interpretações e interpelações. A coisa de Deus não poderá mais ser vista e vivida à luz do dogma, mas da experiência.
A teoria da razão pura:
Com Kant surge a teoria da razão pura, e esta, no que respeita ao cristianismo, termina no túmulo, mas não consegue ir para além deste. É exactamente o mesmo que olhar para a Cruz e não ver para além dela.
A ciência quis substituir-se à religião, ainda que nesta eu tivesse visto, e ainda veja, os mesmos tiques e toques que esta outra teve. Separar o Homem de si mesmo é arruinar o Homem.
A infantilidade sem infância:
Não nos podemos confiar a quem é tão vulnerável quanto todos somos. E é esta forma de ser adulto que poderá contrariar as catástrofes que têm sucedido ao longo da história, começando sempre por fazer o trabalho em cada um e não no outro.
Bem haja, Rui.
Você é um Anónimo que começa a ficar bem identificado quando escreve assim…
Chama-se a isto arte, da Maia.
Entre os ‘da’, porventura, vão grandes distancias, mas diferenças para já, não se identificam. Começando pela contracção da preposição ‘de’ com o determinante, artigo definido ‘a’, o que resulta em género feminino. Ou seja, filhos da mãe ou da avó, o que é por si só, é um sinal.
Para já fica fácil de constatar uma linhagem, o que é símbolo de orgulho, possivelmente enraizado num património intelectual e certamente, num material, quem sabe, até um titulo ou até um anel brasonado. Aposto na nobreza de toga. Se aposta ganho, logo fica fácil deduzir que são pais de família com filhos criados e que, não seria de espantar mesmo neste país, por sinal, cheio gente licenciada desempregada, bem encaminhados. O que leva-me à pergunta: O que fazem por aqui? Não, não quero acreditar que vem ‘teclar’ para alimentar o ego, ou para sublimar aquele orgasmo que já não conseguem ter. Sim, sim, quero acreditar que estão preocupados com a merda que o povão ‘ leva na cabeça, dia após dia.
E para o caso de estarem realmente preocupados com esta merda , que ao menos eduquem os mais novos. O estado de paz também mantém-se pela educação, através das ciências Humanas, a Humanização da sociedade não se faz com politicas capitalistas nem com policias e exércitos. Faz-se começando pelos lares, logo desde o berço, devendo esta ser uma constante da vida, tanto a nível individual como social.
da… R U Talkin 2 M?
Se contrair o “da” com “maia” vai dos arredores do Porto aos de Lisboa. Ora, não sou da Maia nem Damaia, e o nome nada tem a ver com apelidos nem locais. uestao-gaia.html
Se está tão interessado, pode consultar:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2010/12/q
O que fazemos aqui?
Essa questão fundamental, aplica-se a todos, e não apenas às visitas a este blog. Presumo que o Manuel tenha encontrado as suas respostas.
Há uma coisa que tento fazer, que é comentar sobre o tema do post, e tento não provocar desnecessariamente nenhum dos leitores.
Percebo o alcance da sua observação sarcástica, mas neste caso errou o alvo, seria mais dirigido aos “de”.
no, à m note.
bem haja Sr. Maia.