Meditação na perfumaria (com a devida vénia a coisas mais elevadas)


convite,

Estive hoje a ver, em dvd, A última estação de Michael Hoffman. Belo filme sobre os últimos tempos da vida de Tolstói. Helen Mirren é sublime no papel de Sofia Andréievna. A certa altura, o escritor, irritadíssimo, diz-lhe: “Tu não precisas de um marido, precisas é de um coro grego.” Adorei. Aliás, noutros tempos, os maridos que eu tive poderiam ter-me dito o mesmo. Bem, quando eu digo “os maridos que eu tive” convém notar que esta frase pode induzir em erro os leitores incautos. Foram só dois os maridos, mas, dito assim, cria toda uma atmosfera. 

Depois do filme, dediquei-me a uma tarefa mais pesada. Tinham-me pedido que vertesse para latim umas descrições de botânica. Foi árido e árduo e cheguei ao final da tarde cansada. Decidi que precisava de um café no exterior. De beber um café e de olhar umas montras. Tenho andado, por estes dias, com umas roupas na pré-reforma e com uns sapatos sem história. Com a roupa nada a fazer que isto do Verão limita-me os movimentos. Agora sapatos, como sabe quem sabe destas coisas, sapatos são uma religião. Os objectos sagrados guardam-se, bem estimados. Assim sendo, retirei do seu resguardo umas sandálias Luís Onofre a que os anos não tiraram o esplendor. São duas tiras de damasco  sobre o pé e uns saltos finos de 10 cm. É extraordinário o que tão pouca coisa faz pela alma de uma pessoa.

Fui, pois, com o propósito do café e de passar pela perfumaria a fim de investigar umas coisas. A linha de batôns Rouge Pur Couture, da YSL, tem uma colecção nova. Vi numa revista umas cores belíssimas com uns nomes incríveis, que o pessoal do marketing sabe-a toda: Rouge Hélios, Bronze Persépolis e o que me deixou de narizinho ar: Rouge Venise. Nas páginas da revista, era um rosso veneziano soberbo. Como fotografia em página de revista é muito enganadora no que respeita à cor, resolvi-me a ir ver se os via ao vivo, depois de bebido o café.

Na perfumaria onde vou há uma empregada muito simpática. Na maior parte das vezes, vou lá só para tagarelar um pouco, espalhar umas gotas de base nas costas da minha mão e apreciar a textura, enfim, estar por ali. Uma vez, passei lá um bocado muito engraçado. Ela disse-me, a certa altura: “Sabe… eu gostava de saber dizer o nome dos perfumes assim como a senhora diz.. “. Não percebi logo, mas cheguei lá. Tinha dificuldade em dizer o nome dos perfumes porque desconhecia as línguas. Ensinei-lhe uns pormenores e uns truques que foi anotando num caderninho de modo a treinar. Nessa tarde, quando saí, dizia na perfeição: Notorious, Black Orchid, Pleasures, Jasmin Noir e, a minha coroa de glória, Un Jardin en Méditerranée.

Hoje estava acompanhada de uma colega muito mais nova, também muito simpática e afável. Lá conversámos um pouco. Não, pois ainda não havia  batôns novos. E as colecções do Verão já tinham poucos. Em alturas de crise, batôn vende-se sempre. Mesmo nas grandes marcas, custa 25, 30 euros. Pode sair-se de uma perfumaria sem mais nada: quando se traz um batôn, comprou-se alguma alegria que dura uma estação inteira.

Eu gosto de batôns a sério, de mulher crescida. Nada de rosas imberbes, ou gloss que dá um ar de quem esteve a comer batatas fritas. Prefiro ter uns lábios de filme noir.

Lá estávamos, pois,  junto ao expositor da Dior, marca à qual ela sempre me tentou converter. Olhávamos para um rosa fundo, intenso, e a menina mais nova disse: “A senhora deve ficar bem com esse. A minha avó tem um igual e fica-lhe tão bem.” Soltei uma gargalhada perante a pirueta que ela deu com a frase: “Eu .. eu… não estou a dizer que a senhora seja da idade da minha avó … eu só queria dizer que …” 

Sosseguei-a, que tivesse calma. Feitas bem as contas, se calhar, tecnicamente, eu poderia ser avó dela.

Foi divertido mas fiquei a pensar no assunto. Quando eu tinha 20 anos, queria ser mais velha. Achava que as mulheres mais velhas tinham, naturalmente,  uma elegância, um andar, uma segurança que eu demorava a achar. Andei ansiosa por fazer 40 anos, a pensar que a graça dos deuses cairia sobre mim. Não notei grandes diferenças. Nem agora aos 52. 

Lembro-me de, quando era garota e tinha como meta a alcançar uma autorização da minha mãe para pintar as unhas de vermelho, ver muitas vezes a passear em Faro, na rua de Santo António, uma senhora que eu achava a quintessência da elegância. Usava uns vestidos de seda pesada e uns casacos de corte imperturbável. Pisava a calçada com uns saltos finos com se subisse as escadas do Scala.

E eu queria envelhecer. E usar meias pretas e retocar o rosto com pó solto, com uma esponja aveludada segura na ponta das unhas vermelhas.

Ok, já cá cheguei. A minha mãe já me deixa pintar as unhas.  

 

(texto republicado)

11 comentários em “Meditação na perfumaria (com a devida vénia a coisas mais elevadas)”

  1. Que o verniz das unhas e o batôn lhe assentem tão bem como a prosa que escreveu. Antes de começar a trabalhar soube-me bem este sonhar com perfumes saídos do leito de Xerazade e rosas venezianas ao luar mediterrânico (eu sei que é no Adriático, mas a poesia quer-se livre…). Obrigado.

  2. A ideia de que existe uma idade para ter charme, ser encantadora é um mito. Existem muitas mulheres de 50 bem mais interessantes do que frangas (sem desprimor para os galináceos ) de 20. Uma das mulheres mais bonitas que conheci, tinha, à época a idade da minha avó. A beleza vem de dentro e irradia. Desculpe lá o chorrilho de lugares comuns, mas também eles têm o seu quê de verdade.

  3. Na vida real como na escrita, a senhora – ia chamar-te menina, mas gostas de ser crescida – desliza com uma elegância que não fica a dever nada à tal senhora de Faro, tenho a certeza.

  4. Minha querida Ivone
    Se há qualidade que tu tens, para além de muitas outras que vêm de dentro, é a tua extrema feminilidade. E olha que elogio de mulher vale o dobro.
    É o belo cabelo, a unha cuidada, a sandália que desnuda o pé, o baton vermelho e o magnífico olhar.
    Que queres tu mais, linda Ivone, quando além disto tudo, ainda produzes estes textos?

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