Aos jovens que o procuravam para lhe perguntar como conseguia captar imagens que nenhum outro repórter fotográfico era capaz de obter, Robert Capa costumava retorquir: “Eu estava lá. Se não te aproximares suficientemente, nunca conseguirás uma boa fotografia.”
Lembrei-me da lição de jornalismo contida nesta frase quinta-feira passada, ao acompanhar as dramáticas imagens televisivas dos pavorosos incêndios que têm devastado muitas zonas do país, com destaque para a Madeira. Conhecida em todo o mundo pelo magnífico verde das suas paisagens, a ilha corre agora o risco de se transformar num mar de cinza.
Vou com frequência à Madeira: considero-a uma das minhas terras adoptivas. Dói-me profundamente a visão destas imagens das chamas a devorarem casas, quintas e florestas em zonas que já visitei demoradamente, com um deslumbramento que nunca se apaga.
Com grande parte da costa sul da ilha em chamas, os repórteres acorreram à região autónoma, mostrando aos portugueses a real dimensão desta tragédia. Estes repórteres, trabalhando sem horário, por vezes em condições duríssimas, prestaram um inestimável serviço público. Mesmo os dos canais privados, que nesta matéria se equivalem aos do canal público.
Foi precisamente num dos canais privados, a SIC, que vi a melhor reportagem desse dia. Assinada pela repórter Sara Antunes de Oliveira e pelo repórter de imagem Rui do Ó. Estavam tão perto da frente de incêndio que a dado momento tiveram de abandonar o local: um súbito golpe de vento deslocara as chamas na direcção deles.
Robert Capa aplaudiria este jornalismo que não se limita a observar à distância. Eu registei a assinalável coragem física desta equipa de reportagem da SIC. E também uma rápida entrevista de Sara Antunes de Oliveira a um chefe local dos bombeiros, presente no teatro das operações. A dado momento, alguém diz que há pessoas dentro de uma casa cercada pelas chamas. “Eu não lhe roubo mais tempo”, diz de imediato a repórter ao chefe dos bombeiros. A recolha de declarações era importante, mas salvar vidas humanas era incomparavelmente mais urgente.
O jornalista competente nunca abdica do seu contributo cívico. Nem que perca uma boa entrevista por causa disso.
Imagem: SIC


Pois. Mas com tantas reportagens fotográficas, o que eu gostaria de ver, não vi: como era a vegetação da ilha antes de os incêndios a comerem. Ou seja: se os campos e as florestas estavam razoavelmente limpos e ordenados ou, pelo contrário, se aquilo era um matagal mesmo à espera de ser dizimado pelas chamas.
Como madeirense e conhecedora da floresta regional, estou habilitada a responder-lhe a essa questão. Algumas zonas não estavam devidamente limpas: por descuido dos privados que possuíam terrenos repletos de matagal e por incompetência dos autarcas que não obrigam os primeiros a limpar as suas propriedades, e muito menos se dedicam à limpeza dos terrenos públicos. Mas asseguro-lhe que, a grande maioria dos incêndios deflagrou em encostas, zonas limpas, com floresta autóctone, através da mão de gente mentecapta. Sucede que, a ilha tem uma orografia francamente acentuada e, como tal, quando os incêndios se iniciam nas encostas, os bombeiros não têm outra opção senão esperar que o fogo devore toda a florestação que vai encontrando e atinja zonas acessíveis como as bermas das estradas, para que possa ser combatido. Vários especialistas na matéria, incluindo bombeiros, gente da protecção civil, e até um piloto madeirense da aviação comercial, têm afirmado que os meios aéreos teriam ajudado no controle mais precoce dos incêndios, sobretudo nas zonas inacessíveis, visto a Madeira ser uma região muito montanhosa. Mas o governo regional e o Ministro Miguel Macedo espetaram-nos com a léria: “os meios aéreos são tecnicamente inviáveis”.
Cumprimentos
Obrigado pela resposta.
Um conhecido meu, madeirense (da Camacha – teve a casa quase comida pelo fogo) mas residente no Continente, disse-me que uma das causas dos incêndios terá sido o facto de o Governo Regional ter cortado (quando? Não sei.) subsídios que dava à manutenção de rebanhos de cabras. Sem subsídios, os proprietários das cabras abateram os bichos, que providenciavam uma boa limpeza das matas. Pergunto: isto é verdade? Terá sido um fator importante?
Eu desconhecia essa questão dos subsídios, mas com a mente brilhante que nos governa, pouco ou nada me admira. Lembro-me que, não há muito tempo, houve guerra aberta entre o governo regional e os produtores de gado, uma vez que, o governo proibiu o pastoreio em muitas zonas, alegando que os animais estavam a destruir a vegetação endémica. Ora, a Laurissilva é essencialmente formada por árvores como o barbuzano, til, vinhático e loureiro. Não sou pastora, mas parece-me a mim que o gado não se alimenta de árvores. E é provável que por detrás desta decisão estejam questões económicas. No que a mim me diz respeito, preferia ter um bocadinho menos de urze nas serras, mantendo-as limpas e evitando a propagação de mato. Mas é como lhe digo, a governação desta ilha está a cargo de alienados. Ainda hoje, ouvi o Sr. Jardim (chamar-lhe senhor é uma indulgência da minha parte) afirmar que a ilha continuava a ter bombeiros a mais e que achava uma “estranha coincidência” os incêndios terem ocorrido após os seus comentários sobre os bombeiros antes dos fogos deflagrarem, sugerindo que teriam sido bombeiros a atear os incêndios.
“O jornalista competente nunca abdica do seu contributo cívico. Nem que perca uma boa entrevista por causa disso.” Há aqui uma perversão qualquer… Deixar o chefe dos bombeiros trabalhar não é favor nenhum que nos fazem.
Não empatar quem trabalha é sempre uma boa ajuda… 😉
Trés bien dit.
É muito mais raro encontrarmos exemplos destes do que muitos imaginam, Teresa. Muita gente, hoje em dia, só exige que os outros não atrapalhem o seu trabalho. Sem questionarem se não poderão, por sua vez, estar a atrapalhar o trabalho alheio. Daí a minha dupla homenagem a esta equipa de reportagem da SIC. É nos pormenores que detectamos a diferença.
O que eu quis dizer antes é que o chefe dos bombeiros não é obrigado a estar ali a ajudar a repórter a fazer o seu trabalho. Portanto, o facto de a repórter até o deixar ir embora porque é uma fulana porreira (não duvido disto por um segundo) parece um bocado perverso 🙂 Estou a dizer isto mais por brincadeira do que por outra coisa qualquer. Paz na terra. Beijinhos e Abraços para todos (à excepção do Lavoura).
Pois, no fundo falas de atitude, esse grande “detalhe”.
De todas as reportagens que vi nos canais portugueses foi a da SIC -da dupla de elementos referidos- a que mais gostei.
Concisa, esclarecedora e sem rodriguinhos!
Cumprimentos.
Issssssso messsssmo.
Pedro, não tenho sequer palavras para agradecer a simpatia do seu post. Queria apenas contar-lhe os \"bastidores\" daquele momento: eu e o Rui estávamos no sítio onde vento virou o fogo, em dois segundos. Desatámos a correr e a última imagem que tenho é a de uma enorme labareda a
cobrir as pessoas (3 ou 4) que estavam a tentar proteger as casas, com uma mangueira mínima na mão. Descemos a estrada e entrámos em directo, no jornal das 15h da SICNotícias. Fiz o directo todo com uma angústia enorme – podia jurar que aquelas pessoas tinham morrido ou estavam numa situação muito complicada. Porque lhe conto isto? Porque nunca me passaria pela cabeça ouvir alguém dizer que estava disponível para ir ajudar aquelas pessoas, cercadas pelas chamas (naquele caso, um bombeiro) e fazer-lhe mais uma perguntinha. Porque estava de coração apertado com o que tinha acabado de acontecer. E isso para mim não merece grande louvor – é básico. Ou devia ser.
O jornalismo precisa de técnica, coragem, sensibilidade. Mas precisa, sobretudo, de bom senso. Com o Rui como colega, a parte da coragem é muito fácil. O bom senso, infelizmente, não se aprende na faculdade. Obrigada, mais uma vez, pelas suas palavras.
Olá, Sara. É de elementar justiça sublinhar a qualidade do vosso trabalho. Mas sei que, particularmente em circunstâncias como estas, isso nem sempre é reconhecido – não só pelo público mas até por alguns colegas. Chega a haver quem imagine que é fácil fazer reportagens deste género, onde praticamente só é possível recolher imagens de tragédia e desolação – como se um jornalista não fosse feito de carne e osso, como qualquer ser humano, e estivesse destituído de sensibilidade.
Bem sei que o facto de haver duas ou três vedetas que gostam de ir “passear até às chamas”, como quem vai tomar um copo às Docas, dificulta por vezes a percepção geral de que estamos perante uma das mais penosas e até ingratas tarefas, nomeadamente pela sensação de impotência perante o poder devastador da natureza – seja o fogo, neste caso, seja a água, ou a lava, ou um sismo.
Mas julgo que um espectador atento sabe separar com relativa facilidade o trigo do joio. E percebe bem o que é a reportagem autêntica, genuína, impressiva, e onde está apenas mais um “vivo” para o habitual despique na feira de vaidades.
Renovo-lhe os parabéns pela qualidade – técnica e humana – do conjunto das vossas peças na Madeira, tornando-os naturalmente extensivos ao Rui. Com votos de continuação de bom trabalho aos dois.