José Hermano Saraiva (1919-2012)


Luís Menezes Leitão,

 

José Hermano Saraiva foi indiscutivelmente uma figura polémica, que como todos os seres humanos tem as suas luzes e sombras. Mas na altura da sua morte, devemos concentrar-nos nas luzes com que iluminou o nosso presente e esquecer as sombras. Os clássicos diziam que mors omnia solvit. Não me interessa por isso que José Hermano Saraiva fosse um fervoroso apoiante de Salazar, tendo chegado a qualificá-lo de “antifascista” ou que tenha sido o Ministro da Educação que efectuou uma repressão duríssima sobre os estudantes aquando da crise académica de Coimbra. Aliás, como bem salientou Pacheco Pereira, essa crise académica é hoje objecto de uma verdade oficial, nunca se falando de que acabou com um pedido de desculpas dos dirigentes associativos a Américo Thomaz, o que causou grande indignação entre os estudantes. Recordo-me de que há uns anos ia havendo um tumulto no Parlamento quando esse episódio foi recordado.

 

O que me interessa recordar de José Hermano Saraiva é o brilho das suas magníficas exposições sobre a História de Portugal, que a tornava acessível a todos. Nem sempre os seus argumentos me convenciam, como a sua tese sobre Camões de que a macaense Dinamene seria afinal a bem portuguesa D. Ioana Noronha de Andrade (DINA) e Menezes (MENE). Mas era extraordinária a simplicidade com que respondia às questões que lhe punham. Porque é que o Porto, que deu nome ao país, nunca foi a sua capital? Porque o Porto era do bispo. Os trabalhos que fez no fim da sua vida de expor a história de quase todos os concelhos do país são um verdadeiro serviço público, que ficará na memória de todos. Da mesma forma, foi altamente meritória a sua chamada de atenção constante para a degradação do nosso património, com exemplos concretos de abandono por parte do Estado.

 

José Hermano Saraiva foi também um grande jurista, tendo deixado obras marcantes como O Problema do Contrato e A Crise do Direito. Será, no entanto, como historiador e mais precisamente como divulgador da história que será recordado. Impressionou-me particularmente a forma como soube envelhecer. Quando tantos outros se reformam antecipadamente e ficam inactivos até ao fim da vida, ele continuava sempre incansável no seu constante labor. Podíamos ver que não estava nas suas melhores condições físicas, mas nunca se notava uma diminuição na qualidade dos seus programas.

 

Não sei se num canal privado de televisão seria alguma vez possível assistir a um programa de José Hermano Saraiva. É curioso que nos tenha deixado precisamente na altura da privatização da RTP, que pode acabar de vez com esta forma de fazer televisão. Na altura da sua morte, apetece-me por isso recordar uma frase que, como ele, ficou na memória da nossa televisão: As árvores morrem de pé!

6 comentários em “José Hermano Saraiva (1919-2012)”

  1. Acima, na caixa de comentários do ‘post’ do José G. André, referi-me às luzes e sombras de JHS sem ter lido ainda o teu texto, Luís. Revejo-me, naturalmente, no que escreves. E considero absurdo que uma vida de quase 93 anos possa ser resumida nuns escassos meses em que foi ministro no último governo de Salazar. Muito criticado por isso, e tendo cumprido penitência cívica por isso, José Hermano Saraiva foi muito mais do que isso. Tal como o professor Adriano Moreira não deve ser avaliado essencialmente pelo ano e meio em que foi ministro do Ultramar de Salazar mas pelo conjunto da sua vida e da sua obra.

  2. Acho que os programas do Professor Hermano Saraiva não devem servir de desculpa para justificar a existência de um canal público de televisão. Os programas de JHS não existiram por causa de existir um canal público – existiram porque existia o seu autor. A RTP (à excepção do Câmara Clara) é um monstro indolente e caríssimo que não se distingue dos outros e que não providencia nada que um canal privado não possa fornecer. Aliás, aqueles que hoje atacam as posições políticas que JHS tomou no seu passado (no seu contexto histórico) devem lembrar-se que uma televisão pública é um fenómeno fascista que tem um contexto histórico que já não se justifica. (Para a esquerda radical, que é bastante fascista e gosta de controlar e patrulhar o que as pessoas pensam e dizem talvez se justifique – mas numa sociedade avançada já não)

  3. Se alguem quiser e souber analisar a acção de JHS como ministro da Educação de Salazar, se calhar vai ter algumas surpresas. O episodio de Coimbra e o que se lhe seguiu, não pode nem deve ser ignorado no balanço do que foi a vida de JHS. Mas como ministro da Educação ele retirou rigidez e formalismo ao ensino e à vida escolar em Portugal, abrindo assim caminho a uma reforma que infelizmente o seu sucessor Veiga Simão não soube aproveitar, mas isso são “contas de outro rosário”.

  4. Não, Professor Saraiva,
    Não vai ver chegar as andorinhas na próxima Primavera
    :((

    Escreveu JHS :
    Sou um professor reformado, que em cada Inverno
    pergunta a si próprio se ainda verá chegar as
    andorinhas da próxima Primavera.
    Porquê, portanto, continuar a escrever, já depois do
    Sol posto? Faço a pergunta, mas vacilo na resposta. É
    o temor supersticioso e popular que se exprime no
    aforismo ” ninho feito, pega morta?”. É o sentimento
    institivo da rotina, de continuar amanhã o que se fez
    ontem? É este meu prazer de ver deslizar o bico da
    caneta na superfície branca e complacente deste papel
    a que me habituei, enquanto o pensamento deambula
    pelo labirinto das coisas acontecidas?

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