Em tempos não muito distantes, à rapariga aplicar-se-iam expressões como «abundante de carnes» ou «cheiinha», usadas num tom onde se detectaria mais apreço do que crítica. Noutros, mais recuados, seria pulposa e levaria pintores a proporem-se pintá-la nua, com o argumento de ser perfeita para representar Vénus saindo do mar ou recostada num canapé. Tem pele branca que, ao ser atingida pelo sol, irradia luz como a face de Greta Garbo nos velhos filmes a preto e branco. (É provável que não se lembrem mas, logo na minha primeira colaboração com o Delito, deixei claro que pele branca está longe de me ser desagradável.) Segue pelo passeio à minha frente, segurando o telemóvel junto à orelha direita com a mão do mesmo lado enquanto, com a esquerda, vai puxando o vestido para cima. O vestido, aliás, merece uma palavra. É branco, largo (esvoaçante, mesmo) e não tem alças. Parece segurar-se apenas por acção de uma tira elástica, franzida, de uns cinco centímetros de largura, que cruza as omoplatas e passa por baixo dos braços e por cima das mamas (que eu, da posição em que me encontro, não consigo ver). Há outra tira elástica, estreitinha, na zona da cintura mas dá ideia de nem estar a fazer pressão sobre esta, destinando-se apenas a efeitos estéticos. O vestido é curto, muito curto, deixando pelo menos metade das coxas (brancas, muito brancas) a descoberto, mais até quando a rapariga, a cada trinta ou quarenta metros, puxa a tira elástica para junto da axila, a mão esquerda fechando um triângulo isósceles em que os outros lados são o braço e o antebraço. Atrás dela, vou-me perguntando se o fará por excesso de precaução ou se existirá mesmo risco de o vestido lhe deslizar suavemente pelo corpo abaixo. O meu lado malévolo deseja-o, claro, e até o imagina (mas vocês, que nem sequer viram a rapariga, parem com isso). Quanto ao meu lado simpático e prestável, esse sente vontade de ajudar: de lhe colocar uma mão de cada lado do corpo, mesmo por baixo dos braços, e de dar um bom puxão (para cima!) no vestido. Depois digo-me que provavelmente ela reagiria de forma pouco simpática, o que só demonstra que as boas acções são muitas vezes incompreendidas ou que o bem e o mal se encontram frequentemente misturados (mas a sério, foi um impulso caridoso). Continuo apenas atrás dela, sorrindo perante os seus esforços (por que raio escolheu aquele vestido se lhe dá tanto trabalho?) e pensando que talvez lhe pudesse antes segurar o telemóvel junto ao ouvido, de forma a permitir-lhe usar ambas as mãos para colocar o vestido no sítio. E então, subitamente, caio em mim. Que diabo estou a fazer, observando o comportamento de raparigas de vinte e poucos anos, ou talvez nem tanto (de costas é difícil ter a certeza), em vez de pensar em assuntos sérios como o défice público, a licenciatura do ministro Relvas, as visões infernais do bispo Torgal, as pulsões revolucionárias do octogenário Soares ou, já agora, o meu trabalho? Aproveito a circunstância de a rapariga entrar num café para, sem mesmo olhar lá para dentro, seguir caminho, decidido a passar o resto do dia concentrado nos tais assuntos realmente importantes. Em passo rápido, indiferente ao calor, recusando novas distracções, demoro poucos minutos a chegar aqui, junto ao computador, onde passo a hora seguinte a escrever isto.
P.S.: O corrector ortográfico do Word assinala «pulposa» e «pulsões» como sendo erros. É um corrector tão politicamente correcto…

por que raio escolheu aquele vestido se lhe dá tanto trabalho?
Mais curiosas acho eu as mulheres que andam com umas saias tão esvoaçantes, tão esvoaçantes, que elas têm que ir o caminho todo com uma das mãos a segurar a saia, para que ela não esvoace e lhes deixe as partes à mostra.
Era como se um homem escolhesse umas calças tão largas que depois tivesse que ir na rua com a mão permanentemente a segurá-las para que elas não lhe escorregassem pelas pernas abaixo.
O problema é que, para as mulheres, o aspeto visual (a beleza) é muito mais importante do que a funcionalidade. Uma mulher preferirá um vestido incómodo e que lhe dá trabalho a ajustar, apenas por ele ser bonito. O facto de o vestido ser incómodo e descair é pouco relevante; o importante é que lhe fique bem.
Os homens são o oposto: preferem a funcionalidade à beleza estética.
Luís: a questão das saias está bem vista. Mas tenho dúvidas quanto às suas certezas acerca da preferência dos homens pela funcionalidade das coisas. Assim de repente, qual a funcionalidade de um Ferrari? Ou das mil e uma funções que os homens acham indispensáveis nos gadgets que compram e nunca usam? Creio é que os homens tenderão a privilegiar outras formas de afirmação e de se sentirem bem consigo próprios. E, ainda assim, já viu como certas ‘tribos’ de rapazes usam roupa de funcionalidade pelo menos discutível?
A insustentável leveza do ser feminino que os homens nunca entenderão. Ainda bem, ou lá se ia o fascínio.
(Belo texto, Jaa!)
Bah, afinal de contas Zeus concebeu-vos precisamente para nos darem cabo da cabeça.

(Obrigado!)
Certo. Mas começámos logo por dar-lhe cabo da cabeça a ele, embora ele estivesse convencido do contrário.

Caro jaa;
Acredito piamente que a mocinha se zangaria se levasse adiante esse seu impulso inteiramente altruísta, de lhe colocar uma mão de cada lado do corpo(inho) mesmo por baixo dos braços, e lhe puxasse o vestido para cima… só para a ajudar.
Se ao menos lhe colocasse uma mão sobre cada mama, por forma a sub traí-la ao precalço de o vestidinho curto, branco e largo, poder descair…
Não sei se algum dia as suas observações dos comportamentos comuns ao “belo sexo”, o levaram à mesma constatação a que cheguei: as mulheres dão muito mais importância à salvaguarda da sua intimidade mamal, que da vaginal.
E porque debito esta parábola com tanta segurança?!
Vejamos; se em lugar de seguir a mocinha do vestidinho branco, o jaa se cruzasse com ela, e se o vestidinho branco e curto fosse totalmente transparente, e se o jaa, ao cruzar notasse a transparência, e se a mocinha do vestidinho branco, curto e largo, notasse que o jaa tinha fixado o olhar, através da transparência do vestidinho branco, curto, largo e esvoaçante, na silhueta do seu corpo; garanto-lhe que a mocinha do… (isso!) iria reflexiva e rápidamente levar a mão e o braço esquerdos ao peito, na tentativa de resguardar do seu olhar curioso (hmmm? Não, não escrevi guloso, escrevi curioso, mesmo), as mamas.
Dir-me-à, que pois claro, que é evidente, na medida em que a mocinha do vestid… (isso!) levava a outra mão ocupada, segurando o telemóvel…
E eu rebato, perguntando-lhe: Tem a certeza que a mocinha do vest… (irra!) ía mesmo a conversar ao telemóvel?
😉
Bartolomeu: estou para aqui a tentar imaginar como diabo é que, partindo do meu texto, você chegou à dicotomia tapar as mamas / tapar o sexo. Quanto ao telemóvel, se ela ia a fingir, ia a fingir bem (muito melhor do que eu consigo).
Deixe lá isso, jaa.
Seja como for; a favor, ou contra as nossas vontades, o mundo irá continuar a girar… em torno de si mesmo… e em torno do astro-rei.
Como dizia o outro… o Galy-Galy «E pur si muove».
;))
Haverá lá assunto mais sério do que o corpo de uma rapariga? Corpo total, é carne e alma e um coração lancinante contra o tempo. O corpo de uma rapariga grita, compõe-se, descompõe-se, parte em estilhaços e é por isso que qualquer vestido, ou outra peça de roupa nunca lhe parece estar bem, precisa sempre de um arranjo: tem de conter o coração batente ao milagre do amor. Creio que foi num livro do Umberto Eco que li que a razão útil de os monges usarem um amplo hábito é este deixar o corpo liberto, esquecido de si, o que facilita a concentracão do espírito em coisas mais sérias. Mas uma rapariga tem lá coisa mais séria em que pensar se não no seu próprio corpo? E para quem o vê, com olhos de ver, e pode ser um monge, pode lá haver coisa mais séria em que pensar que um jovem corpo com a vida todinha lá contida?
O problema é envelhecermos quase sempre prematuramente e esquecermos o esplendor que os nossos próprios corpos foram já. Daí que seriamente nos enredemos em relvas, torgais e outros que tais.
Obrigada pelo seu texto, Jaa, nunca deixe de olhar as raparigas, elas agradecem olhares como o seu.
P.S. Tão sério quanto o de uma rapariga só mesmo o corpo de um rapaz. Mas isso fica para outra ocasião.
Certíssimo, graça. E muito obrigado.
Ei, Pedro: está aqui um candidato a comentário da semana.
Tem graça. Já tinha pensado nisso.
jaa, o teu Word não sabe o que é “pulposa”? Vê se lhe explicas, está bem? Não quero que ele me chame gorda quando me encontrar por aí a segurar o vestido.
Excelente texto, rapaz.
Ivone: estive para usar a opção “acrescentar ao dicionário” mas cheguei à conclusão de que gosto do toquezinho de vermelho sob a palavra. É como se fosse uma chamada de atenção da própria palavra: lê-me; sou sugestiva, vou fazer-te imaginar coisas excitantes. É como um toque sexy numa mulher: um olhar provocante ou – se depois deste comentário não me vierem buscar para ser internado já não deve acontecer – uma roupa e pose ligeiramente inesperadas, como as da Merkel na foto da linha 3, coluna 6 na sequência que o Rui publicou anteontem.
E obrigado.