Há doze livros que não leio um final feliz


Rui Rocha,

 

Houve um tempo em que tínhamos a nossa vida e, quando precisávamos de ver flores, passarinhos a chilrear e ribeiros a transbordar depois do degelo da primavera, íamos ao cinema. Sentávamo-nos, esperávamos cerca de duas horas e, com mais ou menos peripécias pelo meio, chegava invariavelmente um final feliz. Depois, voltávamos ao rame-rame com a alma lavada e os índices de esperança em máximos históricos, como se o mundo tivesse lançado uma OPA ao melhor dos nossos sentimentos. Com um bocado de sorte, e se evitássemos Sartre e outros macambúzios, podíamos obter o mesmo efeito com um livro.

 

Depois, algum desmancha-prazeres, certamente por puro despeito e mesquinho sentimento de inveja da felicidade dos outros, decidiu que os finais felizes estavam fora de moda. Na literatura e no cinema, os pais divorciados dos meninos da nossa idade deixaram de reconciliar-se. As namoradas dos artistas principais passaram a ficar feridas nos tiroteios e nem sempre recuperaram. Um ou outro herói morreu. Veja-se bem que em livros como As Horas, é só um exemplo, não basta ao autor deixar morrer a Virginia Woolf. Não, como se isso fosse pouco, ainda há um bolo de aniversário estragado, uma mãe que foge de casa e um filho que tem uma doença gravíssima. Por incrível que pareça, este último morre. Mas, suprema crueldade, nem sequer morre da doença, o que seria relativamente aceitável e poderia até ter um enquadramento poético e um fundo moral redentor. Não, para piorar as coisas, morre porque se suicida. Claro que tudo isto é insuportável para gerações que se habituaram a chorar no momento em que prenderam a mãe do Dumbo, mas que no fundo confiavam numa organização do mundo que assegurava um final feliz para todas as personagens importantes. E para a mãe do Dumbo também.

 

Com o desmoronar deste universo de hetero-ajuda, de acesso fácil e prazenteiro, espíritos atentos notaram algo que também não passaria despercebido ao olhar crítico de Marx se ainda estivesse entre nós: o fenómenos da transferência de tarefas dos trabalhadores para os consumidores. O voo pode ser low cost, mas quem faz a reserva e imprime a passagem é o turista acidental e não o funcionário da agência de viagens que passou a ocupar-se, apenas, de preencher o euromilhões. Daí à explosão da literatura de auto-ajuda foi um passo. O princípio é o mesmo. Podes ser muito feliz, mas tens de ser tu a fazer por isso: se leres isto, podes ser um bom chefe, um excelente empregado, mil e trezentos truques para gerir as tuas emoções, vais ser bom, vais ser melhor, mais um bocadinho e passas supra-sumo da batata, se não conseguires travar a tempo, ainda és promovido a supra-sumo da barbatana, ai vais ser tão feliz e tu bem sabes que o êxito é a pedra basilar da felicidade, ai vais ser tão bom que vais conseguir transformar frustração em oportunidade!

 

Mas isso é fantástico, clamam alguns. É evidente que não é. No tempo dos finais felizes de hetero-ajuda, não tínhamos de fazer nada. A única coisa que nos pediam era a paciência de esperar umas horas até acabar o filme ou o livro. E não havia como contestar o viveram felizes para sempre. A história acabava e no dia seguinte não íamos a casa da Cinderela ver se o sapato afinal lhe apertava os joanetes ou se o Príncipe Encantado era um gabiru que passava mais tempo a caçar elefantes no Botswana do que a aspirar a casa. Não, as histórias acabavam por ali. E acabavam bem. Com a auto-ajuda, os protagonistas da história somos nós. E isso é terrível. Porque a tese do optimismo radical só é defensável em relação à vida de terceiros e é válida, sobretudo, quando os outros são personagens de ficção. Não há optimismo que sobreviva aos azares da nossa própria vida. A crises, a doenças graves, a cataclismos, a separações definitivas, a perdas irreparáveis.

 

Aqui chegados, é justo perguntar se há futuro. Há, mas tudo indica que não é grande coisa. Perante o descrédito da auto-ajuda, temo que sobrevenha o tempo do salve-se quem puder. Os protagonistas da história continuaremos a ser nós. Mas, incapazes de protagonizarmos histórias que acabam sempre bem, ficaremos ainda pior. No fundo, escreveremos livros e realizaremos filmes na primeira pessoa, em que enfrentaremos inúmeros perigos, tal como o McGyver. Só que, no nosso caso, existirão alguns episódios em que acabamos por ser presos pelos maus, por nos magoarmos ou até coisa pior. O cenário não é, já sei, grande coisa. Mas, isso resulta, em boa medida, de em rigor não ser um cenário, mas a própria realidade. E se tivermos sorte, pode ser que as coisas acabem por compor-se. Quem sabe, um dia destes, voltam a escrever livros com final feliz e a realizar filmes que acabam ainda melhor. Isso seria fantástico porque, como se viu, com a felicidade das personagens fictícias, podemos nós bem. Em alternativa, e apenas no caso das mulheres, presumo que seja possível alcançar alguma paz interior com uma ida ao cabeleireiro.

21 comentários em “Há doze livros que não leio um final feliz”

  1. Talvez seja por ciclos, isso dos finais felizes. Nos anos 60 e parte dos 70 do século XX as histórias acabavam com a morte do herói e mais uns danos colaterais, talvez como memória do que tinha corrido tão mal na 2ª grande guerra.

    Explicaram-me que era uma necessidade para colocar um fim na história, não haver mais nada para contar. Outras vezes era o autor que queria livrar-se dos seus pesadelos e angústias, como por exemplo o Ingmar Bergman, com uma colecção notável de personagens angustiadas.

    Julgo que esses finais felizes apareceram nos filmes para se poderem fazer sequelas e até eu, que estava completamente farto dos maus finais, achei que as histórias estavam a ficar um bocado forçadas para o fim feliz.

    Se sentir a falta de um fim feliz escolha um livro ou um filme duma época produtiva que se adapte melhor às suas necessidades do momento, veja o resumo do enredo antes de comprar (ou pedir emprestado) o livro que vai ler.

    1. Sim, penso que a maioria dos finais estão em linha com o espírito do tempo, JJAmarante. Entretanto, as suas recomendações parecem-me muito avisadas.

  2. Belo texto, Rui. Sou suspeita, claro, porquanto acérrima defensora do direito ao pessimismo, mas não há pensamento positivo que resista às nossas vidas.
    Sim, a ida ao cabeleireiro, ou qualquer sucedâneo dentro do género, resolve. Momentaneamente, é bem de ver.

  3. Assim de repente fiquei a pensar em Kawabata; aquela melancolia e erotismo que acabava num amor platónico. Quanta zanga me dava…

    Eu pessoalmente também tenho os meus momentos Zen, indo ao barbeiro; tenho é de ser do clube dele!

  4. “(…) presumo que seja possível alcançar alguma paz interior com uma ida ao cabeleireiro.”

    Asseguro-lhe que não é, embora por vezes dê para fazer de conta.

  5. Anda por “aí” (por este mundo e por Portugal) uma corrente que foi inventada e implementada por alguns membros, ou agentes, de um Clube denominado Bilderberg. Todos nós sabemos que tudo isto que é secreto é sempre inofensivo. Refiro-me ao positivismo. Este positivismo, tão em voga em Portugal, é muito simples de elaborar. Explico:
    – Arranja-se uma folha de cálculo e fazem-se umas projecções económicas e financeiras. Calcula-se, em função da esperança, que é sempre negativa, uma série de resultados mais ou menos aceitáveis à lógica de quem os elabora. Depois disto aguarda-se a realidade.
    – Depois de tanto se aguardar lá vêm os resultados reais. Se estiverem abaixo do que foi “previsto”, mas sempre superiores à realidade anterior, diz-se que o andamento foi mais “positivo” que o “previsto”, como tal não há razões para alarmes. Mas se for superior ao previsto, é sempre “positivo” porque resulta dos “ajustamentos” em curso; estes levam sempre muito tempo.

    Vai daí, a propósito do seu texto, lembrei-me da frase do filósofo: conhece-te a ti mesmo. Na realidade, isto de conhecer a “mim mesmo” dá uma trabalheira danada e origina uma série de guerras e guerrilhas contra mim mesmo. E qualquer guerreiro menos avisado e preparado acaba sempre por desertar. Este desertar tem origem em uma simples equação de vida: vive a qualquer preço e não custe o que custar.

    Realmente, a batalha mais preciosa é aquela que o homem trava consigo mesmo, até ao ponto em que deixa de esperar que a paisagem mude para passar a ver a paisagem com outros olhos.

    Sim, “buscai o reino e tudo o mais vos será dado por acréscimo”. Todavia, como buscamos o acréscimo é natural que nunca se consiga implementar o reino.

    Por fim, basta ao escravo ser seu senhor e ao díscipulo ser seu mestre. Eu sei, é muito confuso.

    Rui, o seu texto é extraordinário.

    1. A propósito do seu comentário, que agradeço, ocorre-me uma frase sobre a qual ando há uns dias para escrever alguma coisa: “isso nem parece teu”. Como se quem a diz nos conhecesse e nos pretendesse vincular a uma ideia que tem de nós, sem o nosso consentimento.

      1. Muito bom: quer o comentário do Anónimo, quer a observação do Rui:
        – Que ousadia a nossa, não entrar no modelo que fizeram de nós!

      2. Rui, é verdade, como eu o percebo. Repare que essa afirmação – “isso nem parece teu” – também é usada como “compasso” para a falta de argumento.

        1. Tenho pena que o nosso amigo Anónimo apareça assim mesmo, como Anónimo: isto que escreveu habilitava-se a ser o Comentário da Semana (que não é aberto a anónimos, só a pseudónimos e heterónimos).

  6. Muito bem, mas esqueceu que a mãe de Bambi morria mesmo. Isso perturba qualquer menino da mamã…

    Eu sou favorável aos instrutores de ajuda, basta apenas que a Ordem dos Filósofos exija a profissionalização com a licenciatura adequada. A agonia das faculdades de letras tem que ter saídas profissionais, dado o paradigma moderno: – a licenciatura serve o emprego.

    O erro básico dessa auto-ajuda da tanga é alinhar no coro do “sucesso”. Quando a felicidade pessoal depende dos outros, isso torna-se um problema para o próprio e para os outros…
    Quando isso leva a que amigos e familiares comecem a exibir as suas capacidades na batata e na barbatana, torna a vida complicada em termos da devida honestidade para com os amigos.

    Quando os objectivos são pessoais, e não envolvem outra competição que não seja consigo próprio, aí as boas críticas alheias são melhores que os elogios.
    Porém, a nossa felicidade não esgota em nós, precisamos de uma empatia alheia mínima… e por isso é conveniente construir uma família e um grupo de amigos minimamente funcional em termos afectivos e compreensivos.
    Não é preciso mais que isso…
    A competição quando ultrapassa a função de “animar a malta”, prejudica a colaboração, e o sucesso de uma pessoa esconde a frustração de muitas outras, todas movidas pela mesma cenoura.
    Aliás, é fácil ver que o sucesso colectivo, ao ser partilhável, é muito mais agradável de comemorar que o sucesso pessoal.

    O homem moderno poderia ter a caça assegurada pelo trabalho rotineiro, que lhe garantiria a ida ao supermercado, a segurança na sua casa, a ajuda em maleitas no hospital, algum divertimento com os amigos e o fascínio da cultura e conhecimento acessível.
    Este seria o sonho do homem primitivo, é o sonho de muitos homens ainda hoje, mas já é algo detido por uma grande parte da população.
    O que prejudica isto?
    – Fazer a sua vida em função dos outros, da inveja do sucesso, sempre incompleto, a necessidade de poder para quem necessita de bajulação e serviço alheio, etc.

    Há um outro problema inevitável e esse é de ordem diferente… nem sempre conseguimos ter a estima ou o amor de forma recíproca. Mas isso é um problema de relacionamento, que é transversal, e tanto ocorre com muito sucesso, com muito poder, etc…
    Os sentimentos não são negociáveis pela cotação do mercado ou pela imposição de força…

    No entanto, ainda o pior é a dificuldade em garantir que a situação melhore e não se detriore… ninguém estará propriamente descansado, e feliz, enquanto a sociedade estimular o individualismo numa lógica de poder, de opacidade e falsidade, que pode bafejar alguns… mas que não os deixará nunca descansados pela mera hipótese de passarem de ofensores a ofendidos.

    1. (mais um) Excelente comentário, daMaia. Quanto à mãe do Bambi, tem razão, claro. Os finais mais ou menos felizes devem ser vistos como tendência, numa determinada época.

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