Inventou-se demasiado dinheiro. Ou, pelo menos, é o que se lê e ouve com frequência: que os fluxos financeiros a nível mundial ultrapassam várias vezes o valor de coisas reais que é suposto representarem. Culpam-se – com razão mas deixando frequentemente de fora outros responsáveis, entre os quais governos e «parceiros sociais» – os bancos, a falta de regulação e os especuladores. E fazem-se proclamações sobre como é preciso limitar a especulação financeira sem se perceber que corrigir o diferencial significa reavaliar para baixo. Pelo contrário: como antes, deseja-se continuar a inventar dinheiro, para gerar «crescimento». A questão é: cresceríamos como?
Tomemos um exemplo: segundo o The Economist de há um par de semanas, o valor das habitações caiu 50% na Irlanda desde o início da crise enquanto em Espanha, que teve uma bolha imobiliária pelo menos tão bonita como a irlandesa, ainda só caiu 20%. Explicação? Os bancos espanhóis, com os balanços atafulhados de casas por vender, têm-se recusado a aceitar a desvalorização porque isso também significa encaixar um buraco monumental nas contas (e parece que só dão crédito a quem comprar uma das suas próprias casas). Em Espanha, portanto, os sectores do imobiliário, da construção civil e dos serviços com eles relacionados (incluindo financiamento) ainda tem de cair, não de crescer. Como, em menor escala, sucede por cá (a este propósito, as notícias dos últimos dias segundo as quais é no imobiliário que mais falências se registam servem de bom indicador do que está a acontecer). Inevitavelmente, a quebra nestes sectores arrasta o resto da economia. Mas qual a alternativa? Alguém acredita que será possível gerar crescimento sustentável construindo mais habitações desnecessárias?
Claro, há outra via. Vejam-se as duas principais medidas saídas da cimeira europeia da semana passada (a tal em que Angela Merkel, essa inflexível, parece ter cedido outra vez): por um lado, a mutualização das dívidas (isto é, pôr os contribuintes dos países em melhor situação a garantir – e eventualmente pagar – as dívidas não só dos governos mas também já directamente dos bancos dos países em maiores dificuldades); por outro, e mais relevante para o tema deste post, o famoso pacote de estímulo ao crescimento, tão desejado por Hollande, Monti, Rajoy e provavelmente Passos Coelho, o qual prevê 120 mil milhões de euros para, entre outras coisas, a realização de grandes projectos de infra-estruturas. Bingo. Em países com infra-estruturas mais do que suficientes, vai continuar a apostar-se no investimento público em construção. Com sorte, o TGV recomeça dentro de momentos, o aeroporto é só mais um instante e talvez até a terceira auto-estrada Lisboa-Porto ainda venha a ser uma realidade. E há as renováveis mais a sua excelente relação custo-benefício que, até prova em contrário, representam taxas e impostos futuros, à semelhança das SCUT que o Eng. Cravinho garantia (garante?) pagarem-se a si próprias. Apertem os cintos. Vai ser um período de estonteante crescimento. Quer dizer: o crescimento, a existir, até será lento; estonteante (assim tipo montanha russa) vai ser a descida.
Adenda 1: A propósito dos custos relacionados com as questões da energia (e das dificuldades que, por histeria política e uma opinião pública impressionável e incapaz de fazer contas, a Alemanha tem pela frente, mesmo sem as «ajudas» dos países do Sul), leiam este post de Victor Tavares Morais no Cachimbo de Magritte. O ponto positivo é algumas empresas portuguesas poderem lucrar; o negativo é que os alemães ficarão cada vez menos propensos a emprestar dinheiro a outrem.
Adenda 2: No Jornal de Negócios da passada Sexta-Feira, Pedro Santos Guerreiro avançava a hipótese de a Alemanha estar seriamente a planear a saída do euro. Talvez não de imediato (se nos primeiros anos da moeda única a Alemanha sofreu com a maior rentabilidade que os capitais obtinham no países do Sul, está agora a ganhar por se ter transformado em refúgio) mas num futuro próximo, antes de Espanha e Itália a arrastarem para o fundo, seria um acto de inteligência. Resta saber se haverá coragem política para um tal passo (mas, ei, assim como assim, os alemães já são mal vistos por quase toda a gente). E talvez, como também escreve Santos Guerreiro, a Finlândia dê uma ajuda. Há sinais nesse sentido.

por histeria política e uma opinião pública impressionável e incapaz de fazer contas
Isso é só aquilo que se dá à aparência. Na verdade, o abandono do nuclear pelos alemães tem fundamentos económicos perfeitamente racionais. Os alemães sabem que o urânio está a acabar. Dentro de cinco ou dez anos haverá seriíssimas dificuldades em abastecer de urânio as centrais nucleares atualmente existentes (não me refiro a novas centrais planeadas, apenas às existentes). Mesmo atualmente, só há urânio que chegue devido ao desmantelamento de bombas atómicas, nas quais muito urânio está acumulado. Em termos de mineração, o urânio extraído do solo não dá para mais do que 2/3 do consumo atual.
Luís: ok, mas mesmo admitindo que daqui a dez anos a procura será superior à oferta (como, por exemplo, se prevê, embora sem certezas, no último gráfico da página que linko abaixo) uma coisa seria ir reduzindo a produção e fechar a última central em 2030 ou 2040, outra encerrá-las a todas até 2022. Os custos do esforço imediato para compensar o desaparecimento dessa fatia de produção (entre os quais a possibilidade de ficar ainda mais dependente do fornecimento de gás de países pouco fiáveis) serão quase certamente superiores ao aumento dos custos de produção nas centrais que se mantivessem em funcionamento.
http://www.world-nuclear.org/info/i nf22.html
(1) Encerrar as centrais nucleares todas até 2022 deve ser encarado como um objetivo retórico, não necessariamente como aquilo que será efetivamente feito.
(2) Repare que, se houver, como eu disse, sérias faltas de urânio daqui a dez anos, ou seja, precisamente em 2022, será conveniente ter nesse ano as centrais nucleares prontas a ser desligadas. Desligadas à força, talvez, por falta absoluta de combustível. Repare que eu não estou a falar de em 2022 o urânio ir ser escasso – estou a falar de ele ir faltar mesmo nas quantidades requeridas. Estou a falar de em 2022 muitas centrais nucleares pelo mundo fora terem de ser desligadas por falta de combustível.
(3) O abastecimento de gás natural a partir de alguns países é, certamente, pouco fiável. Mas o abastecimento de urânio não o é menos. Ou julga que o urânio vem todo da Austrália e de outros países “amigos”? Muito dele vem de países giros como o Níger e o Cazaquistão.
(4) É claro que encerrar as centrais nucleares tem grandes custos e é um grande esforço. Mas, como eu disse acima, não se trata de uma questão de opção, mas sim de uma questão de necessidade, de urgência. Ou se desligam a bem, ou se desligam a mal (por falta absoluta de combustível). Convença-se disso.
(1) É possível; vá-se lá saber porquê, eu ainda vou acreditando em muitas declarações dos políticos.
(2) Talvez mas parece-me que, com a redução no consumo do Japão (enfim, vamos ver) e com o encerramento de algumas das centrais alemães (digamos 5 ou 6), o cenário talvez não seja tão pessimista. O preço do urânio, esse tenderá a aumentar, claro. De qualquer modo, isto são tudo hipóteses que só daqui a uns anos poderão ser confirmadas ou invalidadas. A decisão está tomada e não vai ser possível voltar atrás (ainda por cima com o peso eleitoral que os Verdes têm vindo a obter).
(3) Digamos que – e os número são apenas para efeitos de exemplo – ter dois terços da produção dependentes de dez fornecedores pouco fiáveis é menos mau do que ter os mesmos dois terços dependentes de apenas um ou dois.
(4) Dê-me uns anos.
Meu caro jaa
Há uns meses escrevi um post no qual afirmava que cada vez via como mais certo a saída da Alemanha e dos nórdicos da zona euro. Mantenho, hoje, a mesma opinião…
Helena: pois, e não há hoje razões para estar muito mais optimista. Apesar de tudo, talvez a correcção fosse menos dura se saíssem eles e não os países em dificuldades, um de cada vez. Mas duvido que seja já: para além das questões políticas, por enquanto a Alemanha está a lucrar (apesar das exportações para o sul da Europa tenderam a descer) e as concessões feitas na cimeira da semana passada nem representam um aumento de encargos significativo para os cofres alemães (apenas um aumento do risco do dinheiro disponibilizado para o Fundo de Estabilização). Mas dentro de mais uns meses, quando a situação espanhola e italiana se tornar insustentável…
“E fazem-se proclamações sobre como é preciso limitar a especulação financeira”
Por aqueles que defendem a especulação financeira ou mesmo contrafacção de moeda. Como um certo Presidente e um ex.Presidente…
Veja-se o escandalo sobre a LIBOR em Inglaterra. O Estado que quer juros baixos junto com os bancos a manipularem os valores da taxa…
O crescimento acabou com a configuração dos estados ocidentais como estão. A única hipótese será desenvolvimento tecnológico – por exemplo na energia-
Certo mas, a curto prazo, a aposta na energia tem custos que só agravam o problema. Energia mais cara significa menos consumo noutras áreas. No limite, os Estados até podiam proibir os motores de combustão interna, o que obrigaria toda a gente a comprar carros eléctricos e os fabricantes a apostar ainda mais na investigação e a reconverter as linhas de produção, mas, claro, quem pagaria isso se não o consumidor? Sendo que muitos não poderiam fazê-lo e muitos outros teriam de cortar noutras despesas – lá se ia o crescimento.
“Certo mas, a curto prazo, a aposta na energia tem custos que só agravam o problema.”
Eu quando falo de energia não me refiro ao que anda por aí, mas simplesmente algo de novo que ainda não conhecemos.
Ou seja , a não ser que algo de novo apareça não haverá crescimento.
A crise económica é essencialmente uma crise na procura.
Na prática, a sociedade ocidental está endividada, e os países em desenvolvimento não atingiram níveis de consumo semelhantes. Assim, ainda que haja muito dinheiro, na prática não circula.
Há demasiada oferta, os preços baixam, e a idiotice reinante insiste no modelo esgotado – aumento da competitividade, que só aumenta mais a oferta, e não estimula a procura.
Havia uma oportunidade de injectar o dinheiro excedente nos países em desenvolvimento, por correcção cambial… ou seja, na prática as moedas ocidentais deveriam desvalorizar-se o mais possível.
O problema é que se calhar nós não íamos achar piada nenhuma à “austeridade” (leia-se perda de poder de compra) que isso implica.
Por acaso até seria o oposto da austeridade…
O aumento de moeda, e de salários, faria essa desvalorização do euro. Na prática, se não fizesse, poderíamos comprar mais sem produzir mais…
Isto é o oposto do que estamos a fazer, porque estamos a olhar só para Portugal, e aí a baixa de salários é precisa como correcção “cambial” interna à esquizofrénica UE.
Só quem tem muitos euros é que não lhe interessa a desvalorização… ou seja, quem tem o poder económico.
Se o euro perder valor, perdem também os credores que têm dívida em euros…
Nada impede a UE de fazer sair do nada o valor da dívida em euros… e de alguma forma estão a fazê-lo com os fundos de estabilização. Isso só não agrada ao poder financeiro que tem muitos euros empatados.
O mercado interno na zona euro não seria afectado, o que teríamos seriam importações mais caras.
Tudo isto era fácil se tivéssemos ainda moeda própria.
A grande diferença é que pagaríamos mais caros os plasmas, os tablets, telemóveis , a tecnologia… que só passou a ser barata, para nós, depois da paridade ao euro. Eu ainda me lembro do tempo em que comprar TV era investimento importante… hoje em dia é mais caro uma noite no Algarve.
Seria perda de poder de compra, só que pela via que os países financeiramente indisciplinados sempre usaram para sair dos buracos em que se meteram. A desvalorização da moeda gera perda de poder de compra menos óbvia do que a austeridade actual mas não deixa de ter elementos similares. Entendo que, na situação a que chegámos, talvez fosse mais fácil (como o foi no passado) mas que, se nunca aceitarmos que a disciplina orçamental é indispensável, nunca nos tornaremos um país rico. Por outro lado, é difícil pedir a um alemão, a um holandês ou a um finlandês para aceitar perder poder de compra de modo a facilitar-nos a vida (ainda que, a prazo, não o fazer possa trazer-lhe algumas consequências negativas). Pelo que, na minha opinião, temos duas vias: aceitar o trajecto actual (duro e arriscado) ou sair do euro e desembrulharmo-nos sozinhos.
Em geral estamos de acordo.
A desvalorização da moeda tem uma vantagem – baixa proporcionalmente todo o valor, e não se presta tanto à austeridade selectiva… e a desvantagem da fuga de capital – compra de moeda estrangeira – pode ser controlada com restrições cambiais.
Mas, conforme apontou, não se resolve o problema da disciplina orçamental, e esse problema permanecerá enquanto forem os causadores do problema a definirem a “solução”. Já se percebeu que os “solucionadores” geram apenas problemas adicionais.
Ontem, no “Negócios da Semana” os convidados do José Gomes Ferreira, e ele próprio, foram bastante assertivos acerca da gula no bolo do orçamento, com exemplos claros de governantes que negoceiam os contratos estatais, de cláusulas ruinosas, que são os mesmos que deles vão retirar esses benefícios na sua actividade privada.
É claro que parece parvoíce termos a Alemanha a financiar o desvario da corrupção latina, mas em larga medida esta situação foi fomentada pelas suas políticas… As grandes importações da Alemanha têm um mercado de topo, ligado justamente a essa “elite” que favorece negócios ruinosos. O problema alemão é que, devido à crise latente, eles próprios já têm dificuldade em escoar a sua produção, baixam as suas exportações, e podem ter que adoptar medidas de austeridade nas importações.
É fácil entrar nestas espirais… saímos da espiral de crescimento e entrámos na espiral recessiva.
Mas, até aqui nada de novo… o que não é falado, mas é o grande problema da finança mundial, é a dificuldade em criar procura. Foi isso que eu quis referir – oferta houve e há muita, a recessão começou pela procura não ter acompanhado a oferta. A crise do Nasdaq de 2001 foi ilustrativa do valor gerado pela informática não ter corresponde real na procura.
Apostou-se em força nos mercados emergentes, procurando arrastá-los… e como não havia nada de novo a vender no Ocidente, venderam-se as ilusões dos “derivados”.
Só que a maioria da compra foi interna… os BRIC pouco perderam na queda dos derivados, pelo que a situação financeira ocidental só piorou.
Os EUA decidiram fazer moeda à maluca e funciona… enquanto não houver interesse em que o dólar caia (toda a gente está cheia de dólares) podem fazê-lo à vontade.
Ter o maior exército do mundo ajuda bastante… quem vai cobrar incumprimentos?
A UE não faz o mesmo devido à rivalidade interna… os países ainda se vêm uns como credores dos outros, não há uma solidariedade europeia, há apenas soma de interesses nacionais – onde a população dos países mais pequenos sai a perder, por ter uma elite que hipoteca o futuro de todos para assegurar o seu.
Eu acredito pouco no caminho actual, pois a elite nacional continua intocável nas suas negociatas, produzindo leis que tornam a imoralidade um artifício legal. A balança da justiça vai sendo a balança comercial.
Há uma coisa que aprendi com um colega no Brasil:
– corrupção e incompetência são sinónimos!
Aqui uma coisa é crime, e a outra é tolerada.
Os decisores não se importam de serem considerados incompetentes pois livram-se de serem condenados como corruptos. E a incompetência é passageira – logo a seguir são contratados como competentes gestores.
Obrigado pela discussão.
Cumprimentos.