Macau: laços de ternura


Pedro Correia,

Nunca me esquecerei da imagem. Numa luminosa manhã de Inverno, descia a colina de São Januário em direcção ao Jardim de São Francisco quando os vi, subitamente, numa curva do caminho. Andavam num ritmo oscilante, medindo cada passo transposto na calçada. Pareciam um casal como tantos outros. Mas não eram. Ali à minha frente estava a real explicação para a presença multissecular de Portugal em Macau.

O senhor idoso, de longo bigode grisalho, era inequivocamente português; a senhora idosa que seguia a seu lado, envergando seda estampada, tinha traços fisionómicos claramente chineses. Iam de braço dado, unidos num elo que parecia indestrutível, como se aquela fosse a primeira manhã do mundo.

Fiquei a vê-los passar na lenta ascensão rumo ao hospital, situado no topo da colina – uma das sete de Macau. Iam decerto a uma consulta médica. Já não me lembro se conversavam: talvez lhes bastasse um ténue fio de ternura para estabelecerem comunicação, como acontece a tantos casais idosos. Este quadro humano teve, para mim, o efeito de uma revelação: aquele português e aquela chinesa de braços entrelaçados, apesar do óbvio desgaste dos anos, eram uma metáfora viva da própria Cidade do Nome de Deus.

O nosso maior vínculo a Macau não vem estampado em nenhum manual de história: ali deixámos pouca fé, nenhum império, quase nem vestígio de negócios da China. Se contássemos, por exemplo, com o dinamismo empresarial para perpetuar os pergaminhos lusos naquelas paragens, bem podíamos esperar sentados. Até a comercialização dos nossos pastéis de nata se deveu à inspirada iniciativa de um súbdito britânico…

“Outros países têm igrejas, palácios, museus ou mesmo cataratas do Niágara e Vesúvios para mostrar. A China tem, em vez de tudo isso, um muro”, lamentava Alberto Moravia. De certa forma, só os portugueses conseguiram suplantar o muro: fomos o único povo ocidental que se uniu à etnia chinesa para formar uma comunidade mestiça. Os macaenses comprovam tal facto.

Os discursos oficiais de louvor ao entendimento luso-chinês são levados pelo vento, os interesses económicos mudam ao sabor das circunstâncias, as garantias seladas em acordos podem ser rasgadas, até as pedras ameaçam ruir. Só os laços de sangue perduram. Falam mais alto e calam mais fundo do que tudo o resto. Esta voz do afecto em que fomos pioneiros há-de continuar a repercutir, como eco de longínquo búzio, o doce nome de Macau.

 

                         

Imagens: Ruínas de São Paulo (em cima), Porto Interior e Ilha Verde há cerca de cem anos (ambas do blogue Macau Antigo)

 

32 comentários em “Macau: laços de ternura”

    1. Uma realidade que tão bem conheceste também, compadre. Há qualquer coisa de lenda viva em Macau. Por não haver nenhuma outra sequer parecida. O fascínio imenso desta cidade tem a ver com isso.

  1. Há um enorme mito em torno do que é o macaense. O macaense não é necessariamente mestiço. O macaense é aquele que é de Macau. Como tal, a maioria dos macaenses é chinesa. E a senhora de traços chineses que estava com o senhor de raça branca muito possivelmente também já era portuguesa de nacionalidade, o que faz com que, para todos os efeitos, ela não seja, efectivamente, uma chinesa.
    Ainda chegou a aprender alguma coisa de patuá ou cantonense? 🙂

    1. A comunidade macaense é a comunidade mestiça. Etnicamente mestiça, mas também culturalmente mestiça. Com ascendência chinesa, portuguesa, goesa, malaia, timorense, filipina. Isso nada tem a ver com a nacionalidade: cerca de cem mil habitantes de Macau têm nacionalidade portuguesa (possuindo passaporte de cidadão português que o estado chinês reconhece como ‘documento de viagem’) embora na larga maioria sejam etnicamente chineses e não saibam falar português.
      Vivi dez anos em Macau e conheci naturalmente vários portugueses casados há longos anos com chinesas: alguns deles fizeram lá a tropa e por lá ficaram. Macau é um verdadeiro ponto de encontro de culturas e uma rota procurada por quem sente a vocação da aventura. Uma terra cujas raízes são feitas essencialmente por desenraizados de outras paragens. Aliás muitos dos chineses que lá vivem não são naturais de lá mas de outras partes da China, designadamente da vizinha província de Guangdong.
      Quem vive tanto tempo em Macau como eu vivi aprende naturalmente a falar cantonês e incorpora expressões do próprio vocabulário cantonense no seu vocabulário quotidiano. Expressões como ‘mán mán’, ‘fai ti fai ti”, “tá pau”, “mou man tai”, e tantas outras que continuo a dizer, nem que seja para mim próprio.

      1. Tens toda a razão. O comentador Fire Head centrou-se (mal) na nacionalidade, quando a verdade é que os habitantes de Macau não são institucionalmente observados pela nacionalidade, mas sim socialmente pela etnia e cultura que abraçam.
        Mesticos são os macaenses – na designação estreita, aceite e totalmente pacífica do termo – que combinam sangue e cultura (escolar, designadamente) portuguesa e chinesa.

        1. Pelo contrário. Centrei-me no que tinha que me centrar unicamente: na naturalidade. O macaense é a naturalidade, ou seja, é aquele que nasce em Macau. Se um preto, filho por exemplo de angolanos, nascer em Macau, é macaense e não luandês (ou lá como se escreve o nome da pessoa de Luanda) ou lisboeta.
          Macaense sou eu simplesmente por ter nascido no antigo hospital Conde São Januário e, apesar de ter sangue chinês nas veias, sou português. Na verdade sou português de Macau, pois a maioria dos portugueses é chinesa.
          Como disse, isso do ser macaense virou uma espécie de mito alimentado durante gerações.

          1. Não se trata de um mito nem o facto precisa de alimento: está sociologicamente estabelecido o que já escrevi acima e, por isso, não irei repetir-me. No fundo, a definição de macaense (e das restantes etnias do território) faz parte das chamadas «especificidades» de Macau, o que se explica pelo encontro tão diverso de comunidades/culturas numa área tão limitada. Já publiquei diversos artigos e ensaios sobre o assunto.
            É tudo. Continue a aparecer e fique com um abraço.

          2. Curiosamente, já há muitos macaenses que, como eu, rejeitam isso que eu afirmo ser um mito. Se chegou a publicar coisas sobre isso, sabe certamente que os chineses ainda hoje continuam a chamar aos ditos macaenses “filhos da terra” (“thou sán jai”), coisa que não pressupõe necessariamente a mestiçagem. E certamente que também já ouviu falar do termo macaísta. Será que um negro que nasça em Macau não é macaense? Conheceu os irmãos Évora, que são médicos? Eles até falam muito bem cantonense e gostavam de comer “tau fu fá” quando eram pequenos, na Rua Padre António, ao pé da Igreja de São Lourenço…

            Um abraço macaense.

      2. Isso do macaense ser necessariamente mestiço vem dum mito, a do macaísta. Portanto, pegando no seu ponto de vista, que é também a de muita gente ligada a Macau, o de que um macaense é um mestiço, então um não mestiço que nasça em Macau já não é macaense? Será então natural de onde? O macaense é a naturalidade duma pessoa, é como ser alentejano ou algarvio, o que nada tem a ver com a nacionalidade (a maioria dos macenses é chinesa, de raça amarela). Do mesmo modo que um português que tem um filho com uma chinesa no Porto não faz do menino um macaense, mas sim portuense. O mito é que quer-nos fazer crer que os macaenses são uma espécie de espécie própria (passe a redundância) quando na verdade tão só se resume apenas à naturalidade, ao facto duma pessoa pertencer a uma terra, que é Macau, a cidade do Santo Nome de Deus.

        Tem saudades da comida chinesa (verdadeira)? Eu tive por cá um restaurante de comida chinesa/macaense, mas infelizmente as coisas não correram bem: http://www.lilau.com.sapo.pt

        De um “ou mun ian”.

        1. Tenho sobretudo saudades de comida macaense: um minchi ou um arroz gordo à macaense (aí está, culinária mestiça, feita de influências várias, culinária macaense).
          Quanto à comida chinesa dominante em Macau, já a encontrei por Lisboa, mas é preciso procurar bem e enfiar alguns barretes enquanto se procura. Há por cá dois ou três restaurantes chineses com genuína comida chinesa. Há um junto à Praça do Chile, creio que se chama Hong Kong. E outro em Alcântara, situado (apropriadamente) na Rua Luís de Camões. Além do restaurante chinês do Casino Estoril, que já se tornou uma referência no género.
          Quanto ao resto, cada um já exprimiu as suas opiniões com suficiente clareza. Limito-me a reiterar que existe sim uma comunidade macaense, com uma cultura própria (já vimos que é uma realidade, por exemplo, na gastronomia) como existe uma comunidade goesa, também ela com características próprias. Que se funda na mestiçagem mas não se confina à mestiçagem: vai mais longe e mais fundo, na história e no espaço.
          Lamento que o seu restaurante não tenha tido sucesso. Apreciadores de boa comida chinesa felizmente não vão faltando por cá. Em Macau, além da gastronomia cantonense, havia também bons restaurantes especializados em comida de Xangai e de Sichuan. Excelentes, sobretudo esta última, com o seu característico toque picante.

          1. Mas assim já estão a misturar conceitos. A cultura não tem necessariamente que ter a ver com a naturalidade das pessoas. Eu conheço brancos nascidos em Macau que não são mestiços, nem tão pouco falam cantonense, e eles próprios dizem, e com razão, que são macaenses, precisamente por terem nascido em Macau. A comida macaense, ou a gastronomia macaense, é sim um produto da cultura macaense, mas curiosamente, não sei se sabe, a base da comida macaense é portuguesa.

            O meu ex-restaurante agora serve como uma espécie de clube privado, tipo Casa de Macau. De vez em quando organizamos almoçaradas ou jantaradas com pessoal de Macau ou que esteve lá. E, claro, o “minchie” é um dos pratos macaenses mais conhecidos, mas também o arroz de costoleta no forno, que é cinco estrelas (as fotos de certos pratos estão disponíveis no site do meu ex-restaurante). A minha mãe tirou um curso de culinária lá em Macau já há muitos anos atrás.

            Conheço o Hong Kong, que fica ao pé da Portugália, e também o Mandarim, no Estoril, mas este último é mais para gente endinheirada. Há um outro restaurante em Oeiras, o Dim Sum, que também é muito bom, pois é de pessoal de Cantão.

            A comida de Xangai é picante, sim. Lá em Macau gostava imenso de ir lá ao restaurante Xangai (Seong Hoi Siu Sek Tim), ao pé dos bombeiros. No meu ex-restaurante também tínhamos um prato de Xangai, carne picada picante com tou fu. Ahhhh velhos tempos…

            Saudações macaenses.

          2. O Xangai, em Macau, era um clássico. Tantas vezes lá comi…
            Como era também o Fat Si Lau, na Rua da Felicidade – onde no Inverno íamos comer sopa de cobra.
            E também o Long Kei, no Largo do Senado.

  2. Ó Pedro pois esta tua amiga é mais comezinha. A tua foto remeteu-me para a única vez que lá fui e deu-me uma enorme vontade de lá voltar. Foi dos sítios, ou o sítio de onde saímos com mais dignidade!

  3. Muito interessante.
    Fiquei intrigado – Macau é a “cidade do nome de Deus”?
    Procurei, e vi a relação do nome com A-Ma-Gao, associado à deusa do Céu, A-Má.
    Há outra relação?

    Macau foi uma história de consentimento, e não de imposição, como foi Hong Kong. Talvez por isso os chineses tivessem feito questão de que fossemos os últimos a sair.
    Aceitámos o jogo, mas não traficámos droga…

    1. “Cidade do Nome de Deus – Não há outra mais leal” foi a frase inscrita no escudo de armas da cidade no século XVII, depois de Macau ter resistido com êxito ao domínio castelhano durante 60 anos. A Má – do qual derivou o nome de Macau – é uma deusa chinesa, padroeira dos pescadores e em honra da qual existe o templo mais antigo da cidade, no Porto Interior. Já existiria, de alguma forma, quando os portugueses lá aportaram.

      1. E é como diz: fomos os primeiros a chegar, e os últimos a sair. Não conquistámos o território: Macau e as suas ilhas adjacentes foi-nos oferecida. E assim ficou, sob administração portuguesa, até depois da transferência da soberania de Hong Kong para a China, por vontade expressa de Pequim, para assinalar as diferenças entre os dois processos históricos.

        1. Olha Pedro há textos que, para além da beleza literária, nos remetem para verdades que não devíamos esquecer. Este teu, é um bom exemplo do que digo.
          Eu bem sei porque é que, há tanto tempo, leio os teus escritos. É que aprendo sempre alguma coisa com eles!

        2. Muito obrigado.
          Pois, eu sabia da desobediência de Macau, e do nome Leal Senado, por manter a bandeira portuguesa, mas não tinha reparado no “nome de Deus”.

          Encontrei aqui
          http://books.google.pt/books?id=viiVbQy6wjcC
          http://books.google.pt/books?id=oUsNAAAAYAAJ
          que ao tempo de Filipe II, em 10/4/1586, foi considerada Macau como “cidade do santo nome de Deus na China”, com privilégios de Évora, e daí a abreviatura.
          O episódio da bandeira parece um simbolismo posterior, pois ao que parece Macau reconheceu Filipe II como rei, depois da queda da Ilha Terceira.

  4. Cheguei a Macau, na única vez que lá fui, no final de 1979. Fascinou-me, como seria de esperar, pois eu era um jovem relativamente imberbe mais conhecedor do Ocidente. Embora me digam os amigos que lá fui visitar que tudo está (naturalmente) muito diferente – também decorreram 32 anos – gostava de regressar, talvez por esse sentimento de aventura e de nacionalismo de que fala no seu belíssimo texto. Tenho boas memórias e boas histórias. E relembro as Portas do Cerco, que atravessei para ir à China, onde se lia Camões: “A Pátria honrai, que a Pátria vos contempla.”

    1. Esse foi o ano, salvo erro, em que se restabeleceram as relações diplomáticas entre Lisboa e Pequim. Muito mudou, de facto, desde então. Embora a Porta do Cerco lá continue, hoje apenas como símbolo histórico.
      Muito mudou para melhor, nomeadamente na valorização e protecção do património histórico da cidade.
      Coloane é talvez a parte do território que menos se transfigurou.

  5. Excelente evocatória, Pedro, que me fez também regressar por momentos àquele Macau que faz parte do nosso imaginário (ele pode não existir realmente, mas a verdade é que está lá). Abraço

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