Quando a norma equivale ao erro


Pedro Correia,

«Invejo a burrice, porque é eterna.»

Nelson Rodrigues

 

O que dantes era emendado como erro básico de ortografia, próprio de gente burra, agora é mantido solenemente em artigos de jornal por vir com a chancela quase oficial da agência Lusa, primeiro órgão de informação a substituir o português pelo acordês. Os resultados estão à vista: a palavra contacto, que nem o “pacto de submissão” aos interesses das editoras brasileiras previa, é amputada duas vezes no mesmo texto de origem (e felizmente emendada no título do jornal). Na dúvida, opta-se pela burrice à boleia do tal acordo destinado a suprimir consoantes.

Começa-se pelas chamadas “consoantes mudas” e logo se transita para a caça às sonoras, que assim deixam de o ser. Até cada um passar a escrever como lhe der na real gana. Sem norma, com imensas “facultatividades”, sem a noção básica da etimologia. Como António Guerreiro sublinha aqui, a propósito de panóptico, palavra que «nunca teve outra pronúncia que não fosse a da ‘norma culta’» e que apesar disso passou alarvemente a escrever-se panótico por imposição dos “corretores ortográficos” em acordês.

À falta de um vocabulário ortográfico comum – promessa nunca concretizada pela brigada acordista – passa a valer tudo: erro e norma tornam-se irmãos siameses. «O AO, estúpido como é – de uma estupidez cómico-grotesca -, promove constantemente erros de hipercorrecção, sem fornecer meios que os possam evitar. E, hipertélico, acaba por ir além dos seus próprios fins e anulá-los. Sem o ‘p’ a palavra refere-se à audição, e não à visão, ou então é utilizada no campo da química para designar um corante», sublinha Guerreiro, crítico literário do Expresso.

Sábio – nesta matéria, como em tantas outras – era Fernando Pessoa. Que escreveu, cheio de razão: «A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.»

Sobretudo quando procura impor uma norma que equivale ao erro.

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18 comentários em “Quando a norma equivale ao erro”

  1. Realmente. Um título ‘à antiga’, começando nas “inspecções” e terminando no “contacto”, e de seguida um texto ‘moderno’ que se perde ele próprio numa caça à bruxas.

    Ainda andei a procurar mas não encontrei nada. O iOnline já terá tomado posição quanto ao AO?

    1. Um título “à antiga” em países de elevado grau de iliteracia.
      No primeiro mundo e nas grandes línguas cultas escreve-se ct, op, ph, etc., etc.
      Isto é, a modernidade “lusófona” tem pouco a ver com a modernidade do mundo.

      1. O jornal ‘i’ é daqueles que mantêm ortografia correcta, pré-AO. Mas como a Lusa escreve em acordês e o texto aqui reproduzido é da Lusa, acontecem estas discrepâncias: o disparate é da agência noticiosa, mais papista que o papa. Não lhe basta suprimir consoantes ‘mudas’: agora também elimina consoantes ‘sonoras’.

  2. Creio que o resultado final pretendido é a imposição total da ortografia brasileira ( a “ortografia nacional brasileira” – como consta do respectivo decreto).
    Por isso, o acordista deputado Tavares afirma que pronuncia o p de excepção, salvo erro e que, por isso, o escreve… E não saiu – que saiba – uma rectificação ao decreto que no Diário da República menciona a “união de fato”
    Creio que virão aí, como “revisão do tratado” e concessão os cês e pês que os brasileiros conservaram. E apenas esses.

  3. Não deixa de ser curioso ler G. Vasconcelos Abreu, o coautor da proposta onde se fundou a mudança de 1911.

    Podemos ver logo nessa proposta de 1885 que o J era proposto para Geral, ficaria “Jeral”, e os demais Ge, Gi, usariam Je, Ji. Achava isso “lójico” e não “lógico”…
    A mudança de 1911 não foi tão longe e manteve a excepção.

    Mais engraçado é que, por exemplo, ele escrevia e propunha “corrução” ao invés de “corrupção”…
    Talvez o “p” nem sempre fosse lido na altura, mas hoje é, e isto só ilustra como a escrita molda a fonética.
    E se retirava o “p” a “escripto”, não retirava o “c” a “directo”, o que ilustra que o “c” se deveria ler à época.

    Talvez o propósito até fosse honesto, dada a descoberta do Sânscrito enquanto raiz comum mais antiga que o legado greco-romano. Talvez houvesse um desejo genuíno de ligação a essas raízes, julgando que a escrita tinha corrompido essa origem.

    O que ele talvez não antevesse é que a palavra “corrupção” não iria mudar…

    1. da Maia: a moda da ortografia fonética chegou a Portugal e ao Brasil vinda de França. Era o “ortografia científica”, ou como se escreve hoje em França, l’orthographie scientifique. Foi uma moda, daqueles que os franceses produziam todos os anos, do vestuarário à gastronomia, da filosofia à ortografia, guardando-se eles mesmos de seguirem as menos inteligentes…. Foi o caso: como La Langue Française não é para brincadeiras de meninos nem de tontos, os franceses, evidentemente, evidentemente, reformas ortográficas nenhumas) e as vítimas foram os papalvos do costume., (à custa de quem devem ter soados umas gargalhadas além-Pirinéus).
      De facto, quando a república positivista e maçónica foi proclamada, logo os veneráveis irmãos se reuniram para tornar “científica” a língua portuguesa – coisas que os brasileiros já haviam, aliás, tentado em 1907, baseados nas mesmíssimas teses e nos mesmíssimos livros.
      Apesar de provincianos, em 1911 a “coisa” deteve-se diante de alguns grafemas da Língua Portuguesa (um dos quais é precisamente o “EC”, já que a sua destruição poderia acarretar mudanças na lingua falada e não por se ler o “c” de directo, desaparecendo apenas aqueles – IP, IC, UC – em que esse perigo não se verificava – escripto, aflicto, fructo). O servilismo perante o Brasil e as solidariedades obedientes passaram agora por cima desses grafemas (EC, AC etc) constituintes da língua e de que a vandalização produz risco, talvez por não haver nenhum especialista em fonética que tivesse participado nas reuniões (de que não se conhecem ainda as actas…). Ou por continuarmos a ser o pais mais analfabeto da Europa… Ou…

      1. Obrigado pela resposta bem informativa.
        Os franceses foram conservadores ao ponto de usarem o anacronismo do “quatre-vingt dix”, ainda que os belgas ou suiços usem o “nonante”…
        Será que os irmãos além-pirinéus não tratam os manos daqui como profanos? É que o GOL remata sempre ao entrave…

        É especialmente engraçado ver isto numa altura em que se pretende que as crianças aprendam cedo o inglês… se ainda restava alguma grafia semelhante, de raiz latina, isto certamente não ajuda nada.

        Usar-se o argumento fonético entre países que têm claramente uma pronúncia diferente para a mesma língua, só dá para rir. Ainda outro dia vi escrito “Tchecos” num jornal brasileiro…

        Haveria uma saída menos estúpida para esta situação… o acordo de 1990 poderia ser usado oficialmente para as relações entre países lusófonos.
        Mantinha-se a grafia habitual em Portugal, e para mal já bastava o que tinha sido feito antes.

    2. De facto, “a escrita molda a fonética”, Da Maia. Não me admiro nada que certos imbecis desatem a partir de agora a pronunciar ‘contato’. Com outros imbecis a aplaudir de bancada. Até em certos blogues a puxar ao “entelectual”.

  4. Foi trabalho de grupo: um escreveu o título e outro o texto e ao revisor foi dada uma ‘nova oportunidade’ à Passos Coelho.
    Não foi por causa do AO que deixei quase de comprar jornais mas esta falta de qualidade só reforça a minha dieta dos ditos. Há muito que não comprava a ‘Visão’. Comprei-a há umas três semanas e encontrei uma linda: a ponte medieval de Cheleiros (uma aldeia perto de Mafra) foi construída para transportar as pedras para a construção do Convento de Mafra. Estou a divergir no tema, mas não entendo como se deixam passar calinadas destas.

    1. Cara Leonor,
      poucos bons olhos terão notado a contradição.

      Parece estar escrito nos altares que as pontes antigas só podem ser – ou romanas ou medievais…
      Ninguém fala em pontes gregas, nem egípcias, nem chinesas, etc… (… seguir no click)

      Esse apontamento histórico parece de lavra erudita, já que é até poético classificar D. João V como rei medieval. A verdade histórica, ou o absurdo lógico, é um detalhe sem importância, perante o apreço dos irmãos.
      Por isso, o autor da conjectura original, é capaz de se candidatar (ou ter já recebido) uma comenda pelo 10 de Junho.

      Encontramos as 3 hipóteses (romana, medieval, ou setecentista) aqui:
      http://pt.wikipedia.org/wiki/Ponte_antiga_de_Cheleiros
      … e assim passam os rios da nossa “Estória”.

      1. Acho delicioso o apontamento da wikipedia: ‘Circundando a ponte, encontra-se numa margem o casario de Cheleiros e na outra terrenos rurais, onde é possível observar ovelhas pastando.’ A próxima vez que lá passar vou estar atenta 🙂

    2. Leonor Barros, muito estranho a sua ignorância 🙂 : antes de 1900 tudo agora é “medieval” e a ortografia em que Eça publicou já a vi denominada como “português arcaico”.
      Quando a gente diz que o inglês de Dickens, que começou a publicar anos antes de Eça nascer, tem a mesmíssima ortografia do inglês de hoje ficam com um ar levemente aparvalhado ou contrafeito, consoante a ignorância e a má fé, porque as tolices da “evolução” e da “língua viva” vão-se por água abaixo.
      A verdade é simples: este “acordo” é um atestado de atraso e subdesenvolvimento imposto a gente habituada a obedecer muito e pensar pouco. Que esteja a ser largamente contestado é o único sinal de progresso no meio deste crime.

      1. Começo a achar que por este andar ainda vamos ficar mesmo medievais, mas pelas actuais condições laborais vamos ‘pernoitar’ longamente na Revolução Industrial 🙂

  5. O papel da agência estatal “Lusa” serve para percebermos quanto a ditadura lança longas sombras…
    Aliás, é estranho que a feição ditatorial e repressora que tem sido usada para impor o “acordo” à revelia dos peritos e do Povo não seja mais veementemente denunciada.
    O “acordo” que não serve para nada, devia já ter servido para percebermos o quão longe Portugal está de ser uma democracia e um estado de direito.

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