Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia “roupa velha”.
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital.
Foram anos em que o Campo se tornou num imenso resort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam.
A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. Estamos nisto.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.
“A trapeira do Job” (excertos)
José António Barreiros


A crítica ao excesso de crédito é correcta, mas
“Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.”
Que ordenados tinham?
O valor do produzimos sem a bolha do crédito deve estar nuns 15-16000 euros hoje.
Muito mais que no tempo em que tínhamos a dita Marinha Mercante – que existia para África…Fábricas e supostas Vinhas e Searas…
Hoje produz-se mais agricultura especialmente frutos e muito mais valor e variedade.
Por exemplo exportou-se 160000t de vinho em 1980, em 2009 exportou-se 230000t. Em 2007 ano que se bateu o record de exportação foram 341000t.
O ano em que se bateu no fundo(período:1962-2009) das exportações de vinho foi em 1982 com 135000t.
E claro temos a obfuscação que foram os malvados bancos. Não foram, foi a regulação – ou seja os políticos que precisam de 3% de crescimento para terem a reeleição assegurada e precisam do crédito a quase zero para tal.
Quem se quiser dar ao trabalho de verificar a produção agrícola tem as estatísticas da FAO onde é fácil comparar períodos e tipo de colheita/produção. OMPARE
http://faostat3.fao.org/home/index.html#C
Há sectores (muito poucos) em que a PAC foi uma bênção. Mas… e o que teve de ser arrasado em nome das outras bênçãos dadas aos demais membros da UE em matéria de produção agrícola?
Sabe? Pode adiantar todas as estatísticas que não manobrará nunca esta simples verdade: se tivéssemos de comer apenas o que a nossa terra produz, voltávamos à castanha.
A PAC existe simplesmente por uma razão, manter os preços porque a Europa produz demasiada comida devido aos avanços tecnológico.
Se quiser a PAC existe para proteger os pequenos/médios agricultores Franceses , Portugueses etc e manter os preços a um nível a estes possam existir.
Tornando as coisas obviamente mais caras para os consumidores.
“Pode adiantar todas as estatísticas que não manobrará nunca esta simples verdade: se tivéssemos de comer apenas o que a nossa terra produz, voltávamos à castanha.”
Uma questão de fé portanto. Não há racionalidade é só palpite.
Em 1980 Portugal produzia 434000 toneladas de carne em 2010 772000 toneladas…
Lucky: eu falo do dia em que as vaquinhas que dão essas toneladas e carne deixarem de usar argola na orelha, está a ver? É que essas valente super produtoras não são completamente nossas, longe disso. Devia entender as subtilezas que os números escondem, assim adejados à toa.
Este impressionante texto tem várias dedicatórias , começo pela que julgo mais significativa:
Anibal Cavaco Silva ( periodo pós Euro)
Período pós euro, ou seja, em plena era Guterres?
Tem razão
( pos entrada na CEE)
Não concordo. Ou concordo parcialmente. Cavaco era PM quando aderimos à CEE? Era. Conduziu os primeiros processos políticos de acesso aos fundos comunitários, etc? Verdade. Mas não é honesto culpá-lo dos exageros cometidos pelos vários agentes da política económica e financeira. E foi mais social do que muitos socialistas
Ah: então e os anos mais loucos de todos, os de 95 em diante?
Quanto ao crédito fácil, também penso que a “culpa” foi dos “Reguladores” e dos políticos. De todos os quadrantes.
Repare-se na forma com agiu o “Banco” do Estado, a Caixa Geral de Depósitos (CGD) que, de uma Caixa de Aforro passou a Banco aguerrido, inclusive no crédito ao consumo. Tolamente.
Lembremos os grandes negócios onde a CGD se meteu sem necessidade e sem proveito. Alguns desses gestores deveriam estar a ser enxovalhados na praça pública mas estão, imerecidamente, em bons “poleiros”.
Quanto ao resto, gostei da transcrição que fez. Bonito texto.
A impunidade, somada aos discursos moralista de agora, é o que caracteriza a nossa «ética da república». Aquela de que o Pina Moura falava…
Não sei bem onde quer chegar…
Aproveito para lhe dizer que, parece-me, não está a ver bem a questão da agricultura portuguesa, sobretudo quando fala dos “brincos” e da PAC. Nesse aspecto, penso que o lucklucky está a ver melhor as coisas. Desculpe, mas é o que me parece
Ora essa: o debate é livre e a opinião também.
Quando falo de reguladores falo a nível mais alto. Quem diz qual o preço do dinheiro? taxas de juro.
BCE, FED, BoE, BoJ todos pressionados pelos políticos para olearem economia e a dívida com dinheiro fácil porque que precisam de ser reeleitos.
Os Governadores dos Bancos Centrais, instituições de falsa independência também vêm da mesma classe e também precisa de ser reeleitos aqui pelos seus pares…
É claro que como sabemos todos protestam quando as taxas de juros ficam longe de 1-2% : do CDS ao PCP, dos Republicanos aos Democratas, dos Conservadores aos Socialistas…logo as taxas de juros têm cada vez mais tendência para estar perto do zero…e fabricar bolhas de crédito. E bolhas nas bolsas já que se torna barato arriscar…
Depois ainda temos leis a beneficiar o negócio imobiliário, porque o imobiliário vai a todos, dá muitos empregos, dá muitos impostos para colectar…
Finalmente os países que se endividaram brutalmente, não foi por ordem de gente sem “educação”, sem “currículo”. Quem deu ordem para vender dívida nesta escala foi e é gente que estudou nas melhores universidades.