A ajuda do Financial Times Deutschland ao Syriza.


Luís Menezes Leitão,

 

O Financial Times Deutschland resolver intervir nas eleições gregas. Num artigo escrito simultaneamente em grego e alemão, intitulado “Combatam os demagogos” (Αντισταθείτε στo δημαγωγό /Widersteht den Demagogen) o FT Deutschland afirma que, tal como a maioria dos gregos, deseja que o país permaneça na zona euro e por isso permite-se fazer uma recomendação de voto. O jornal apela às “queridas gregas” e aos “queridos gregos” para que compreendam que apenas com os partidos que aceitam as condições impostas pelos credores internacionais o país permanecerá no euro. Por isso apelam a que se oponham à demagogia de Alexis Tsipras e do Syriza, e não acreditem na sua promessa de que pode denunciar os acordos internacionais sem qualquer consequência.

 

Curiosamente o jornal reconhece que a Nova Democracia é co-responsável por décadas de uma falsa política, que conduziu o país à actual miséria. Mas mesmo assim acha que o país ficará melhor com uma coligação liderada por Antonis Samaras do que com um governo de Alexis Tsipras, que se propõe arrepiar o caminho até agora seguido, pelo que apela aos gregos para que votem na Nova Democracia.

 

Quando soube deste artigo lembrei-me de um episódio semelhante em Portugal quando o jornal A Capital declarou na primeira página que apoiava John Foster Kerry nas eleições presidenciais americanas. A minha reacção foi de riso, imaginando o que pensaria George W. Bush se soubesse de semelhante apoio e quão preocupado ficaria com as suas consequências eleitorais. Mas hoje tenho uma opinião contrária. O gesto do FT Deutschland só pode favorecer precisamente um partido, que é o Syriza. Este partido não se vai impressionar nada com a acusação de demagogia, uma palavra grega que significa “a arte de conduzir o povo”. O FT Deutschland é que pelos vistos nada percebe desta arte, por que se a sua ideia era conduzir o povo grego a votar na Nova Democracia, vai ter provavelmente o efeito contrário.

 

Neste momento as minhas apostas para o fim-de-semana são as seguintes: A Grécia sai do euro (futebol) hoje e sai do euro (moeda) amanhã.

11 comentários em “A ajuda do Financial Times Deutschland ao Syriza.”

  1. Esses alemães são tão lineares, mesmo quando têm razão. A Merkel ou o FT deviam pedir ajuda aos portugueses quando se trata de manipular o povo. Temos, no país, imensos especialistas no assunto, sequiosos por mostrar valor. Esta posição de tentar convencer o povo grego a votar no quadrado certo pode ser contraproducente como lembra bem o autor do post. Quem pode subscrever esta tese é o Sarkozy que mereceu o apoio de Merkel na campanha com o resultado que se viu: uma coisa humilde chamada Hollande. Os alemães podem ser bons a fazer moinhos, mas são muito infelizes a levar água para o seu.

  2. Não sei se na Alemanha existem “jornais de tendência”. Certamente o FT estará fora dessa guerra. NMHO é inaceitável esta tentativa de ingerência nas decisões soberanas de um povo. Os povos têm direito a errar e a sofrer as consequências desses erros. Não o fizeram os gregos ao votar na Nova Democracia e PASOK ? Não assistimos nós ao contrário de tudo o que nos foi prometido pelo PSD? Isso retira-lhe legitimidade? Nem por sombras. Foram escolhidos por decisão soberana dos eleitores. É o neo-colonialismo alemão, parolo e endinheirado, que grassa por essa Europa fora, no seu pior. Imaginemos que a situação era a inversa, e que um jornal grego fazia um editorial bilingue a aconselhar os alemães a seguir o caminho Y. Embora os países intervencionados estejam numa democracia diminuída, felizmente, o direito a escolher o seu caminho, ainda não é exclusivo da Alemanha.

  3. Olha Luis penso o mesmo. Nem no euro nem com euros. O pior será o resto.
    Há países onde democracia e demagogia têm o mesmo significado!

  4. O verbo alemão widerstehen” significa “resistir” e não “combater”. Portanto o título Widersteht den demagogen deve ser traduzido por “Resistam aos (ou contra os) demagogos”.

  5. Caro Senhor Professor,
    Acho que se enganou nos dois prognósticos:
    Quanto à bola, funcionou uma equipa fraquinha mas cheia de ganas e treinada por um homem de provas mais que dadas, curiosamente português.
    Na política, graças a Deus – aos deuses, a Zeus, a quem quiser – funcionou o bom senso. Ninguém com bom senso – por muito que goste de ser enganado – poderia acreditar que um secretário-geral de um saco de gatos do equivalente grego do BE seria o homem certo para a fraca equipa que tem que gerir.

    Voltando à bola, vamos agora é ver quem sai do EURO depois de amanhã – se a Grécia se a Alemanha…

    1. O futuro é imprevisível. É isso que torna a nossa vida interessante. Mas as probabilidades caminhavam no sentido do que disse. Afinal a Rússia é mais forte futebolisticamente que a Grécia. E nas eleições gregas os partidos contra a “troika” tiveram a maioria dos votos. Se não fosse o bónus de 50 deputados ao vencedor, a composição do parlamento seria diferente. Como se diz na teoria do caos, um bater de asas de borboleta na China pode alterar a previsão do tempo em Nova Iorque.

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