Para os amantes do AO


Ana Vidal,

Declaração Mineira de Amor aos Amigos

Ceis são o colíri dos meus zói.
São o chicrete garrado na minha carça dins.
São a maionese du meu pão.
São o cisco no meu ôiu (o ôtro ôiu – eu tenho dois).
O rechei do meu biscoito.
A masstumate do meu macarrão.
Gosto dimais da conta docêis, uai.

Ces são tamém:
O videperfume da minha pintiadêra.
O dentifriço da minha iscovdidente.
Óiproceisvê,
Quem tem amigos anssim, tem um tisôru!
Eu guárdêsse tisouro, com todo carinho ,
Do Lado Esquerdupeito !!!
Dentro do Meu Coração!!!
GOSTO DOCÊ PADANÁ!!

Transcrevo aqui este delicioso texto “roubado” a um amigo brasileiro (mineiro) e dedico-o a todos os defensores do AO que acham uma boa ideia a submissão da grafia à fonética. É uma pequena amostra de como essa ideia resultaria na prática, se se impusesse a coerência de levá-la às últimas consequências. É fácil imaginar a Babel em que se transformaria o Brasil na comunicação escrita, para já não falar de todos os outros países de língua portuguesa. Uniformização da língua?? Deixem-me rir.

23 comentários em “Para os amantes do AO”

  1. O único “travão” que o “acordo” tem para que esse texto – aliás delicioso – não pudesse ser correcto ortograficamente, é o conceito de “norma culta” que apela para regimes autoritários o que, nos tempos de hoje, e em regimes democráticos e estados de direito é inaplicável. Quem definiria o que era a “norma culta”. Porquê? Que precisos elementos a constituíam em “norma culta”?

    1. É aí mesmo que bate o ponto, VSC. Tanta modernidade e tanta “evolução” para depois se cair em práticas ditatoriais que contradizem toda a argumentação que nos impingem. Essa história da “norma culta” é um beco sem saída…

  2. A Babel que se tornaria Portugal? Fala-me das diferenças fonéticas dentro das terras lusas. Fala-me do Porto e do “com” a latir na rua. Fala-me de Lisboa. Fala-me de Coimbra. Fala-me dos açorianos. Vai passar um dia à Nazaré e fala-me disso.
    Esse texto “roubado” é um argumento ridículo. Tal como a maioria dos argumentos contra o AO. Não foi com leviandade que aceitei o AO. Li de fio a pavio tudo o que havia para ler e formei a minha opinião. A trema foi retirada do Brasil com este novo acordo. É novo porque já tivemos o de 1990 e não vejo ninguém lutar contra isso. A trema já tinha sido retirada do português nos anos 90 e foi retirada agora da ortografia no Brasil. O que, a meu ver, é ridículo. A trema é uma acentuação fulcral na língua de Camões, ainda assim mantenho a minha postura em relação ao AO. Faz sentido. É a evolução que mantém uma língua viva e não podemos lutar contra ela. Tanto lutam conta o AO e argumentam que é um ultraje à tão bela língua camoniana. Quanto já mudou ela desde os tempos áureos do poeta? Deixem de ser obtusos e informem-se antes de exprimir uma opinião. A maioria de vós nunca sequer leu o acordo ortográfico e acredita que “facto” passou a escrever-se “fato”.
    Tenho dito, sem querer ofender ninguém.

    1. Tem razão: é a evolução que mantém uma língua viva. Sublinho: a evolução. Precisamente ao contrário do que se fez com o AO, que procura impor alterações por decreto. Abruptamente. Contrariando os pareceres científicos e, em muitos casos, o mais elementar bom senso (faz algum sentido que em Portugal se deixe escrever “recepção” em nome da ‘unificação’ ortográfica luso-brasileira quando no Brasil se escreve… “recepção”?)
      E já que nos chama “obtusos”, segue uma perguntinha perplexa: “a” trema? Isso já deve ser consequência do acordês. Os acordistas andam tão baralhados que já nem sabem como se escreve, como se diz nem o género das palavras.
      Vou dar três exemplos:
      1. “Já não sabem como se escreve”. Dois órgãos de informação pertencentes ao mesmo grupo empresarial adoptaram o acordês. Um escreve ‘sector’, outro escreve ‘setor’.
      2. “Já não sabem como se diz”. Ouvi ontem na rádio, num noticiário, duas vezes a palavra(?) “impato”. A jornalista deveria dizer “impacto”, mas depois da caça às consoantes ‘mudas’ abriu já a caça às sonoras.
      3. “Já não sabem o género das palavras”. Qualquer dicionário pré-AO explica ao comum dos mortais que trema é substantivo masculino. Eis que este nosso amigo acordista decide alterar o sexo da palavra. Esta nem lembrava ao malacaca…

      1. Não me lembro de ter dito que sou isento de qualquer erro. Estou-lhe genuinamente grato pela correcção, não fazia a mais pequena ideia e sou humilde o suficiente para o admitir.
        Mas diga-me lá: acredita mesmo que a evolução da língua foi assim tão natural? As línguas estão cheias de reformas e acordos nos tempos dos reinados em que “poucos” sabiam ler e escrever.
        E volto a dizer, mil novecentos e noventa.
        Isso de dizer “impato”, é absoluta ignorância. Impacto permanece intaCto. Há uma pequena regrazinha para respeitar as divergências fonéticas. Nalguns casos, é permitida dupla grafia.

        “c) Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres , dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro , concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção.”

        Retirado do acordo ortográfico de 1990. Diga-me, meu caro, qual o problema em escrever receção se já não era, efectivamente, errado?
        E informo-lhe que essa regra se mantém no NOVO acordo. Pode continuar a escrever “Recepção” que não estará a ir “contra” o AO.

        O ponto onde eu queria chegar era que este tipo de posts “desinformados” transmitem continuamente uma ideia errada a quem desinformado está. E esse argumento da “receção” só mostrou que tenho razão e que a maioria das pessoas nem se deu ao trabalho de se informar devidamente antes de formar uma opinião.

        1. O Pedro respondeu o que eu ia dizer-lhe. “A” trema?? Olhe, devolvo-lhe o argumento: que tal informar-se antes de emitir uma opinião? E, já agora, importa-se de explicar-me o que é exactamente uma “pronúncia culta”?

          1. Ana: Se bem me recordo, não discuti nem pus em causa a correção que me foi feita acerca d’ “A” trema. Saiba que “O” trema já não existia à data do meu nascimento. Não foi leccionado na escola e se “ouvi” falar dele é porque me interesso. Será a Ana capaz de se informar também e deixar de fazer posts que insinuam que o AO nos conduz, inevitavelmente, a um português “labrego”?
            Se esse é realmente o seu melhor argumento (“A” trema) para defender o que acha mais correcto, passe a palavra ao Pedro.

            Pedro:
            1. “Pronúncia culta” é uma coisa que até a mim me faz cócegas.
            No Brasil o segundo “C” de cacto é pronunciado; em Portugal não é. Agora imagine uma reforma ortográfica que estabelecesse o seguinte: os brasileiros continuarão a dizer caCto, mas escreverão cato porque em Portugal se diz cato e não caCto. Isto seria completamente absurdo, tão absurdo como obrigar os portugueses a escrever fato continuando a dizer faCto lá porque os brasileiros não dizem faCto mas fato.
            São duas pronúncias cultas pela qual a dupla grafia mantém o respeito.
            A meu ver, pronúncia culta é isso. As formas, já sabidas pelo mundo, de falar corretamente. Nunca se escreveria “São o chicrete garrado na minha carça dins.”, como usou a Ana para defender a sua opinião, porque isso não é uma pronúncia culta. Isso é o mesmo que começarmos a escrever “com” (ou até “comnhe”) em vez de “cão”, e “mãnhe” em vez de “mãe” em virtude do sotaque portuense.

            2. Com que então somos pioneiros no que toca a “impor” a evolução por decreto?
            Conhece a língua francesa? Sabe porque oitenta passou de “Octante” (huitante) para “quatre vingt”? Ou noventa passou de “nonante” para “quatre vingt dix”?
            Sabe que no final do Séc XX foi “decretado” que “cent trois” passaria a ser “cent-trois” em análise a “vingt-trois”. Já ouviu falar da Academia Francesa e de como mudaram a língua nos últimos séculos? Já ouviu falar dos incontáveis volumes distintos de dicionários tipo-acordo franceses publicados pela Academia nos últimos séculos?
            Diga-me, quando escreve “Farmácia”, lembra-se da reforma ortográfica de 1911 onde deixou de se escrever “pharmácia” e “orthographia”? Onde a ortografia portuguesa deixou de ser tipicamente etimológica para passar a ser fonética? Já lá vão cem anos, vamos lutar para abolir isso em bom nome do grande Camões já que somos tão a favor da evolução natural.
            Além disso, já viu onde a evolução natural da língua nos “extah” a levar? Já tive o prazer de ver professores apresentarem, em aula. textos “axihm” escrito por eles e: “desculpem, é o hábito”.
            Pessoalmente prefiro o AO ao que nos traz a evolução natural.

            3. Faz ideia de quantas vezes vi escrito “receção” em “português-brasileiro”? A pronúncia deles varia imenso dependendo da região. Para o Sul dizem “tu” em vez do tão já cliché: “você”.
            Não creio que nos afaste assim tanto como nos afasta a sintaxe.

            4. Ao abrigo do mesmo artigo de “receção” e “recepção” está “seCtor” e “setor”.
            Seria, mais do que lógico, que os órgãos de informação escrita fossem mais coerentes e estivessem uniformizados. O que acontece é que, com todo o panico que gerou o AO às pessoas que recebiam meias informações, também há informação errada dentro desses orgãos. Não me hei-de esquecer de ler, num jornal que não recordo o nome, que de “faCto” passaríamos a escrever “fato”. E que “paCto” passaria a ser “pato”. Quanto rídiculo será que os tais orgãos da informação escrita digam tal barbaridade? Será possível acreditar que alguém como o célebre Prof. Lindley Cintra, envolvido no AO de 1990, poderia sequer pensar nisso? Refiro-me aqui ao AO de 1990 porque o artigo em causa não sofreu alterações.

          2. João Moreira, eu passo a palavra quando e a quem eu quiser, não preciso de ordens suas e muito menos de tutores. Perguntei-lhe o que considerava “pronúncia culta” e a sua resposta – dada por intermédio do Pedro, note-se – é confusa e pouco convincente. Enfim, dispenso o seu tom paternalista e arrogante (com um inconfundível cheirinho machista) e lamento que não tenha percebido o meu post. Dediquei-o aos amantes do AO, mas só àqueles que têm sentido de humor e sejam capazes de entender uma ironia. Não a quem se leva demasiado a sério e está mais preocupado em exibir os seus vastos conhecimentos linguísticos (não tão vastos, no entanto, que não deixem escapar vários erros de sintaxe, de acentuação e de pontuação, além de uma inquietante alternância no uso das grafias nova e “antiga”). Passe bem.

          3. Faltou dizer que as pirâmides do Egipto também já não existiam quando eu nasci, facto que nunca me impediu de saber para que serviam.

          4. Essa é boa. Onde é que estudou português? Mas talvez a pergunta mais importante, afinal, seja esta: “Que idade tem?”

          5. 1. Respondi ao Pedro, não por intermédio dele. Apenas achei redundante responder duas vezes à mesma pergunta sabendo que iria ler o meu comentário.

            2. Machista? Não. De todo. Até se engana redondamente na pessoa que acusa. Não foi por machismo que lhe respondi assim, mas sim porque não me apresentou qualquer argumento para defender o que escreve. Em vez disso, atirou-me com “a” trema para cima, mesmo depois de isso ter sido esclarecido. Mas é tão típico das mulheres usarem o machismo como defesa. Agora sim! Chame-me lá machista! Agora até mereço. Talvez.

            3. Eu tenho imenso sentido de humor. A transbordar por todos os orifícios do meu corpo! São essas críticas de meia tigela cheias de humor que levam as pessoas a terem uma ideia errada das coisas. Neste caso, do AO.

            4. Os meus conhecimentos não são tão vastos assim, concordo plenamente. Mas não são tão maus como os quer pintar, garanto. E, em vez de me acusar tantos erros, corrija-mos para que eu aprenda. Isto se, de facto, eu der tantos erros assim.

            5. Alternância das grafias? Indeed! Eu próprio tenho dificuldades em adaptar-me. Disse que concordava, nunca disse que era fácil.

          6. Merece, sim. Acabou de confirmar o seu machismo com esse belo argumento “é tão típico das mulheres usarem o machismo como defesa”. Não faz sentido usá-lo, até porque não vejo em que precisaria de defender-me de si.
            Quanto aos erros, teria de fazer um levantamento exaustivo nos comentários que escreveu, que são longos. E não me apetece.

          7. Onde foi parar o sentido de humor agora?
            Nunca disse que tinha de se defender de mim. Teve, no entanto, necessidade de afirmar que não precisa de se defender de mim. Não se sinta ameaçada, não mordo.
            Pois, não lhe apetece. A sua falta de argumentos é avassaladora.
            Tenha um bom domingo.

        2. 1. Ainda bem que traz aí essa citação do AO que menciona a “pronúncia culta”. Já tive ocasião de escrever aqui sobre esse disparate. Seja lá o que for “pronúncia culta” (você faz ideia do que é?), travesti-la de critério científico para impor este ‘acordo ortografico’ – afinal nada mais que uma transcrição fonética canhestra e atamancada – é pura desonestidade intelectual.

          2. Pense: se um “acordo ortográfico” fosse requisito essencial para a evolução das línguas por que motivo os países que usam o inglês como língua oficial não celebram um acordo desses? Ou os de língua francesa? Ou os de língua castelhana? Em alguma coisa haveríamos nós de ser originais: impor a “evolução” por decreto. E ainda há quem bata palmas.

          3. Ora bem. Chegamos então à famosa “dupla grafia”. Coisa fantástica. Um acordo cuja única razão de ser é procurar “unificar” o idioma na sua norma escrita institui afinal centenas ou milhares de palavras com grafia dupla (e até tripla, como acontece em ‘ruptura’, ‘rotura’, ‘rutura’). Diz você que pode continuar a escrever-se “recepção”. Claro que pode. Eu, por exemplo, não deixei nem deixarei de escrever. Mas veja aí esses jornais apressadamente escritos em acordês, ou a agência Lusa: lá está a famigerada ‘receção’ (fantástica palavra!) que nos condena afinal a ficarmos ainda mais longe dos brasileiros em termos ortográficos. Como já acontece no domínios do vocabulário e da sintaxe, já para não falar da pronúncia, “culta” ou inculta.

          4. Extraordinário. Fala você em desinformação, mas eu devolvo-lhe a questão: quem está “informado” nesta matéria? Porventura já terá sido publicado sem eu saber o novo vocabulário ortográfico da língua portuguesa prometido no AO que elimina todas as dúvidas? Ou isto vai lá por palpite? O que possibilita, como já lhe referi, que dois órgãos de informação escrita pertencentes ao mesmíssimo grupo editorial escrevam a mesma palavra de formas diferentes. Unificação? Qual unificação?

          1. Ana: escrevemos ao mesmo tempo e, por coincidência, fazendo a mesma pergunta. Sobre a pronúncia ‘culta’, que ignoro totalmente o que seja. Ainda percebo o que é pronúncia ‘curta’ – o equivalente à gaguez. Mas talvez este nosso simpático leitor, por sinal nada obtuso, acabe por nos elucidar.

          2. Pois foi, escrevemos ao mesmo tempo e praticamente o mesmo! Também tenho esperança de perceber o que é a tal “pronúncia culta”. E sobretudo quem a define.

  3. Olá, Ana,
    Tenho imensa pena de chegar tarde ao post e à discussão. Mas mais vale tarde que nunca.

    Se reparar bem, uma das inconsistências dos opositores ao AO é esta: às vezes dizem que o AO é uma concessão à fonética (como a Ana faz no post); outras vezes dizem que o AO afasta a ortografia da fonética (por exemplo; pára/para, céu/ceu, e ainda a eliminação das mudas que, supostamente; teriam um valor diacrítico, logo fonético). Então, é uma coisa ou é a outra?

    Deixo-lhe ainda outras perguntas:

    O que é que textos mal escritos no Brasil, em Portugal ou em Timor têm a ver no tempo, no espaço e no conteúdo com o AO?

    O facto de usar um texto brasileiro cheiro de erros de ortografia em vez de um texto cheio de erros de ortografia com traços fonéticos beirões, ou minhotos, ou alentejanos, ou lisboetas, ou algarvios, ou madeirenses, ou coisas como muito nacionais e mais simples como “tramossos” e “bende-se” pode ser considerado como uma expressão de ódio ao Brasil e aos brasileiros?

    Porque não usou trechos de livros de Machado de Assis, ou de Jorge Amado, ou José Mauro de Vasconcelos fundamentar os erros do AO?

    1. Olá, P. Porto. Vou tentar responder às suas perguntas.

      Uma expressão de ódio ao Brasil e aos brasileiros??? Que estranha leitura. Pelo contrário, gosto muito do Brasil e dos brasileiros. Mas eu sei que percebeu perfeitamente a minha intenção. Usei este texto cheio de erros ortográficos (aliás propositados, porque foi escrito por quem não os faz habitualmente) como poderia ter usado qualquer outro do mesmo género, de Portugal, do Brasil ou de outro país de língua portuguesa. Mas ele é uma transcrição literal do linguajar (oral, portanto) de uma determinada região de um determinado país, e é isso o que eu quis demonstrar: se passássemos a escrever como falamos (e a lógica da supremacia da fonética é um argumento dos defensores do acordo, não dos seus opositores… não é essa a intenção ao suprimir as consoantes mudas, consideradas inúteis “porque não se lêem”?) a comunicação escrita seria uma Babel.

      As inconsistências, na minha opinião, não estão na argumentação dos críticos mas no próprio AO, que acaba por contradizer-se com critérios divergentes.

      Finalmente, mesmo nos livros dos grandes escritores brasileiros que cita há inúmeras expressões populares locais, o que só os engrandece. A diversidade é uma das grandes riquezas da nossa língua. Este texto é uma caricatura, mas é também uma homenagem a essa diversidade. A pretensão de unificar a língua parece-me, além de utópica, muito redutora dessa riqueza.

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