Contrariando olimpicamente a ancestral aversão nacional à alegria, os presságios de pestes negras, misérias pardas e um sortido rico de desgraças a bater-nos à porta (para não falar das que já se instalaram, abusadoras, nos nossos descoloridos sofás, pagos a prestações em tempos de vacas anafadas), as estatísticas e previsões de arrepiar os cabelos a quem ainda os tem, a troika, a crise do euro, as escandaleiras para todos os gostos, a falência da segurança social, a lamúria das salas de espera dos centros de saúde, o galope do desemprego, o tédio da conversa de políticos e economistas, as trapaças dos chicos-espertos, a miséria dos programas televisivos, as íntimas misérias de condes de papelão e estrelas (de)cadentes, o fado choradinho de faca e alguidar, o copo-de-três mal medido, o cheirinho, o mata-bicho, a bica pingada, a fome envergonhada, a fome sem-vergonha de poder e lucro, o crédito mal parado, a justiça parada de vez, o imparável apertar do cinto… ah, eles aí estão, indiferentes a tudo, vestindo as ruas de um azul descarado e eufórico. Azul-alfazema, azul-Quénia, azul-violeta, azul-lavanda, azul-anil, azul-lilás. Eu chamo-lhe azul-Leonor, como me ensinou a minha avó. A minha cor favorita.
Texto já publicado aqui (actualizado)


Gosto muito deste teu texto, Ana, apesar de ter sido acometida por uma virose de pessimismo. E claro que o azul-Leonor me faz orgulhosa :))))))
Se os jacarandás vestirem o nosso pessimismo desta cor gloriosa por umas semanas, já não é mau de todo. Tudo o que contrarie e ilumine a tristeza instalada é bem-vindo, Leonor.
E já te disse… esta cor fica bem a morenas! 🙂
A D. Carlos I está nesta altura, integralmente vestida deste violeta forte.
Quem subir aquela artéria da capital, em direcção ao Largo de S. Bento, gozará de um privilégio colorido esfusiante incomparável, não sendo possível na Capital, encontrar outro que se lhe assemelhe.
Espero que, perante esta edílica imágem, não se sintam os inquilinos de S. Bento, convencidos de que Portugal e os Portugueses habitam um imenso jardim de jacarandás floridos…
Por aqui não tenho jacarandás mas contento-me com a glicínia perfumada à porta de casa 🙂 Já nem é pessimismo, é mais desesperança.
Gosto de azul e deste anilado também, Ana.
Então Leonor? vamos lá a atacar essa virose…precisamos dos seus textos…please….
Por um momento fixe os jacarandás da Ana, fixou? agora respire fundo 3 vezes…de seguida feche os olhos e pense numa imagem assim para o extraordinário, um sítio onde foi e adorou ou outro que descreva com a sua imaginação.
Mais tarde eu volto para saber resultados. 😉
Ana mergulhei nesse Azul penetrante e descobri por um momento que vivia num sitio diferente, longe longe daqui…
Fez bem, Cr. É preciso evadirmo-nos de vez em quando, o excesso de realidade mata tanto quanto a incapacidade de enfrentá-la… 🙂
(o exercício que recomenda à Leonor é o mesmo que faço no Yoga, para relaxamento e meditação. garanto que os resultados valem a pena)
Muito obrigada, cr, os meus textos também espelham essa desesperança ultimamente, mas fico sensibilizada plo seu carinho. É por comentadores como a cr que este blogue vale a pena 🙂
Beijinhos
Vou já passear-me na Barata Salgueiro. Que pena, e de tal modo rimando com o pathos do teu texto, que eles sejam tão efémeros.
Zé, eu cada vez valorizo mais o efémero. E este, pelo menos, volta sempre. 🙂
Mas olhe com atenção, cara Ana. A cor é violeta: ke_kati/ r)
http://bioweb.uwlax.edu/bio203/s2008/tac
.
Violeta (também há quem diga roxo) como as pisaduras de Cristo:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Violeta_(co
Mas, Zedeportugal, o violeta não é uma cor primária… é uma mistura a partir do azul, que pode ter infindáveis variantes. Todas bonitas, aliás. O roxo é diferente, tem muito mais vermelho e muito menos branco. 🙂
Roxo, Senhor dos Passos ( sans blague …) … não é a minha côr de eleição, mas os jacarandás são bonitos…e não sei se a Ana recorda as belíssimas olaias em flôr, da Avenida das Portas do Sol, lá pela velha Scálabis…
Esta velha Scálabis, onde moro, definhou. Só com muito esforço se lhe encontra alguma beleza. Uma pena. Cumptos.
Maria, não vou a Santarém há algum tempo. Mas a parte antiga da cidade continua a ser muito bonita, com uma densidade de belas igrejas por metro quadrado que não é vulgar… 🙂
É bem verdade, mas os espaços à volta são pouco atractivos e de algum abandono o que invariavelmente afasta as pessoas. A zona histórica tornou-se deserta e sem encanto.
Pois, infelizmente acontece isso com demasiada frequência neste país. É pena.
Recordo, pois. E em casa dos meus pais havia uma glicínia (ainda lá está, eles é que não…) deslumbrante, a cobrir toda a fachada da casa, mesmo da cor dos jacarandás. Mas lilás não é roxo, insisto.
Ora aqui temos nós um texto saudável! A a cor fica bem às morenas, sim, embora, como muito bem diz o fernando antolin, seja inevitável a analogia da Quaresma 🙂
É um texto com efeitos auto-terapêuticos, Ivone. 🙂
Minha querida Ana
Adoro esta cor e passo quase diariamente na D. Carlos. Hoje parei a olhar as árvores carregadas. Foi uma nesga de serenidade que tu acabas de avivar.
Benditos jacarandás, efémeros como a vida e alguns amores. Mas que se olham, sempre, como se fosse a primeira vez.
Bem hajas por mais este belo texto!
A D. Carlos I é um verdadeiro esplendor nesta época, Helena. Tanto nas árvores como no chão, que fica um tapete de flores. Os jacarandás fazem bem à alma, são como tu… 🙂
Acordaram, então, os jacarandás? Ainda bem. Porque ainda há poucos dias me queixei do atraso deles. Mas ontem já encontrei um em Faro a começar a florir.
Acordaram, Gi. Vieram com o calor!
Excelente post, Ana. Texto e imagem.
Obrigada, Jaa.
Gosto, gosto muito!
Gosto sempre do ‘jacarandá lilá’.
beijo
🙂 Eu sei, eu sei.
Beijim, miúda.