Grandes contos (16): Cortázar


Pedro Correia,

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«Yo no soy un hombre, ni un poeta, ni uma hoja, /

pero sí un pulso herido que sonda las cosas del otro lado»

García Lorca

 

Júlio Cortázar (1914-84), um dos maiores escritores latino-americanos de todos os tempos, costumava comparar a prosa de ficção ao boxe: «O conto deve ganhar por knock-out, enquanto o romance deve vencer aos pontos.»

Ele foi o primeiro a aplicar esta teoria. Exímio na arte do conto, deixou-nos várias obras-primas do género em livros como Bestiario (1951), Final del Juego (1956) e Las Armas Secretas (1959). Obras-primas na técnica e na temática, inovadoras ao nível da estrutura narrativa, muito influenciada pela imagens caleidoscópicas do cinema e pelos mais diversos géneros musicais.

Cortázar, que chegou a tocar piano e saxofone, garantia que «se pudesse escolher entre a literatura e a música escolheria a música». O som das palavras é fundamental no seu sofisticado estilo literário: analogias e metáforas sugerem a melodia, aliterações marcam o ritmo e o compasso. Não por acaso, o seu primeiro livro de poemas incluía uma secção intitulada “Prelúdios e Sonetos”, enfatizando o estreito vínculo que une a música à literatura.

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Los Buenos Servicios (intitulado Os Bons Serviços na edição portuguesa de 1984, intitulada Blow-Up e Outras Histórias, com chancela Europa-América e tradução de Maria Manuela Fernandes Ferreira) é daquelas histórias que, na definição do próprio Cortázar, «funcionam como sementes de grandes árvores que vão crescendo e nos perduram na memória». Escrito na década de 50, quando este argentino nascido em Bruxelas vivia já no seu voluntário exílio parisiense (vindo a receber a nacionalidade francesa na década de 80, pouco antes de morrer vítima de leucemia), é um conto originalíssimo, relatado na primeira pessoa do singular, sobre uma viúva idosa e pobre que um dia é contratada para tomar conta de uns cães mimados durante uma festa numa casa onde o luxo impera e as convenções sociais mal disfarçam uma atmosfera onde escasseiam os afectos e sobra a mentira.

Madame Francinet estabelece uma intensa cumplicidade com o leitor enquanto nos introduz, através das suas palavras ingénuas, neste hipócrita mundo de sombras que lhe é tão alheio, descrevendo-o sobretudo através de cores e aromas: «Só pelo cheiro se notava o luxo e também pelas alcatifas, tão fofas.» O mordomo tem patilhas cinzentas, a luz é amarela, o dono da casa surge-lhe com cara verde. Da janela coa-se uma luz cor-de-rosa. E há um estranho visitante muito jovem «todo vestido de branco» e com «uns dentes perfeitos e as mãos mais brancas num homem» que ela jamais observou.

Um mundo de máscaras onde ninguém a olha nos olhos. Madame Rosay, a senhora que a contratou, tem uma «maneira de fazer perguntas um pouco para fora da pessoa, como se perguntasse a um bengaleiro ou uma porta». Monsieur Rosay – que a contrata uma segunda vez, num contexto bem diferente, quando os risos dão lugar às lágrimas e a hipocrisia se acentua – «olhava para onde quer que fosse de modo a não se encontrar com os meus olhos». Um mundo oposto ao de Madame Francinet, nesta sátira quase doce – mas nem por isso menos corrosiva – à alta burguesia parisiense onde quase nada é o que parece e os cães chegam a receber melhor tratamento do que os seres humanos.

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Num conto, ao contrário do que sucede num romance, o tempo joga contra o escritor. Tensidão e intensidade são ingredientes fundamentais: Cortázar domina-os, com inegável mestria. E vence por KO. Os Bons Serviços – um dos cinco contos, todos excelentes, inseridos em Las Armas Secretas – é daqueles que nos perduram na memória.

Sentimos Madame Francinet como uma velha tia da província em contínuo e acelerado assombro perante o espectáculo do mundo, repetindo para si própria uma vez e outra: «Quando vejo alguma coisa esquisita pergunto-me com todas as letras se não estarei sonhando.»

A realidade depende do modo como a encaramos. É sempre possível olhar sem ver. E é sempre possível ultrapassar as aparências, com «um pulso ferido que sonda as coisas do outro lado».

Anteriores contos desta série:

Amor numa Rua Escura, de Irwin Shaw

Nevoeiro na Cidade, de Mário Dionísio

Empresta-nos o Seu Marido?, de Graham Greene

Um Cântico de Natal, de Charles Dickens

13 comentários em “Grandes contos (16): Cortázar”

    1. Enquanto relia este livro que comprei em meados da década de 80, pensei como são falíveis e caprichosos os juízos da moda, Laura. Há 30 anos, Cortázar era um autor “incontornável” (para usar um detestável termo actual). Hoje parece que ninguém o leu e que ninguém o lê.
      Não vejo uma só obra dele disponível nas nossas livrarias.

  1. Ao ler o texto sobre a senhora idosa que foi contratada para tomar conta de cães, veio-me à ideia uma conversa com uma amiga, ainda esta semana.
    Sou estudante do ensino superior e para poder financiar o meu curso, tenho procurado conciliar estudos e trabalhos o que (mais ou menos) tenho conseguido.
    Acontece que, preferencialmente, prefiro trabalhos em part-time (quer dizer, já nem prefiro que eu desde baby-sitting a limpeza de prédios já fiz tudo, desde que seja um trabalho honesto: eu faço) relativos à infância, porque serei educadora-de-infância.
    Há coisa de 2 meses, talvez, fui contactada por uma senhora para tomar conta dos seus cães…
    Meu Deus, pessoas que pagam para que os cães estejam acompanhados e sejam bem tratados (o que concordo plenamente) e tantas crianças vítimas de violência!
    Enfim, perdoe-me este longo desabafo/comentário mas, de facto, acho que percebo quais os pensamentos da senhora idosa de “Os Bons Serviços”

    Vânia Edite Vieira Batista

    1. Acertou em cheio no espírito do conto, Vânia. Agradeço que tenha partilhado connosco essa sua experiência. E espero sinceramente que consiga tudo quanto deseja. Espírito de iniciativa e capacidade de lutar não lhe faltam, o que é meio caminho andado.

  2. Esta tua série continua de primeira água, Pierre.
    Adoro contos como sabes e, então, Cortázar é tão cá de casa 🙂
    A epígrafe de Lorca, outro dos “meus”, foi muito bem escolhida.
    Dizes uma coisa importantíssima: no conto, o autor tem de manter o tempo à rédea curta. Caso contrário, arrisca-se a ser vencido por ele.

    1. Isso mesmo, Ivone. O bom contista trava uma guerra simultânea contra o tempo e contra o espaço. E só será bem sucedido se vencer nestas duas frentes. Cortázar – que sabia do que falava, pois foi também romancista, por exemplo com ‘Rayuela’ (1963) – costumava dizer que o contista trabalha “na vertical”, condensando e comprimindo a acção. “Quando falha, é essencialmente devido a questões técnicas, não de enredo.”

  3. Cortázar é um dos responsáveis por eu gostar tanto deste género. Ainda hoje o seu conto “A auto-estrada do Sul” continua no top das minhas preferências. Um autor extraordinário…

  4. Esta concepção de conto me levou refletir sobre aquilo que Octávio Paz diz sobre a arte em geral : como aquilo que nos leva a conhecer o outro lado da realidade e também ao texto da canção Les uns et les outres :
    ‘’ Si chacun est l’autre pour l’un Se cada um é o outro para alguém
    Rarement il est l’un pour l’autre Raramente ele é alguém para o outro
    Malgré tous les discours Apesar de todos os discursos
    Les appels au secours dos gritos de socorro
    Des autres. Des autres. Dos outros. Dos outros

    ‘

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