Page Not Found


cronicasnofeminino,
Sete e vinte da manhã. O despertador toca, o despertador do telemóvel. Nos tempos modernos os despertadores despertadores tornaram-se bichos obsoletos e é mais fashion ter o Blackberry a acordar-me.  Há que manter o estilo. Clico no dismiss, ‘a língua inglesa fica sempre bem’ e levanto-me. Pés no chão, um de cada vez, ter os pés assentes na terra tem-me custado muitas palpitações nos dias que correm, ponho os óculos, sim, esta que vos escreve é míope mas que isto não vos sirva de desculpa para defender ‘certas e determinadas’ pessoas, outra expressão de que gosto, arrebanho umas calças do roupeiro, um blazer azul escuro, um colar tipo Carmen Miranda, não quero parecer fúnebre aos meus alunos, uma série de outras peças de roupa a cujos detalhes vos poupo e rumo à casa de banho. Lavo o manto da noite num revigorante duche matinal e desço as escadas acompanhada da Julieta, uma das madrugadoras, as outras gatas reservam-se o direito de longos e preguiçosos sonos devido à idade vetusta e respeitável. Depois de um pequeno almoço frugal acompanhado das notícias matutinas, hábito que vou ter de perder se me quiser poupar uns anos, pego no carro que me guincha com falta de gasolina e grita-me em letras vermelhas NÍVEL DE COMBUSTÍVEL BAIXO. Temos pena. Chego à escola. Está lá ainda. A bela da escola azul-cueca. Entro aos bons-dias, subo à sala de professores, tiro a chave da sala C7, lê-se no garrafal porta-chaves, dirijo-me à sala e dou graças aos deuses por ainda lá ter o meu emprego. Com as manobras na penumbra deste governo chegará o dia em que Leonor Barros será uma entrada vã no sistema aliviado por se ter visto livre de mais um fardo e eu, como tantos outros, serei uma página em branco, quem sabe décadas de trabalho arrumadas numa página em branco, amarfanhadas como lixo num qualquer cesto dos papéis tecnocrata, um url perdido na voracidade destes tempos para os quais me faltam adjectivos. PAGE NOT FOUND. 

18 comentários em “Page Not Found”

  1. Gostei muito do seu post. O seu penúltimo parágrafo descreve exactamente o que senti nos meses que antecederam a minha retirada da escola e não era este o governo, era o outro! Continuamos a não ser estimados e muito menos reconhecidos pelo nosso contributo. Apesar de tudo, há dias duma profunda saudade, sobretudo no que toca ao convívio com os alunos, alguns colegas e à prática lectiva propriamente dita. Cumptos .

  2. Mais um dramazito de funcionário público que pensava que tinha sempre tudo garantido à custa de quem quer que fosse (entre os quais, aqueles sem ADSE e sem salário certinho ao dia 22, às vezes mesmo sem salário algum assim de repente…); haveria sempre mais um imposto, mais uma taxa, mais um endividamento para ajudar a pagar os ditos direitos adquiridos de alguns, não era? Que maravilha!! Esse mundo, infelizmente, ainda não acabou, mas já esteve mais longe. Temos pena.

      1. Os únicos comentários que aceita realmente são aqueles em que se louva o que escreveu e se lhe dá palmadinhas nas costas, é isso? Quanto aos outros, aqueles que são críticos mas em que não se falta ao respeito, na sua resposta há sempre uma má educação mais ou menos explícita, que lhe fica muito mal, para mais sendo professora.
        Creio que deveria ter mais “fair play” e aceitar opiniões diferentes, que são apenas isso, diferentes; onde imagina ver ressabiamento (como?!, porquê?!), está apenas uma outra perspectiva sobre um assunto que muitas pessoas já estão cansadas de ver abordado numa perspectiva “calimeriana”.
        Compreendo que custe ficar sem 13º e 14º mês, mas transformar isso na maior injustiça do mundo, parece-me totalmente descabido; ao fim e ao cabo, o seu patrão é o único que, em situação de falência, consegue continuar a pagar o seu salário (pelo menos, 12/14 dele) e a assegurar o seu emprego, e isso é, quanto a mim, um privilégio.

        1. Se tivesse lido os comentários mais abaixo e tendo em conta o seu próprio comentário facilmente veria que não, não publico apenas os comentários agradáveis, mas sim, reservo-me o direito de não publicar comentários que contenham ofensas á minha pessoa ou a terceiros. Acontece que tenho vida além do blogue e que evidentemente só ‘liberto’ os comentários quando o tempo me permite. Tenha calma. O mundo poderá lê-lo, já o está a ler.
          Quanto ao resto, num texto intimista, uma reflexão apenas, responde-me com as habituais acusações, lugares-comuns apenas, de que a função pública tem sido alvo. Diga-me, em que momento do texto, eu digo que sou funcionária pública? Treslê o que escrevo e num tom declaradamente de desprezo aproveita para debitar o ódio habitual.
          Poupe-me ao tom paternalista sobre faltas de educação. Não lhe admito.

  3. Leonor, esse seu começo de dia, parecia auspiciar uma grande aventura, mas eis que ao rematar com o PAGE NOT FOUND vaticinou afinal o destino de quase todos nós.
    A diferença entre o bem estar e a fatalidade pode ser de um ínfimo milésimo de segundo que aqui foi um pouco mais, ou seja o tempo de chegar ao fim do seu texto.
    PS. não se esqueça do combustível…

  4. Narrativa de uma burguesasinha de blackberry em punho e nariz empinado.
    Existe espelho lá em casa?
    E televisão, rádio, jornais?
    E Cidadania responsável, sabe o que é?
    Acho que lhe fazia bem uma passsagem pelo IEFP e um subídio de desemprego à maneira e limitado, como de resto acontece à generalidade dos Cidadãos.

      1. Ai Leonor, a ” Maria ” queria tanto ter um Blackberry…

        mas digo-lhe já que não é uma ” Maria “, é um gajo camuflado, vê-se a léguas, altamente traumatizado por não ter um Blackberry!

        Apostava!

        1. O traumatismo é tão grande que nem consegue entender uma ironia e isso é que é dramático, cr. Podia ter-lhe falado do Mac, os burgueses como eu tratam assim ‘tu cá, tu lá’ estas maravilhas da tecnologia, do iPod, iPad, iPhone, eu sei lá, mas nos últimos tempos cá em casa usamos muito o iAminhaVida.

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