Os filmes das nossas vidas (1)


Pedro Correia,

 

CASABLANCA: AMOR E LIBERDADE

 

A retórica antinazi datou irremediavelmente muitos dos filmes americanos produzidos no tempo da guerra (1939-45). Até Chaplin, o mestre do mudo, caiu nesta armadilha na célebre cena final do seu O Grande Ditador (1940) – e foi quanto bastou para se perder uma obra-prima. Inversamente, o que faz a força perene de Casablanca (Michael Curtiz, 1942) é o facto de jamais ser um filme de propaganda óbvia ao esforço aliado no combate sem tréguas contra o III Reich. E no entanto não conheço outra película tão eficaz no apelo subliminar ao envolvimento de Washington no conflito. Numa cena poucas vezes mencionada, Richard Blaine (Humphrey Bogart) pergunta ao pianista Sam (Dooley Wilson) que horas seriam em Nova Iorque. Pergunta aparentemente sem nexo, mas logo justificada pelo comentário adicional de Blaine: “Está toda a gente a dormir na América.”

 

É uma frase emblemática. Corria o mês de Dezembro de 1941, eram as vésperas de Pearl Harbor, os americanos viviam ainda embalados pelo sonho da neutralidade que Philip Roth tão bem retrata no seu romance Conspiração Contra a América. Mas Blaine, o cínico Rick, dono do bar do mesmo nome em Casablanca, já se havia antecipado ao curso da História. Em 1935 fizera chegar armas aos abissínios que lutavam contra Mussolini, no ano seguinte ingressara nas Brigadas Internacionais em defesa da República espanhola. Ao contrário do que aparentava, era um homem de causas e capaz de se envolver até ao limite por elas. Esta dimensão política de Casablanca, que se me tem revelado em sucessivas revisões do filme, ultrapassa claramente as malhas do melodrama a que muitos gostariam de vê-lo confinado. E se algo sobrevive ao malogrado romance entre Rick e Ilsa Lund (deslumbrante Ingrid Bergman) é precisamente a batalha decisiva em que ambos apostam, também em nome do amor – neste caso, do amor à liberdade.

 

“Agora só luto por mim. Sou a única causa que me interessa”, diz Bogart a Victor Laszlo (Paul Henreid), tentando aparentar cinismo por uma última vez. Nesta fase já ninguém acredita em tal fachada: há uma dimensão moral em Rick que de todo não existe no dúplice capitão Louis Renault (Claude Rains), sempre virado – nas suas próprias palavras – para “o lado de que sopra o vento”. O “vento” daqueles tempos era o do cobarde colaboracionismo de Pétain – o velho marechal que se rendeu a Hitler e que surge em cartaz, no início do filme, contra o qual é assassinado um suposto membro da resistência francesa.

Bogart, o aventureiro de passado sombrio, e Bergman, a mulher dividida entre dois homens, não são figuras sem mácula, ao jeito dos “heróis exemplares” que o realismo socialista fornecia às massas. São gente de carne e osso, com os mesmos defeitos de qualquer de nós – e daí o facto de, tantos anos volvidos, continuarmos a identificar-nos com o destino deles. Rick, que jurava “não arriscar o pescoço por ninguém”, proclama afinal que o futuro do planeta importa bem mais do que “três pessoas insignificantes”. Ilsa, incapaz de voltar duas vezes costas à mesma paixão, segreda-lhe: “Terás de ser tu a pensar por nós.”

 

Rick assim faz. Entre o amor sem sombra de liberdade e a liberdade sem garantia de amor, optou por esta. Como se conhecesse os belíssimos versos de Sophia: “Terror de te amar num sítio tão frágil como o Mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e separa.”

Esta é talvez a maior lição que aprendemos em Casablanca: o verdadeiro amor é sinónimo absoluto de verdadeira liberdade.

 

30 comentários em “Os filmes das nossas vidas (1)”

      1. Concordo que são versos muito muito bonitos, comoventes. Ainda os tinha relido há uns dias! Mas confesso que nunca os tinha ligado ao final do filme! Embora conheça bem o filme, não sou cinéfila (whatever…)

        :))

    1. Teresa, é o início de uma série em que cada um de nós poderá falar do filme da sua vida. Há dias sugeri isso numa caixa de comentários. Passei da sugestão à prática.

  1. Já muito se escreveu e se falou sobre este filme emblemático, sem dúvida também um dos “filmes da minha vida”. Mas a originalidade desta tua abordagem, com a associação a um poema da Sophia MB – também ela um dos “poetas da minha vida” – faz-me ver que nunca está tudo dito, sobre nada. Felizmente.

    1. Pena que a frase em si, tal como a escreveu, não seja dita no filme. Mas é também um dos prazeres do filme, ser conhecida (também) por uma frase não existente… 🙂

    1. Obrigado, Sofia. Este é um filme da vida de muita gente, de diferentes gerações e formações ideológicas, pelos motivos mais variados. De alguma forma torna-se ainda mais interessante por este motivo. A isto chama-se um clássico: nunca passa de moda.

  2. O João tem razão. The Geat Ditactor é quase perfeito… porque perfeito é Casablanca, Pedro. Perdi a conta às vezes que o vi.

    1. Também eu, Mike. Embora só o tenha visto uma vez no ecrã gigante – no Grande Auditório da Gulbenkian. E em cada vez que vejo este filme descubro uma coisa nova nele.

      1. Compadre, lembras-te de um estupendo restaurante em Hong Kong, sobre Aberdeen, com decoração das “Mil e Uma Noites”, onde havia um trio (de piano lacado a branco) que abria sempre com esse tema?

  3. A essa dimensão política do filme não escapa o facto de não ter havido um argumento definido. O argumento, segundo me lembro, era apenas uma ideia e os diálogos e as cenas iam sendo escritas à medida que o filme ia sendo feito. Creio que existe aí uma dimensão, digamos, “jornalística”, que é fundamental na mensagem.

    Gosto particularmente da cena em que os nazis são afogados pela marselhesa.

    Quanto à capitão Renault, é bom recordar que el se virava apenas para onde sopravam os ventos e que é também por isso que, no fim, acaba por trocar de lado. Penso que será mais por cinismo. Há realmente um traço de romântico nele, mas creio que, ao ver Victor Laszlo a partir e um homem como Rick a empenhar-se tanto, ele acaba por se convencer que os nazis acabarão por perder.

    Um belo filme, daqueles que nunca me canso de ver.

  4. Um excelente filme, sem dúvida.
    Fez-me aprender a cantar a Marselhesa, uma das cenas mais emblemáticas de Casablanca, quanto a mim.

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