A Olympe de Gouges, humanista, política e mulher de letras, autora da “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, que ousou tentar acordar a consciência de Maria Antonieta, Rainha de França
É quase ridículo, convenhamos, que uma efeméride de âmbito internacional tenha por objecto uma ‘entidade maioritária’ como é o caso do sexo feminino. Somos mais de metade da humanidade no planeta Terra. A que propósito, então?
Custa-me dar o braço a torcer… se custa. Mas é verdade que a batalha não está ganha. Sofisticou-se, até. E só por isso, pragmaticamente, continua a valer a pena assinalar o que parece desnecessário e anacrónico.
O machismo adquiriu manhas maquiavélicas. O feminismo pecou por excesso. O masculinismo desponta. E muitas mulheres das gerações ulteriores àquela a que pertenço conduzem-se como autênticas novas-ricas da igualdade de género. Desbaratam-na, dissipam-na, como se a sociedade lhes devesse mais do que a justiça da equidade e esperasse delas um comportamento semelhante ao da velha auctoritas masculina.
Não quero um mundo contrário ao que ainda vivi. Quero um mundo igualitário, sem desequilíbrios.
E gostaria que todas mulheres soubessem ultrapassar o estado de menoridade que as faz concorrer negativamente entre si mesmas; gostaria que deixassem de se comportar conforme os modelos ancestrais em que foram educadas, consciente ou inconscientemente, pelas suas próprias mães e pais. Gostaria de sentir solidariedade entre elas, mas uma solidariedade normal e não militante: lúcida, capaz de vencer racionalmente o instinto atávico da destruição predadora entre congéneres.
Já lá vai o tempo em que as mulheres se distinguiam e se afirmavam pelo seu homem, à sombra de quem eram alguém. Já lá vai o tempo em que se batiam por eles, resumindo a isso a sua conquista de personalidade. Portanto, haverá razão para lutarmos como se um homem, muitos homens, nos governassem? A ‘economia’ emotiva das nossas relações continua a ser isso? Eles? Teremos crescido assim tão pouco?
Há muito a fazer. E muitos Dias da Mulher por festejar…
Até que sejamos pares; até que ocupemos os postos de poder que nos competem.
Até que sejamos iguais a nós próprias.
Por mim, vou daqui festejar discretamente, relembrando o tempo em que o meu pai foi obrigado, com bonomia, a reconhecer que a vida o tinha surpreendido porque as filhas – apesar da forma e do molde e da não expectativa – tinham feito bem mais e melhor que muitos filhos. Devo dizer que, mesmo sem querer, foi a sua grande estatura que muito contribuiu para essas pequenas olimpíadas…


Subscrevo, Laura. Eu também gostava que este dia não fizesse sentido, mas continua a fazer, pelos milhares, milhões de mulheres que são mal-tratadas e humilhadas por esse mundo fora. O mundo não é a Europa e mesmo na Europa continua a haver desigualdades. Faz todo o sentido este dia. Infelizmente.
Faz todo o sentido mesmo, Leonor! Nada de confundir a parte pelo todo, como se tudo estivesse bem. E de irmos em cantigas… Não ficou expresso no post, mas evidentemente que são esses bas-fonds do sexismo, que tu referes, a pior face desta cultura de prepotência masculina.
Uma coisa ficou Olympe de Gouges a saber quando foi guihotinada: não foi Maria Antonieta, Rainha de França a responsável pela sua morte.
A Rainha Maria Antonieta e o Rei Luís XVI nunca mandaram matar ninguém.
Claro que não. E Olympe de Gouges, aliás, fez parte dos que se opuseram ao assassinato dos Reis. Republicana, girondina, sim, mas sempre pugnou por justiça e condenou o Terror. Era uma verdadeira humanista. Vale a pena ler a tal carta que ela dirige a Maria Antonieta, porque não é nenhum libelo acusatório, é uma tentativa de diálogo paritário entre condições femininas.
Sim, li a carta.
É dirigida mais a uma instância do que à mulher concreta, que sabia o papel de solidariedade. Quando o estado iluminista francês assassinou Maria Antonieta, não dispensou antes o «julgamento» – que a esquerda continua a usar – e a Rainha foi acusada, entre outras coisas, de incesto na pessoa de seu filho. Recebeu a afronta (ainda é, suponho) e apelou às mães francesas presentes na sala e a manifestação de solidariedade que recebeu foi também uma das primeiras derrotas da mentira iluminista.
Infelizmente, o humanismo revolucionário francês ceifou muitos mais milhares de vidas antes de ser derrotado, incluída a de Mme. de Gouges.
Claro que é sobretudo dirigida à instância. A instância do poder, a Rainha. Mas não deixa de ter laivos óbvios de apelo ao feminismo.
Infelizmente para vós, senhoras; nunca atingirão a plenitude dos vossos mais que devidos objectivos, tudo porque simplesmente a natureza que vos criou como obra-prima da criação, por um lado, a mesma vos agrilhoa; isto por outro.
Acima da vossa realização, do reconhecimento, sonhos, ambições, expectativas; tudo que por direito natural vos é devido, predomina a vossa essência feminina.
E essa, se na verdade a nós homens nos completa a existência, a vós condena-vos ao enclaustramento eterno.
Mais facilmente uma mulher abdica da própria vida do que da sua beleza.
Não somos nós, homens, que somos intransigentes ou menos compreensivos, mas sim vós, mulheres, quem sois competitivas entre vós.
Quando uma mulher se alinda, se veste e calça a preceito, se penteia e perfuma, não é a pensar no marido ou namorado a quem são dedicados tantos esforços, mas sim para mostrar àquela delambida da amiga que tem a mania que é boa, que ela, se quiser, a arruma para escanteio em dois tempos.
E nós, homens, sabemos isso perfeitamente.
Como vê, a solidariedade feminina que a senhora desejaria, acaba onde a vaidade exige
Interessante, sim senhor. E realista. Só discordo de uma coisa, que é fundamental. A essência feminina não é essa. Isso que descreve é o resultado da sua condição existencial.
E não é o mesmo, senhora?
Só muda o conceito sem lhe deturpar o sentido.
Perecebo o sentido mas as palavras, nestas coisas, são fundamentais e muito significativas. No homem e na mulher a essência é inata; e a existência é o resultado do meio. Todo um mar de diferença. Pergunte ao Sartre…
Muito bem, Laura. “Uma solidariedade normal e não militante”, eis o que nos falta ainda. E a tranquilidade para valorizá-la, sem falsas ressacas de adrenalina. Para quando isto, que parece tão simples?
Lá chegaremos, Ana… quando a inteligência se sobrepuser ao instinto e quando formos muitas a percebê-lo… E quando as mães o ensinarem às filhas. E as filhas às filhas das filhas…. 🙂
“O masculinismo desponta”
Eu não vejo problema nenhum no masculinismo, ou melhor dizendo, na masculinidade. Assim como gosto de ver traços de feminilidade. É no complemento de sexos e na sedução e atracção entre eles que reside boa parte da beleza do Mundo. Sem querer discriminações injustificáveis (como as diferenças de salários, absolutamente incompreensíveis), acho que as diferenças também devem ser realçadas, sem que signifiquem superioridade sobre homens e mulheres, ou vice-versa.
João Pedro: a masculinidade nada tem a ver com o ‘masculinismo’! Como todos os “-ismos”, o masculinismo é um movimento, tendência, ou como queira chamar-lhe, tendente à defesa dos direitos dos homens. Sim, já existe tal coisa, imagine… Está mesmo estudada sociologicamente.
Gostei muito da tua reflexão, que subscrevo, palavra por palavra. E que cuidado tiveste em escolher cada uma!
Quando perguntas se evoluímos assim tão pouco, respondo-te que apesar dos pesares estamos de parabéns. Somos é demasiado exigentes connosco. Não é fácil lutar contra os atavismos que nos foram incutidos por uma cultura que nos é tão adversa.
Gosto especialmente que tu concordes comigo, Teresa 🙂 A sério. Porque a perspectiva sobre a “luta das mulheres” é muito díspar: ou é excessivamente ‘engagée’; ou é fútil e lamentávelmente superficial; ou então é consciente e equlibrada.
Uma coisa concorre de certeza contra nós, como dizes e é inteiramente verdade: esta auto-exigência exacerbada. Esta auto-consciência que acaba por nos tolher.
A História (com h maiúsculo) custa muito a passar…
Pois, como na anedota, segue em três velocidades: devagar, devagarinho e parada 🙂